O Brasil ainda é visto como um país marcado pela convivência entre diferentes grupos religiosos, étnicos e culturais. Para a presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo, Célia Parnes, porém, esse ambiente se tornou mais hostil desde os ataques do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023. Atribui a mudança à polarização política, à radicalização nas redes sociais e à importação de conflitos internacionais para o debate nacional.
“O Brasil continua sendo um país de convivência e diálogo, mas seria um erro ignorar que o ambiente se tornou mais hostil e que a vigilância e o combate ao preconceito precisam ser fortalecidos”, disse em entrevista ao Poder360.
publicidade publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-se publicidadeCélia Parnes tem 59 anos e está à frente da Fisesp desde dezembro de 2025. Antes, foi secretária estadual de Desenvolvimento Social no governo de João Doria. É formada em Administração de Empresas pela USP.
publicidadeSegundo Parnes, o aumento dos episódios de antissemitismo registrados desde os ataques é um dos sintomas dessa mudança, que avalia ser mais ampla. Para ela, o maior risco não está só nos casos mais explícitos de discriminação, mas na crescente tolerância social a discursos antes considerados inaceitáveis.
publicidade“O preconceito raramente começa com violência física. Ele começa quando determinadas formas de discriminação passam a ser consideradas aceitáveis. E é justamente esse processo de banalização que hoje exige atenção de toda a sociedade brasileira”, declara.
A presidente da Fisesp defende uma postura clara das autoridades diante de manifestações discriminatórias: “Não pode haver ambiguidades na condenação de discursos que relativizam o Holocausto ou negam ao povo judeu direitos reconhecidos a todos os demais povos. A melhor política pública continua sendo uma mensagem inequívoca de que o preconceito, sob qualquer forma, não será tolerado na sociedade brasileira”.
Para a dirigente, a discussão sobre antissemitismo ultrapassa os limites da comunidade judaica. Trata-se de uma escolha sobre o tipo de sociedade que o Brasil pretende construir.
“Por isso, mais do que falar sobre antissemitismo, estamos falando sobre o tipo de sociedade que queremos construir. Uma sociedade em que a diversidade seja vista como riqueza e não como ameaça”, diz.
Leia trechos da entrevista:
Poder360 – A comunidade judaica brasileira está mais insegura hoje do que estava antes dos ataques de 7 de outubro de 2023? O que mudou na rotina das escolas, sinagogas e instituições judaicas desde então? Célia Parnes – Sem dúvida, a comunidade judaica brasileira se sente hoje mais insegura do que antes de 7 de outubro de 2023. Não apenas pelo que aconteceu naquele dia, mas principalmente pelo que aconteceu depois dele. O atentado do Hamas foi um marco traumático para os judeus do mundo inteiro. Porém, o que mais surpreendeu muitas famílias judaicas foi assistir, em diversos países e no Brasil, à rápida normalização de discursos de ódio. Muitos passaram a perceber que o antissemitismo não era um fenômeno distante ou residual, mas algo que continuava presente e que poderia emergir com força em momentos de crise. Na prática, a rotina das instituições mudou significativamente. Escolas, sinagogas, clubes e organizações comunitárias ampliaram protocolos de segurança. Mas talvez a maior mudança tenha sido emocional. Pais passaram a se preocupar mais com a exposição dos filhos. Jovens passaram a relatar situações de hostilidade em universidades e redes sociais. Ao mesmo tempo, houve um fortalecimento importante do senso de comunidade. Diante da adversidade, as instituições se aproximaram, aumentaram a cooperação entre si e investiram ainda mais em educação, segurança e apoio às famílias. O sentimento é de vigilância, mas também de resiliência.
