A palavra socialismo é como um estigma na política norte-americana. A grande maioria das pessoas a toma como sinônimo ou equivalente de comunismo, e os políticos que assumem essa identidade dificilmente têm sucesso eleitoral.
Mas desde o final de 2025 e na atual temporada de eleições primárias para os pleitos que renovarão a Câmara e ⅓ do Senado em novembro, muitos deles estão obtendo vitórias surpreendentes.
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publicidade publicidadeA 1ª e a mais importante foi a de Zohran Mamdani. Com 34 anos, muçulmano, nascido em Uganda, ele se tornou prefeito de Nova York em 4 de novembro de 2025, com 50,7% dos votos, contra 41,3% do ex-governador de Nova York Andrew Cuomo, filho de um dos mais populares políticos do Estado, e 7% de Curtis Silwa, do Partido Republicano de Donald Trump.
Mamdani é filiado ao Partido Democrata. Mas faz parte de um grupo chamado Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês), que tem sido o motor do avanço das ideias de esquerda no país desde sua fundação, em 1982, quando diversos movimentos sociais surgidos na década de 1960 na oposição à guerra do Vietnã e outros temas, resolveram unir-se.
publicidadeO DSA não é um partido político. Seu propósito é fazer avançar propostas que ele propugna nas plataformas de partidos, especialmente o Democrata, no qual seus líderes têm maior acolhida.
publicidade publicidadeO senador federal Bernie Sanders é o nome mais conhecido entre os apoiados pelo DSA. Em 2016, ele concorreu à indicação presidencial dos democratas, e obteve 46% dos votos dos delegados à convenção nacional do partido, contra 54% da ex-primeira-dama Hillary Clinton.
A campanha de Sanders mobilizou centenas de milhares de jovens e propagou muitas das teses defendidas pelo DSA, embora o próprio senador nunca tenha sido formalmente vinculado ao grupo.
Segundo a Brookings Institution, o DSA apoiou 282 pré-candidatos a cargos eletivos neste ano. A maior parte para legislativos municipais e estaduais, mas 64 deles para cadeiras no Congresso dos Estados Unidos.
Diferentemente do que ocorria no passado, desta vez a maioria dos endossados pelo grupo (123) ganharam as primárias; 110 perderam e 7 pleitos ainda não foram realizados.
publicidadeA mais importante vitória entre essas 123 foi a de Abdul El-Sayed, que concorrerá ao Senado Federal pelo Estado de Michigan em novembro. Como Mamdani, ele é muçulmano e jovem (41 anos). É o 1º muçulmano na história do país a disputar uma eleição para o Senado dos Estados Unidos.
O sucesso relativo do DSA deu ao Partido Democrata uma vitalidade eleitoral que ele não via desde a campanha de Sanders em 2016. Alguns analistas acham que ocorre agora na oposição algo similar ao movimento Tea Party, que em 2009 energizou o Partido Republicano, com uma plataforma muito conservadora e populista que semeou terreno para a ascensão de Donald Trump.
Mas vários líderes do Partido Democrata veem o avanço do DSA com bastante receio de que a radicalização do seu discurso afaste eleitores centristas e os decepcionados com o governo Trump e que isso possa minar as chances de a oposição obter a maioria da Câmara e, principalmente, do Senado.
No Estado da Flórida, uma associada do DSA, Angie Nixon, uma negra de 42 anos de idade, derrotou surpreendentemente um oficial reformado do Exército, Alex Vindman, que era visto como possível vencedor na eleição para o Senado Federal em novembro por seu perfil centrista, embora ele seja extremamente contrário ao presidente Trump.
Assim como o que ocorreu em Nova York, quase todos os sucessos do DSA têm sido em eleitorados com histórico de êxitos para candidatos liberais. O caso de Angie Nixon foi uma exceção a essa regra.
O de El-Sayed é o que mais assusta o establishment do Partido Democrata porque Michigan é um Estado que oscila entre os 2 grandes partidos nas eleições para cargos federais.
Ainda é cedo para prever se essa onda de esquerda no Partido Democrata vai ou não continuar e resultar em algo como a ascensão de um líder com condição de disputar seriamente altos cargos federais.
Historicamente, isso é improvável. O mais popular socialista a ter concorrido à Presidência, por exemplo, foi Eugene Debs, pelo Partido Socialista da América, que se dissolveu em 1972 por absoluta irrelevância eleitoral.
Debs foi o político declaradamente socialista que recebeu mais votos para presidente. Isso aconteceu em 1920, quando ele teve o apoio de pouco mais de 1 milhão de eleitores, contra 16 milhões que preferiram o conservador republicano Warren Harding e 9 milhões que escolheram o moderado democrata James Cox.
Pode até ser que o DSA venha a decolar e ter relevância na política dos Estados Unidos. Mas, por enquanto, ele corre o risco de vir a ser acusado de ter inviabilizado a chance da oposição a Trump ganhar o controle do Congresso nos 2 anos finais de seu mandato presidencial.
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