O Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids) alertou para o risco de ressurgimento da epidemia global de HIV. O aviso consta do relatório especial “Unidas e Unidos para acabar com a aids”, divulgado nesta 2ª feira (27.jul.2026) durante a 26ª Conferência Internacional de aids, realizada no Rio de Janeiro. Leia a íntegra disponível em inglês (PDF – 3 MB).
O documento mostra que a combinação entre cortes no financiamento internacional, redução dos serviços comunitários e dificuldades de acesso à prevenção pode comprometer décadas de progresso. O Unaids afirma que o objetivo de encerrar a aids como ameaça à saúde pública até 2030 corre risco caso não haja retomada desses financiamentos.
publicidade publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seEm 2025, o mundo registrou 1,2 milhão de novas infecções por HIV e 570.000 mortes relacionadas à aids. Apesar de serem os menores índices dos últimos 30 anos, segundo a agência, a resposta global está fragilizada.
publicidadeO relatório destaca que o mundo vive um momento considerado histórico no desenvolvimento de medicamentos preventivos contra o HIV, com novas tecnologias que oferecem níveis de proteção comparáveis aos de uma vacina. Entre os avanços listados estão medicamentos injetáveis de aplicação mensal, medicamentos injetáveis semestrais e comprimidos de uso mensal ainda em fase avançada de testes.
publicidadePorém, o relatório alerta para os recursos destinados ao combate ao HIV. A assistência oficial ao desenvolvimento entrou em colapso em 2025, de acordo com o Unaids, com queda de 23% na ajuda internacional.
Os recursos internacionais direcionados especificamente ao HIV recuaram de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025. A queda de 18% representa o menor nível em quase duas décadas.
publicidadeA situação é ainda mais grave para países africanos de baixa renda, muitos dos quais dependiam de recursos externos para financiar mais de 90% de suas ações contra a epidemia. Na África Subsaariana, 80% dos recursos para prevenção vinham de financiamento internacional.
As organizações lideradas pela comunidade chegaram a receber até 25% da assistência internacional destinada ao HIV em 2024 e, em alguns países, alcançavam 22% das pessoas vivendo com HIV e até 60% das populações marginalizadas. Sem novos investimentos, o Unaids afirma que esses serviços correm risco de colapso.
A diretora-executiva do programa conjunto, Winnie Byanyima, afirma que os governos precisarão ampliar seus investimentos internos para suprir o vácuo deixado pela redução da ajuda externa.
“A era de depender da ajuda internacional acabou. Os países não podem esperar e não podem retroceder. O mundo deve corrigir urgentemente o sistema financeiro que já não é mais funcional e acelerar a reestruturação da dívida para que os governos possam investir no que mais importa: a saúde, a educação e o futuro de suas populações.”
Cenário no BrasilO relatório cita o Brasil entre os países que ampliaram o acesso à prevenção medicamentosa. O país registrou aumento de 41% no número de pessoas que utilizaram medicamentos preventivos contra o HIV pelo menos uma vez no último ano, segundo o documento.
O Unaids destaca, porém, que o Brasil não recebeu da fabricante Gilead uma licença voluntária para o lenacapavir —medicamento injetável semestral que permitiria preços mais baixos ou a produção de versões genéricas—, apesar de o país ter participado dos ensaios clínicos do produto. Diante desse cenário, o Brasil avalia recorrer ao licenciamento compulsório.
A iniciativa da Unitaid, do Fundo Global de Combate à aids, Tuberculose e Malária e de outros parceiros para implementar o lenacapavir tem a meta de alcançar 3 milhões de pessoas até 2028. O Unaids, no entanto, afirma que esse número representa apenas uma pequena parte da necessidade mundial. A estimativa da agência é que 20 milhões de pessoas precisem ter acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para que seja possível reduzir de forma significativa as novas infecções.
Progresso entre paísesO relatório mostra que os avanços variam significativamente entre os países. Sete nações conseguiram reduzir em quase 80% o número de novas infecções desde 2010, e outros 11 países atingiram as metas internacionais de tratamento conhecidas como 95-95-95. Em contrapartida, o avanço desacelerou ou retrocedeu em diversas regiões.
Entre os dados de retrocesso apresentados:
novas infecções aumentaram em 3 regiões do mundo; 21 países registraram crescimento nos casos; cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não estavam em tratamento; quase metade das crianças vivendo com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral.Para a agência, esses números demonstram que o progresso depende da manutenção dos investimentos e da ampliação do acesso aos serviços.
Winnie Byanyima afirmou que a inovação tecnológica precisa ser acompanhada de acesso amplo. “Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar. No entanto, inovação sem acesso não é inovação, é injustiça. O verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los, e a um preço acessível.”
Além da crise financeira, o relatório mostra um crescimento da criminalização de populações vulneráveis. Em 2025, Burkina Faso e Níger passaram a criminalizar relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Em 2026, o Senegal ampliou as penalidades para essas relações. O levantamento atual do Unaids mostra que:
168 países criminalizam o trabalho sexual; 152 países criminalizam a posse de pequenas quantidades de drogas; 66 países criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo; 14 países criminalizam pessoas trans. Metas para 2030Em junho de 2026, 149 Estados-Membros adotaram uma nova Declaração Política sobre HIV e aids, alinhada à Estratégia Global para a aids 2026-2031. As metas estabelecidas para 2030 incluem:
colocar 40 milhões de pessoas em tratamento; garantir acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para 20 milhões de pessoas; reduzir para menos de 10% a proporção de pessoas vivendo com HIV ou em risco que sofram discriminação; reduzir para menos de 10% a proporção de mulheres, meninas e pessoas vivendo com HIV ou em risco expostas à desigualdade de gênero e violência; reduzir para menos de 10% o número de países que mantenham legislações e políticas punitivas que limitem o acesso aos serviços de HIV.Segundo a agência, o cumprimento integral dessas metas poderá evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à aids até 2030.
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