A Fisesp tem identificado aumento de casos de antissemitismo no Brasil? Esse crescimento ocorre mais nas redes sociais, nas universidades, em manifestações políticas ou em situações do cotidiano? Sim. A Federação Israelita do Estado de SP, assim como outras entidades judaicas no Brasil e no exterior, tem observado um aumento significativo dos episódios de antissemitismo desde 7 de outubro de 2023. Esse crescimento ocorre de forma mais intensa nas redes sociais, onde o alcance, a velocidade de disseminação e o anonimato facilitam a propagação de discursos de ódio. O ambiente digital se tornou um grande amplificador de teorias conspiratórias, desinformação e conteúdos que negam o direito de existência de Israel. Mas o problema não se limita ao ambiente virtual. Temos registrado relatos preocupantes em universidades, onde estudantes judeus passaram a enfrentar situações de intimidação. Também observamos manifestações políticas em que símbolos, palavras de ordem e narrativas ultrapassam a crítica legítima a governos e passam a reproduzir estereótipos antissemitas. O que mais nos preocupa é que o antissemitismo contemporâneo raramente se apresenta de forma explícita. Ele muitas vezes aparece disfarçado de ativismo político, de discurso acadêmico ou de linguagem aparentemente humanitária. Por isso, é fundamental diferenciar a crítica legítima a políticas de qualquer governo da discriminação contra um povo, uma religião ou uma comunidade. O Brasil continua sendo um país de convivência e diálogo, mas seria um erro ignorar que o ambiente se tornou mais hostil e que a vigilância e o combate ao preconceito precisam ser fortalecidos.
Na avaliação da Fisesp, existe hoje um ambiente de normalização do discurso antissemita no debate público brasileiro? Quais exemplos mais preocupam a entidade? Sim. Na avaliação da Fisesp, existe hoje um ambiente preocupante de normalização de discursos preconceituosos no debate público brasileiro. O que mais nos preocupa é que determinadas manifestações que, há alguns anos, provocariam ampla reprovação pública, hoje muitas vezes são relativizadas, justificadas ou tratadas como simples posicionamentos políticos, sem custo reputacional. Recentemente, vimos a Justiça Federal condenar o presidente do PSTU, José Maria de Almeida, por declarações que, segundo a sentença, ultrapassaram os limites da crítica política legítima e ingressaram no campo da discriminação contra judeus. A decisão reconheceu que determinadas falas não eram apenas uma crítica ao governo de Israel, mas uma incitação contra um povo e sua autodeterminação. Também nos preocupa o caso do presidente do PCO, Rui Costa Pimenta. Em declarações públicas, ele afirmou que a memória do Holocausto seria uma “farsa” utilizada para ocultar crimes do sionismo e chegou a sustentar que os judeus não seriam mais perseguidos após 1945. Essas declarações provocaram forte reação da comunidade judaica e levaram a Justiça Federal a receber denúncia por antissemitismo apresentada pelo Ministério Público Federal. Também observamos com preocupação a crescente disseminação de slogans que defendem o desaparecimento do único Estado judeu do mundo. Nenhuma dessas manifestações contribui para a paz ou para o debate democrático. Pelo contrário: elas reforçam estereótipos históricos que, ao longo dos séculos, serviram de base para perseguições contra judeus. O maior risco é quando a sociedade deixa de reconhecer essas manifestações como antissemitismo. O preconceito raramente começa com violência física. Ele começa quando determinadas formas de discriminação passam a ser consideradas aceitáveis. E é justamente esse processo de banalização que hoje exige atenção de toda a sociedade brasileira.
Algumas lideranças judaicas argumentam que declarações de autoridades brasileiras acabam estimulando hostilidade contra judeus. A Fisesp concorda com essa avaliação? Há exemplos concretos? O Relatório de Antissemitismo no Brasil, da Conib em parceria com a Fisesp, aponta que as analogias entre Israel e o regime nazista se tornaram uma das formas mais frequentes de manifestação antissemita no ambiente brasileiro. Isso deriva de manifestações sem nenhuma ponderação, feitas por autoridades e lideranças públicas de alta relevância, que acabam contribuindo para um ambiente mais hostil para a comunidade judaica. Exemplos concretos estão em diversas matérias jornalísticas recentes. Em decorrência disso, muitas pessoas passam a se sentir legitimadas a reproduzir comparações semelhantes, associando judeus, sionistas ou Israel ao nazismo. A posição da Fisesp é simples: não podem ser normalizadas comparações que banalizam o Holocausto, a demonização coletiva dos judeus ou a utilização de padrões que não são aplicados a nenhum outro povo. Quando essa fronteira desaparece, o resultado costuma ser o aumento da hostilidade contra comunidades judaicas locais.
