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Carolina Ricardo Segurança pública não se mede pelo tamanho da promessa

Carolina Ricardo Segurança pública não se mede pelo tamanho da promessa
Propostas dos presidenciáveis têm diferenças entre endurecimento penal, ações de inteligência e prevenção. Leia o artigo no Poder360.

A segurança pública firmou-se no centro da disputa presidencial e isso não surpreende. O crime organizado ampliou sua influência econômica e territorial, a violência continua fazendo parte da rotina de milhões de brasileiros e a população cobra do Estado uma resposta à altura desses desafios. O problema começa quando essa demanda legítima encontra soluções eleitorais que parecem simples, mas que ignoram deliberadamente a complexidade do problema.

Ao analisar as propostas apresentadas pelos principais presidenciáveis, encontramos alguns consensos sobre o diagnóstico, mas diferenças importantes sobre o caminho a seguir. Há candidatos que não passam de apostas no endurecimento das penas, na ampliação das prisões e em uma linguagem de guerra contra o crime. Outros apresentam medidas de fortalecimento da investigação, integração entre instituições e prevenção. É essa diferença fundamental que precisa entrar no debate eleitoral.

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Lula, por exemplo, propõe a criação do Ministério da Segurança Pública e aposta na coordenação entre União, Estados e municípios, no fortalecimento da inteligência, no controle de armas e em iniciativas já experimentadas pelo governo federal, como o Celular Seguro. São caminhos relevantes, sobretudo diante de um sistema historicamente fragmentado. A questão é saber por que algumas dessas mudanças demoraram tanto para avançar e qual será, de fato, a prioridade dada à segurança em um eventual novo mandato.

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Já Flávio Bolsonaro apresenta propostas de forte apelo junto a um eleitorado preocupado com a violência, como redução da maioridade penal, criação de tropa de elite nacional, ampliação de presídios de segurança máxima e castração química. São medidas que produzem manchetes, mas deixam dúvidas importantes sobre sua efetividade, constitucionalidade ou capacidade de atingir as estruturas que sustentam o crime organizado. Ao mesmo tempo, traz propostas que merecem atenção, como o monitoramento eletrônico de agressores para ampliar a proteção de mulheres vítimas de violência.

Renan Santos leva ainda mais longe a ideia de guerra ao crime ao estabelecer uma lógica de confronto com organizações criminosas e defender restrições de direitos para determinados grupos. O risco dessa abordagem é substituir uma política de segurança por uma política de exceção. Para enfrentar facções, precisamos atingir suas lideranças, fluxos financeiros, armas e estruturas de corrupção. Prisões indiscriminadas e flexibilização de garantias não resolvem essas tarefas e ainda podem alimentar organizações que cresceram justamente dentro do sistema penitenciário.

Romeu Zema também recorre a propostas como unidades prisionais específicas para integrantes de facções e participação das Forças Armadas no enfrentamento ao crime organizado. Ao criticar o chamado “prende e solta”, aproxima-se de um discurso bastante conhecido no debate público, mas que pouco ajuda a compreender as responsabilidades de cada instituição ou a construir soluções juridicamente seguras. Seu programa, por outro lado, reconhece a importância do combate à corrupção, dimensão indispensável para enfraquecer redes criminosas.

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Ronaldo Caiado apresenta alguns elementos diferentes. Há espaço para investigação, perícia, indicadores e combate à corrupção, além da proposta de uma Secretaria Nacional de Segurança da Mulher. São iniciativas que apontam para o fortalecimento da capacidade do Estado, mas que não eliminam problemas: propostas como enquadrar determinadas organizações criminosas como “terrorismo doméstico” precisam ser avaliadas com cuidado, tanto por seus efeitos jurídicos quanto pela sua viabilidade institucional.

Por fim, Augusto Cury propõe a criação de sistemas, forças de segurança, tecnologias, sem fazer referência ao que já existe e sem detalhar ou discriminar o alcance, o público-alvo, a viabilidade de instituição e implementação, considerando o que cabe ao nível federal e como isso deve ser feito. Positivamente, o plano apresenta indicadores de resultado a serem acompanhados.

O que essa comparação revela é que firmeza e eficiência não são sinônimos. Um governo pode prometer milhares de novas vagas em presídios e ainda assim não conseguir reduzir homicídios, desarticular facções ou impedir que armas cheguem às mãos de criminosos. O Brasil já tem uma das maiores populações carcerárias do mundo, e as organizações criminosas continuam recrutando, movimentando recursos e expandindo seus negócios. Aumentar o número de vagas, sem uma proposta concreta para lidar com os mais de 900 mil presos existentes no país, com a retomada do controle sobre a gestão prisional pelo Estado, a separação por tipo de crime ou um programa efetivo de ressocialização, significa só repetir a mesma estratégia ineficiente em escala ainda maior.

Uma política nacional de segurança precisa combinar investigação qualificada, inteligência, prevenção da violência, controle responsável de armas, proteção às vítimas, valorização e controle das polícias, enfrentamento financeiro das organizações criminosas e coordenação entre os diferentes níveis de governo. Precisa também estabelecer metas e indicadores que permitam à sociedade saber se aquilo que foi prometido produziu resultado.

Durante uma eleição, é tentador premiar quem oferece a resposta mais contundente para um problema que provoca medo e indignação, mas segurança pública não pode ser medida pela dureza de uma frase. O próximo presidente terá de demonstrar capacidade para transformar propostas em políticas executáveis, financiadas, constitucionais e avaliáveis.

A pergunta que deveria orientar o eleitor, portanto, não é qual candidato promete punir mais. É qual deles apresenta as melhores condições para fazer o Estado funcionar melhor contra a violência e o crime organizado. É desse resultado, e não do tamanho da promessa, que depende alcançarmos uma sociedade mais segura.

Nota do editor: o PoderDataCast, podcast deste Poder360 sobre pesquisas eleitorais, conversou com Jacqueline Muniz, antropóloga, cientista política, professora do bacharelado de segurança pública da Universidade Federal Fluminense e gestora de Segurança Pública, sobre a segurança pública no Brasil e o contexto eleitoral.

Assista (1h16min30s): 

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