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Voltaire de Souza Veja bem qual vai ser seu candidato

Voltaire de Souza Veja bem qual vai ser seu candidato
Casal em busca de uma alternativa à polarização confunde programa eleitoral com culto evangélico. Leia o artigo no Poder360.

Polêmicas. Disputas. Polarizações.

A campanha eleitoral parece dar pouca chance a candidatos da 3ª via.

Edvar estava cansado.

–Um acusando o outro… esses 2 aí… já encheu, pô.

A namorada dele se chamava Luna.

–Eu te falo isso o tempo todo, fofo.

O rapaz ia enrolando seu 1º baseado.

–Lula e Flávio… não tem nada a ver.

–Claro. Sem contar que você sempre foi alternativo.

–Não é bem isso.

–Como não é? Você sempre foi da paz e do amor.

De fato.

Desde a década de 1970 o casal se dedicava ao artesanato e à vida natural.

–Claro que a gente vai mudando…

A chácara na Ilha do Cardoso teve de ser vendida.

E quando a mãe de Luara morreu, eles se transferiram para o centro de São Paulo.

–Melhor para vender as nossas coisas na feirinha.

Artigos de palha. Bolsas de couro. Almofadas de crochê.

O apartamento na Vila Buarque estava bem conservado.

–Do jeitinho que a mamãe deixou.

Edvar tirava um pedacinho de erva da ponta da língua.

–Então. Eu já votei no Lula muitas vezes…

–Claro, né, Edvar.

–Mas agora… esse clima de conflito… de bate-boca…

–Muito chato. 

–E depois que a gente entrou no budismo pra valer…

–A gente vê as coisas com um pouco mais de distância.

–Não é o bem contra o mal.

–E essa briga toda não leva a nada.

A questão se colocava.

Em quem votar?

–Tem um monte de candidato, né, Luara?

–PCO, PSTU, PCB…

Edvar suspirou.

–Tudo tão antigo… e depois, essa coisa de partidos…

–O que é que tem?

–Eu acho importante conhecer a pessoa. O ser humano.

Começam os primeiros debates na TV.

–Será que a televisão da sua mãe ainda funciona?

Imagens não muito nítidas apareceram na tela do velho aparelho CCE.

–Olha. Tem um começando a falar.

Um senhor de terno e gravata segurava o microfone.

–E eu não me canso de dizer… precisamos ter confiança no caminho…

–Aumenta o volume.

Edvar ficou concentrado por alguns minutos.

–É. É. É.

Luana fez outro baseado.

–Xi. Deixei o isqueiro na cozinha.

O rosto do namorado aos poucos se iluminava.

–Incrível. Como é que nunca pensei nisso?

Ele deu mais um tapinha.

–Cara superarticulado.

–Sincero, né Edvar?

–Ele vai dizendo as coisas…

–E a gente acredita.

–Põe tudo num plano superior.

–Com muito mais espiritualidade.

A telinha mostrava os números do Pix para contribuições.

–A gente podia dar um pouquinho…

–A sua mãe não ia achar ruim tirar uns R$ 10 da aposentadoria dela.

–Não, claro que não…

A modesta quantia foi enviada.

Direto para a conta da igreja Palavras da Promessa.

Luara ia desligando o controle remoto.

Foi quando os dedos da artesã acidentalmente mudaram de canal.

–Ué. O debate era aqui nesse canal.

–E a gente estava assistindo o quê?

–Era o programa evangélico, Edvar. Só pode ser.

De fato.

O pastor Avarildo de Menezes concorria com o programa político.

Há candidatos e pastores para todos os gostos.

Mas, usando paletó e gravata, todo mundo se confunde.

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