A Fisesp considera que o governo brasileiro tem sido eficaz no combate ao antissemitismo? O que falta fazer em termos de políticas públicas, segurança e educação? O combate ao antissemitismo não deve ser uma pauta de governo, mas uma política de Estado. Reconhecemos iniciativas importantes desenvolvidas por diferentes órgãos públicos ao longo dos últimos anos, especialmente no âmbito da segurança pública, do Ministério Público e de setores do Judiciário que têm tratado com seriedade denúncias de discriminação e discurso de ódio. No entanto, diante do crescimento dos casos registrados após 7 de outubro de 2023, entendemos que ainda há muito a ser feito. O principal desafio é que o antissemitismo contemporâneo muitas vezes não é reconhecido como tal. Ele se apresenta de forma disfarçada, incorporado a discursos políticos, acadêmicos ou ideológicos, o que exige capacitação específica de agentes públicos, delegados, investigadores, promotores, magistrados e educadores para identificar suas manifestações contemporâneas. Também defendemos o retorno à adoção formal da definição de antissemitismo da IHRA, hoje utilizada por dezenas de países democráticos e instituições internacionais, como uma ferramenta de orientação para políticas públicas, educação e segurança. Essa definição não restringe o debate político, mas ajuda a distinguir a crítica legítima da discriminação contra judeus. Na área da educação, é fundamental ampliar o ensino sobre o Holocausto, sobre a história da presença judaica no Brasil e sobre os mecanismos que transformam preconceitos em violência. Na área da segurança, é importante fortalecer os mecanismos de monitoramento de crimes de ódio, aprimorar a coleta de dados e aprofundar a cooperação entre as autoridades e as instituições comunitárias. Hoje, muitas ocorrências sequer são registradas como antissemitismo, o que dificulta a compreensão da real dimensão do problema. Por fim, acreditamos que as lideranças públicas têm uma responsabilidade especial. O enfrentamento ao antissemitismo exige clareza moral. Não pode haver ambiguidades na condenação de discursos que relativizam o Holocausto ou negam ao povo judeu direitos reconhecidos a todos os demais povos. A melhor política pública continua sendo uma mensagem inequívoca de que o preconceito, sob qualquer forma, não será tolerado na sociedade brasileira.
Há uma preocupação de que universidades e movimentos políticos estejam importando para o Brasil conflitos e radicalismos do Oriente Médio? Como isso afeta os jovens judeus brasileiros? Sim, existe essa preocupação. O Brasil está geograficamente distante do Oriente Médio, mas parte do debate que vemos hoje em algumas universidades e movimentos políticos reproduz, quase integralmente, narrativas, palavras de ordem e radicalismos importados daquele conflito. O problema surge quando a complexidade histórica desaparece e uma disputa geopolítica passa a ser apresentada como uma luta moral absoluta entre o bem e o mal, transformando estudantes judeus em alvos de hostilidade. Temos observado com preocupação a influência de intelectuais, ativistas e lideranças acadêmicas que, muitas vezes, apresentam apenas uma narrativa do conflito. Declarações recentes do sociólogo Jessé Souza, por exemplo, associando o caso Epstein a um suposto “lobby judaico” e ao “sionismo judaico”, reproduziram estereótipos clássicos sobre poder e influência judaica que historicamente alimentaram o antissemitismo. As manifestações geraram forte reação pública e questionamentos sobre a utilização de imagens e conceitos historicamente associados à discriminação contra judeus. Também acompanhamos com atenção a atuação de acadêmicos e militantes, tanto de universidades privadas quanto públicas, que descrevem Israel exclusivamente por categorias como colonialismo, apartheid ou genocídio, sem reconhecer a complexidade do conflito, a existência do terrorismo do Hamas ou o direito de autodeterminação do povo judeu. Nas universidades, determinados discursos acadêmicos acabam produzindo um ambiente em que o sionismo passa a ser tratado como uma ideologia intrinsecamente ilegítima e a presença de estudantes judeus fica associada a uma causa política. Recebemos relatos constantes de estudantes que evitam participar de debates, escondem símbolos judaicos, deixam de expressar suas opiniões em sala de aula ou se sentem intimidados em ambientes universitários. Muitos relatam que passaram a ser vistos não como indivíduos, mas como representantes de um conflito internacional. Em alguns casos, a simples condição de ser judeu já é suficiente para que sejam cobrados a se justificar. Universidades existem para debater. O que nos preocupa é quando o ambiente deixa de ser um espaço de pluralidade e passa a operar sob uma lógica de intimidação ideológica. Quando isso acontece, perde a universidade e perde a própria democracia. O papel das instituições de ensino deveria ser ampliar a compreensão sobre conflitos complexos, e não importar polarizações que acabam gerando exclusão, hostilidade e preconceito dentro do campus.
