A AAPBB (Associação dos Assistidos do Plano Básico de Benefícios) da Fapes (Fundação de Assistência e Previdência Social) diz que a Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar) prestou esclarecimentos equivocados à Justiça Federal em uma disputa sobre a migração do plano de previdência dos empregados do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
A autarquia teria ignorado os pedidos da AAPBB para participar das negociações de um fundo de R$ 18 bilhões. A entidade afirma que pediu para entrar no processo administrativo em outubro de 2025, antes da aprovação do novo plano, e não apenas em abril de 2026, como sustenta a autarquia. Eis a íntegra da petição (PDF – 2 MB).
publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seDe acordo com o pedido de impugnação protocolado pela AAPBB em 21 de agosto de 2026, a Previc apresentou sua defesa no mandado de segurança (protocolado em 20 de julho de 2026) sob alegação de que a associação só teria pedido ingresso no processo administrativo em abril de 2026, quando a aprovação da mudança do plano já estava encerrada. A entidade representativa dos aposentados, no entanto, rebate a versão da autarquia. O advogado da associação, Rogério Derbly, disse que os documentos anexados ao processo comprovam que o requerimento da AAPBB se deu ainda em outubro de 2025, na fase de instrução.
publicidade publicidade“A necessidade de peticionar se deu em decorrência do fato de a Previc ter prestado esclarecimentos equivocados ao juízo, tentando induzir ao erro de que a AAPBB teria apenas pedido o seu ingresso na participação do processo após a legalização, que seria em abril de 2026. Quando não foi o que aconteceu”, afirmou Derbly.
A disputa pode ultrapassar a esfera cível. “Pretendemos encaminhar peças aos órgãos de controle e às autoridades competentes para que sejam apuradas eventuais irregularidades. Não pode ser possível e crível que, diante de tantas provas que corroboram que a AAPBB solicitou o seu ingresso a tempo oportuno, venham agora aos autos de um processo de mandado de segurança prestar esclarecimentos equivocados”, declarou. Entre esses órgãos, está a Procuradoria da República.
Guerra das datasNa impugnação apresentada à 1ª Vara Federal Cível do Distrito Federal, a defesa da AAPBB aponta uma “subversão do objeto” por parte da Previc.
A associação afirma que a linha do tempo dos fatos foi deliberadamente distorcida pela autarquia:
publicidade o pedido original – de admissão como parte interessada no processo de migração foi protocolado pela AAPBB em outubro de 2025, durante a fase de instrução; nova solicitação – em abril de 2026 foi apenas um requerimento cobrando esclarecimentos sobre o motivo de o pedido de admissão original ter sido ignorado; a Previc – teria utilizado o ofício de cobrança de abril de 2026 como se fosse o pedido inicial de admissão, alegando intempestividade, como forma de não responder por que o processo transcorreu sem a análise do ofício de outubro de 2025.Para comprovar uma possível contradição do órgão regulador, a AAPBB anexou ao processo documentos que mostram que outra entidade –a AFJoia (Associação dos Funcionários Atingidos pela Resolução 26/2011)– apresentou requerimentos à Previc em 19 de dezembro de 2025.
Esse pedido da AFJoia foi recebido, processado e respondido pela autarquia em janeiro de 2026, antes da conclusão da instrução e do encerramento do processo administrativo.
Para a AAPBB, o tratamento conferido à AFJoia evidencia que a Previc possuía total capacidade para analisar manifestações de associações na mesma época em que ignorou os ofícios dos aposentados.
Contexto da disputaA batalha judicial se dá no rastro da aprovação do novo plano de contribuição definida (CD) e da conclusão da migração dos participantes do antigo plano de benefício definido (PBB).
De acordo com Ângela Carvalho, presidente da AAPBB, a autarquia ignorou os pedidos para participar das negociações de um fundo bilionário: a Fapes administra um patrimônio de R$ 18 bilhões e reúne 4.600 participantes, divididos pela metade entre trabalhadores da ativa e assistidos.
Ainda segundo Ângela, 40% dos integrantes migraram para o novo modelo, levando R$ 7,8 bilhões das reservas. Os R$ 11 bilhões restantes continuam no plano original, que concentra 60% dos participantes. Entre os aposentados, a adesão foi mínima: apenas 87 fizeram a transferência para o modelo de contribuição definida.
A diferença entre os modelos é o centro da controvérsia. No plano de benefício definido, o participante tem conhecimento prévio da renda vitalícia e os riscos são compartilhados. No novo CD, a aposentadoria depende do saldo individual acumulado e do desempenho do mercado financeiro, transferindo os riscos de rentabilidade e longevidade para o assistido.
A mudança foi impulsionada por um acordo para equacionar o passivo do fundo. A associação afirma que o desequilíbrio atuarial tem origem em aumentos salariais concedidos pela estatal a funcionários da ativa no passado, elevando o custo futuro das aposentadorias.
Derbly disse que o TCU (Tribunal de Contas da União) não determinou diretamente a divisão do deficit em fatias de 50% –a divisão paritária decorre das leis complementares 108 e 109, de 2001. O que a Corte de Contas fez, segundo a defesa dos aposentados, foi rever de forma equivocada um entendimento anterior que atribuía exclusivamente ao BNDES a responsabilidade estrutural por determinados impactos causados ao fundo.
OUTRO LADOA Fapes defende a regularidade da transição e argumenta que tudo ocorreu de forma transparente e voluntária. Segundo a fundação, “entre 4 de maio e 2 de julho de 2026, cada participante escolheu livremente entre permanecer no plano atual (PBB), sem qualquer alteração em seus direitos, ou migrar para o novo plano (PBB-CD)”.
A entidade também citou a robustez de ambos os modelos: “Iniciamos o processo com um PBB sólido e terminamos com um plano CD igualmente sólido. Todas as medidas tomadas cumprem integralmente com a legislação e prezam pela transparência e manutenção dos direitos”.
O BNDES, por sua vez, disse que o passivo atuarial sofre influência de diversos fatores além das políticas de recursos humanos do passado, como premissas atuariais e desempenho da carteira. O banco ressaltou que “qualquer controvérsia nesse sentido foi dirimida em setembro de 2024, quando foi aprovada uma solução consensual […] mediada pelo Tribunal de Contas da União”.
A estatal afirmou que a migração foi opcional, resultando em “2 planos sustentáveis, sem prejuízo a quem permaneceu no BD”.
O BNDES declarou o impacto contábil positivo da mudança para o balanço da instituição: “a solução mediada pelo TCU permite ao BNDES reduzir o passivo com benefícios de aposentadoria de seus empregados em suas demonstrações financeiras, liberando tal valor para a sua atividade-fim, ou seja, permitindo ao banco direcionar mais recursos para o financiamento a atividades produtivas”.
A Previc foi procurada pela reportagem pela 1ª vez no dia 7 de agosto e novamente na quarta-feira (26.ago.2026), mas não enviou resposta até a publicação desse texto.
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