O governo federal decidiu em maio de 2026 restabelecer a isenção do Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, extinguindo a cobrança federal conhecida como “imposto da blusinha”. A mudança de posição merece ser reconhecida. Afinal, admitir um erro e corrigi-lo é sempre melhor do que insistir em uma decisão equivocada.
Desde a concessão da isenção, era possível imaginar os efeitos negativos da medida. Ao abrir mão da tributação sobre produtos importados de baixo valor, o governo reduziu sua capacidade de arrecadação justamente em um momento de forte pressão sobre as contas públicas.
publicidade publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seAlém disso, criou uma concorrência desigual para o comércio e a indústria nacionais, que continuam sujeitos a elevada carga tributária, a custos trabalhistas e a exigências regulatórias que não recaem sobre os produtos adquiridos diretamente de plataformas estrangeiras.
publicidadeO resultado foi duplamente prejudicial. De um lado, o setor produtivo brasileiro perdeu competitividade. De outro, o governo deixou de arrecadar recursos importantes para o financiamento das políticas públicas.
publicidadeA contradição se torna ainda mais evidente quando observamos o discurso oficial sobre a situação fiscal do país. A própria equipe econômica tem alertado repetidamente para a necessidade de ampliar receitas e controlar despesas. Em maio de 2026, por exemplo, anunciou um bloqueio adicional de R$ 22,1 bilhões no Orçamento, aumentando a contenção total de gastos para R$ 23,7 bilhões, justamente para cumprir as regras fiscais e acomodar o crescimento das despesas obrigatórias.
publicidadeEssa preocupação não se limita à equipe econômica. As discussões do Copom (Comitê de Política Monetária) também continuam destacando a importância da responsabilidade fiscal para a estabilidade econômica. Nas comunicações mais recentes, o Banco Central tem ressaltado que a deterioração do cenário fiscal pode aumentar as pressões inflacionárias e dificultar o processo de redução dos juros, reforçando a necessidade de equilíbrio das contas públicas.
Diante desse contexto, surge uma pergunta inevitável: se o governo afirma enfrentar restrições fiscais, promove bloqueios orçamentários e alerta para a necessidade de ampliar receitas, por que decidiu isentar as compras internacionais de pequeno valor?
A resposta parece evidente: tratou-se de um erro de avaliação. A medida buscou agradar consumidores no curto prazo, mas ignorou seus impactos sobre a arrecadação e sobre a competitividade das empresas brasileiras. Enquanto o varejo nacional recolhe impostos e cria empregos no Brasil, grande parte dessas compras internacionais transfere renda e atividade econômica para o exterior.
Por isso, a revisão da política é bem-vinda. Não se trata de criar um tributo, mas de restabelecer uma cobrança retirada e corrigir uma distorção que favoreceu produtos importados em detrimento da produção e do comércio nacionais. Em um país que enfrenta desafios fiscais relevantes e busca recursos para financiar suas prioridades, não faz sentido renunciar a receitas que podem ser arrecadadas de forma justa e equilibrada.
O restabelecimento do chamado “imposto da blusinha” representaria acima de tudo, o reconhecimento de que a isenção produziu resultados indesejados. Não há justificativa para abrir mão de uma fonte de arrecadação enquanto o próprio governo defende a necessidade de reforçar receitas, conter despesas e preservar a credibilidade fiscal. Corrigir o rumo agora seria reconhecer um erro que reduziu a arrecadação, prejudicou a competitividade do comércio nacional e contrariou o próprio discurso de responsabilidade fiscal defendido pelo governo.
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