O Brasil sempre foi visto como um país de convivência relativamente pacífica entre diferentes grupos religiosos e étnicos. Esse diagnóstico continua válido em 2026 ou estamos vivendo uma deterioração desse ambiente? Eu acredito que o diagnóstico fundamental continua válido. O Brasil ainda é um país marcado pela convivência harmoniosa entre diferentes grupos étnicos, religiosos e culturais. A comunidade judaica brasileira tem mais de dois séculos de história e, de forma geral, construiu aqui relações de respeito, integração e participação plena na vida nacional. Entretanto, a polarização política, o ambiente das redes sociais, a importação de conflitos internacionais e a disseminação de discursos extremistas têm produzido tensões que não eram tão visíveis no passado. O que antes estava restrito a grupos marginais passou a circular com mais naturalidade no debate público. A imensa maioria dos brasileiros rejeita o preconceito e valoriza a convivência. O que vemos é algo mais sutil e, por isso mesmo, preocupante: uma erosão gradual de certos consensos civilizatórios. Discursos que atacam judeus, muçulmanos, cristãos, negros, indígenas ou qualquer outra minoria passaram a encontrar menos resistência em determinados ambientes do que encontrariam há alguns anos. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que a sociedade brasileira também tem demonstrado capacidade de reação. Vimos manifestações de solidariedade de lideranças religiosas, acadêmicas, empresariais e políticas diante de episódios de intolerância. Isso mostra que os anticorpos democráticos do país continuam presentes. O desafio para 2026 não é apenas proteger a comunidade judaica. É preservar uma característica que sempre foi uma das maiores forças do Brasil: a capacidade de pessoas com origens, crenças e visões de mundo diferentes viverem juntas sem transformar divergências em hostilidade. Quando o preconceito contra qualquer grupo se torna aceitável, todos perdem. E quando a convivência é preservada, todos ganham. Por isso, mais do que falar sobre antissemitismo, estamos falando sobre o tipo de sociedade que queremos construir. Uma sociedade em que a diversidade seja vista como riqueza e não como ameaça.
O que mais preocupa a Fisesp hoje: a segurança física da comunidade judaica, o crescimento do discurso de ódio ou o isolamento político de Israel no debate público brasileiro? Essas 3 questões estão profundamente conectadas e, na prática, acabam se alimentando mutuamente. Mas, se eu tivesse que identificar a preocupação mais abrangente, diria que é o crescimento e a normalização do discurso de ódio. A segurança física é uma preocupação permanente e tratada com máxima seriedade pelas instituições judaicas. O isolamento de Israel no debate público também nos preocupa porque muitas vezes produz distorções e simplificações que dificultam uma compreensão equilibrada do conflito no Oriente Médio. Mas o que efetivamente cria o ambiente para que esses fenômenos prosperem é a normalização de narrativas que relativizam o antissemitismo ou transformam o único Estado judeu do mundo em um alvo de exceção moral. A história demonstra que ameaças à segurança raramente surgem do nada. Elas costumam ser precedidas por um ambiente em que determinadas formas de preconceito passam a ser toleradas, justificadas ou minimizadas. Quando comparações com o nazismo se tornam banais, quando a memória do Holocausto é questionada, quando judeus são responsabilizados coletivamente por acontecimentos internacionais ou quando o sionismo é apresentado como uma ideologia ilegítima por definição, cria-se um terreno fértil para formas mais graves de discriminação. Por isso, a resposta não pode ser apenas questão de segurança, discurso ou diplomacia. Ela precisa ser também educacional, cultural e institucional. O combate ao antissemitismo começa muito antes de uma ameaça concreta. Ele começa na defesa intransigente dos valores democráticos, da verdade histórica e do respeito à dignidade humana.
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