O TCU (Tribunal de Contas da União) não identificou falhas do governo brasileiro no processo para tentar evitar o veto da União Europeia às exportações brasileiras de carne bovina, aves e mel, que entrará em vigor na 5ª feira (3.set.2026).
O ministro Jorge Oliveira relatou nesta 4ª feira (2.set) uma solicitação do Congresso para que a Corte analisasse as medidas tomadas pelo Planalto diante das regras do bloco europeu sobre antimicrobianos na criação de animais.
publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seEm junho, a UE retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar para o bloco, sob a justificativa de que o Brasil não apresentou informações necessárias para comprovar que sua produção atende às exigências relacionadas ao uso dos antimicrobianos, prática proibida pela legislação europeia.
publicidade publicidadeSegundo Oliveira, a área técnica do TCU não identificou omissão ou falha relevante na atuação do governo diante da suspensão. Leia a íntegra da decisão (PDF ? 585 kB).
?Após diligências ao Ministério da Agricultura e Pecuária e também ao Ministério de Relações Exteriores, as informações obtidas mostram o acompanhamento das exigências europeias e a adoção de medidas técnicas, regulatórias e diplomáticas para buscar a adequação às novas regras?, afirmou o ministro durante sessão plenária.
Oliveira disse ainda que a Corte não identificou falhas estruturais que justifiquem, neste momento, a abertura de uma auditoria do Tribunal, ?especialmente porque ainda estão em curso as providências voltadas à reinclusão do Brasil na lista europeia?.
publicidadeA unidade técnica do TCU, no entanto, sinalizou que ?chama a atenção? o fato de que Argentina, Paraguai e Uruguai adotaram medidas específicas antes do Brasil e permaneceram habilitados a exportar para o mercado europeu.
?Embora não se tenha identificado morosidade na atuação dos ministérios envolvidos, até porque se previa que as restrições teriam vigência a partir do início de setembro do corrente ano, desperta atenção o fato de que a Argentina, o Paraguai e o Uruguai sistematizaram as vedações almejadas pela UE antes do Brasil?, disse Oliveira.
Segundo a análise do TCU, os países sul-americanos agiram com maior celeridade regulatória, sistematizando as proibições exigidas pelo bloco europeu muito antes do Brasil. Enquanto Paraguai, Argentina e Uruguai consolidaram seus marcos regulatórios entre 2023 e 2024, a edição de portarias brasileiras com objetivos análogos só ocorreu em 2026.
A norma que proibiu os antimicrobianos em território europeu é de 2018, mas entrou em vigor em 2022. A extensão das exigências para países exportadores foi formalizada em fevereiro de 2023 e a definição do prazo de adequação, com a fixação da data de 3 de setembro de 2026, foi determinada em janeiro de 2024.
As exportações brasileiras dos setores afetados para a União Europeia somaram US$ 2,026 bilhões em 2025, segundo dados do governo. Os segmentos de maior exposição foram carne de aves, com US$ 781,4 milhões exportados ao bloco, e carne bovina, com US$ 1,064 bilhão.
ATUAÇÃO DO GOVERNODesde maio, o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) tenta reverter a decisão junto ao bloco, assessorado por associações e pecuaristas que participam das negociações propondo alternativas e informações técnicas.
O principal instrumento do governo para fazer os europeus mudarem de ideia é o Protocolo de Certificação para Bovinos Livres do Uso de Medicamentos Antimicrobianos, que cria garantias de que animais destinados à exportação não receberam antimicrobianos em nenhuma fase da vida.
O documento foi oficializado em portaria publicada em 29 de maio, poucas semanas após o anúncio do veto, e propõe contratações de certificadoras credenciadas pelo Mapa e aumento de inspeções em fábricas de ração, granjas e frigoríficos. A criação do protocolo não foi suficiente para evitar a suspensão antes do prazo final.
MAPA ALERTOU EMPRESASComo mostrou o Poder360, o Mapa afirmou, em documento enviado à Câmara em 25 de junho, que alertou representantes do setor produtivo desde 2023 sobre a necessidade de adequação às novas exigências. ?Os setores produtivos foram alertados de que os sistemas de controle necessários ao cumprimento dos requisitos da União Europeia possuem natureza privada?, afirma o documento.
Segundo o governo, a 1ª reunião da SDA (Secretaria de Defesa Agropecuária) com os setores potencialmente impactados foi realizada em 15 de junho de 2023. Na reunião, a secretaria teria alertado sobre a necessidade de implementação de sistemas privados de controle para garantir que os animais dos quais são obtidos os produtos exportados à UE não fossem tratados com substâncias vedadas pelo bloco.
O Ministério da Agricultura argumenta que, como não havia perspectiva de proibição no Brasil de todos os antimicrobianos vetados pela UE, caberia ao setor produtivo desenvolver mecanismos próprios de segregação e rastreabilidade.
À SDA caberia avaliar, por verificação oficial, se esses sistemas privados seriam capazes de garantir o cumprimento das exigências europeias e dar respaldo à certificação oficial dos produtos exportados.
SETOR CONTESTOUPara uma parcela do setor pecuário brasileiro, a medida da UE é uma fachada para protecionismo. Em junho, a Faesp (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo) chamou a medida de ?descabida e arbitrária? e cobrou ?pulso mais firme? do governo federal na diplomacia comercial. A entidade afirmou que a decisão não tem ?lastro ou respaldo técnico e científico? e classificou a restrição como ?protecionismo comercial unilateral?.
A FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) também se manifestou contra a medida. Em nota de 12 de maio de 2026, afirmou ver com preocupação ?qualquer tentativa de transformar exigências regulatórias em barreiras políticas ou comerciais? contra a competitividade brasileira. A Frente disse ainda que o caso não representa falha sanitária da pecuária nacional.
Já a Abiec disse que a carne bovina brasileira atende aos requisitos sanitários e regulatórios dos principais mercados internacionais e que o setor privado trabalhava em parceria com o Mapa na elaboração de protocolos para atender às novas exigências europeias. A ABPA também afirmou que o Brasil prestaria esclarecimentos à UE para demonstrar conformidade com as regras sobre antimicrobianos.
Além das críticas à medida da UE, há uma corrente dentro do setor que avalia que o governo demorou para agir em relação às regras.
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