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Samir Choaib Talvez Memphis tenha acertado o alvo

Samir Choaib Talvez Memphis tenha acertado o alvo
O pênalti que eliminou o Corinthians pode ter escancarado que o verdadeiro adversário está fora de campo. Leia o artigo no Poder360.

A bola subiu. Subiu muito. Passou por cima do gol do Estudiantes, por cima da esperança de milhões de corintianos e, por alguns segundos, pareceu que só pararia no Metrô Itaquera. Confesso: doeu.

Nunca saí de um estádio pós-jogo do Timão com tanto silêncio; todos pareciam em estado de choque.

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O pênalti perdido por Memphis Depay no último lance contra o Estudiantes eliminou o Corinthians da Libertadores e produziu uma daquelas noites que o torcedor gostaria de apagar da memória.

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Mas, passadas algumas horas, comecei a olhar para aquele chute de outra maneira. Talvez Memphis tenha errado o gol, mas acertado o alvo. Porque aquela bola mandada para a arquibancada pode simbolizar algo muito maior: um chute no sistema que levou o Corinthians à situação em que está.

Um chute na gestão irresponsável. No endividamento sem limites. No desrespeito ao tamanho do Corinthians. E, principalmente, na anestesia coletiva que toma conta do clube toda vez que aparecem algumas vitórias. É duro dizer isso, mas talvez não merecêssemos ser campeões da Libertadores.

A Fiel, sim. A Fiel merece tudo. Mas um título neste momento poderia funcionar como uma enorme máscara para esconder, mais uma vez, aquilo que não pode mais ser escondido.

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O Corinthians tem dívida próxima de R$ 3 bilhões. No 1º semestre de 2026, apresentou deficit de R$ 246 milhões, quase 80% acima do preestabelecido no orçamento. Estamos falando de números incompatíveis com qualquer conceito minimamente responsável de gestão.

E a consequência já chegou ao campo.

O Corinthians atravessou uma janela decisiva impedido de registrar jogadores. Terminou o período com transfer bans ativos e sem contratar um único reforço. Depois reclamamos que não havia banco para mudar um jogo de quartas de final de Libertadores.

Mas de quem exatamente devemos reclamar? Do jogador que perde o pênalti? Do goleiro que toma um gol defensável? Do zagueiro que perde uma dividida? Do volante que dá um carrinho atrasado por segundos e toma cartão vermelho?

É muito fácil transformar o erro individual em explicação para uma tragédia construída durante anos. Mais difícil é cobrar quem colocou o Corinthians nessa situação. Então, faço uma pergunta incômoda: com que autoridade cobramos que os jogadores cumpram integralmente sua parte se o Corinthians não consegue cumprir a dele? Se não paga em dia os salários?

Não estou absolvendo ninguém. Os jogadores poderiam ter jogado muito mais. Memphis não poderia cobrar daquele jeito um pênalti daquela importância. Mas o problema do Corinthians é infinitamente maior do que Memphis Depay.

Foi exatamente por enxergar essa realidade que me juntei aos idealizadores da SAFiel. Por afinidade de ideias e por vontade de ajudar. Ninguém quer cargo, remuneração, comissão, ingresso, camisa ou qualquer benefício. Nada. E esse compromisso está registrado em cartório.

Assim como os demais idealizadores, quero um Corinthians administrado de forma profissional, responsável e compatível com sua grandeza. E acredito que a SAFiel foi desenhada sob medida para a situação de pré-falência em que o clube se encontra.

A proposta parte de uma ideia poderosa: transformar o torcedor em investidor.

O corintiano sempre foi chamado para ajudar. Compra camisa, ingresso, produto licenciado, paga programa de fidelidade, acompanha o clube onde estiver e entrega ao Corinthians algo que nenhuma planilha consegue mensurar: paixão.

A SAFiel propõe algo diferente. Que essa força econômica extraordinária deixe de ser só fonte de consumo e passe também a participar da capitalização e da reconstrução do clube, dentro de uma estrutura profissional de governança. Pode-se discutir o projeto. Criticá-lo. Questioná-lo. Aperfeiçoá-lo. O que não se pode é ignorá-lo.

Em 26 de agosto, representantes da SAFiel passaram cerca de 4 horas reunidos com a direção e integrantes dos principais órgãos do Corinthians. Houve questionamentos e divergências. Como deveria haver. Os dirigentes atuais encaminharam quase 200 perguntas. A SAFiel respondeu. Foram dezenas de páginas entregues dentro do prazo combinado.

E agora? Qual é o próximo passo? Quais respostas foram consideradas insuficientes? Quais dúvidas permanecem? Qual é o cronograma? O Corinthians não tem mais o luxo do silêncio. Muito menos pode apostar no esquecimento do torcedor.

Talvez uma sequência de vitórias fizesse a discussão esfriar. Uma semifinal de Libertadores compraria mais alguns meses. Um título permitiria empurrar o problema para o ano seguinte.

Pois bem. Não ocorreu. A bola de Memphis subiu. E talvez tenha levado embora também uma das últimas desculpas para não enfrentar a realidade.

É impossível, neste ponto, não olhar para o nosso maior rival. E peço licença ao corintiano para escrever uma palavra que preferimos evitar: Palmeiras. Não gosto de falar. Muito menos de escrever. Mas hoje é necessário, justamente para não maquiar a situação em que estamos.

Sem meias palavras: o Corinthians deveria estar muito, mas muito à frente do Palmeiras. Temos uma torcida muito maior, um potencial de engajamento incomparável, fanatismo. Somos 30 milhões. Por que, então, aceitamos como normal estar tão atrás?

Não é normal. Não podemos normalizar. Não podemos olhar para quase R$ 3 bilhões em dívidas, salários atrasados, transfer bans e ausência de reforços e tratar tudo isso como uma fase ruim do futebol. Não é fase. É consequência. A Fiel precisa escolher contra quem direcionará sua indignação.

Continuaremos xingando o atacante que perde um gol, o lateral que toma uma bola nas costas, o goleiro que falha e o técnico que escala mal? Ou começaremos a cobrar, com a mesma intensidade, aqueles que conduziram e conduzem uma instituição gigantesca a essa situação?

O chute de Memphis foi horroroso. Talvez tenha sido um dos pênaltis mais dolorosos da história do Corinthians. Mas quero acreditar que aquela bola que desapareceu atrás do gol tenha servido para alguma coisa. Que tenha sido o último chute de um Corinthians que insiste em adiar decisões. E o 1º contra um sistema que já mostrou, pelos números, pelos atrasos e pelo campo, que não consegue mais entregar o Corinthians que sua torcida merece.

Memphis errou o gol. Resta saber se o Corinthians finalmente acertará o rumo.

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