Segundo dados preliminares do Ministério da Fazenda, no ano passado, 25 milhões de brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas casas de apostas legalizadas. Isso representa mais de R$ 100 milhões por dia saindo dos apostadores para as bets. Desse montante, R$ 36,9 bilhões não retornaram aos apostadores.
Em paralelo, um estudo do Comsefaz, utilizando outra metodologia, estimou que as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões líquidos da renda das famílias brasileiras em 2025. Os números não devem ser somados, pois medem o fenômeno de maneiras diferentes. Ambos apontam na mesma direção: uma quantidade gigantesca de recursos está deixando o orçamento doméstico e migrando para o jogo.
publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seChamar isso de entretenimento seria cegueira ou hipocrisia. Estamos lidando com uma atividade que se alimenta, em parte, da angústia financeira produzida pela combinação de endividamento, inflação, carestia e falta de educação financeira da população. E que, além de prejudicar a atividade econômica, também é particularmente útil para o crime organizado.
publicidade publicidadeO problema das bets, portanto, já ultrapassou a discussão sobre a liberdade individual de apostar. Quando as consequências de uma escolha individual passam a ser suportadas pela família, pelo comércio e, em considerável medida, pela própria sociedade, estamos diante de um problema de interesse público.
DANOS ÀS FAMÍLIASEsse dinheiro faz falta em algum lugar. Quando alguém perde R$ 200 numa aposta, não são só R$ 200 que mudaram de mãos. Esses R$ 200 deixam de comprar alimentos, roupas, medicamentos, material escolar ou de pagar uma prestação.
Uma pesquisa acadêmica divulgada pela Fapesp estimou que 10,9 milhões de brasileiros com mais de 14 anos jogam de maneira capaz de provocar problemas emocionais, familiares, econômicos ou profissionais. Isso corresponde a 6,8% da população nessa faixa etária.
publicidadeUm estudo divulgado em 17 de agosto sobre mulheres e apostas revelou outro aspecto inquietante. Segundo o levantamento, 42% das brasileiras pesquisadas disseram apostar ou já ter apostado, enquanto outros 12%, embora não apostassem, afirmaram sofrer consequências das apostas de parceiros ou familiares. Entre as mães, a incidência de apostas foi 1,6 vez maior do que entre mulheres sem filhos. Muitas relatam apostar não por diversão, mas tentando conseguir dinheiro para alimentação, contas e outras necessidades da família.
Eis uma das faces mais perversas do fenômeno: a pessoa que está com dificuldades financeiras procura a aposta como solução para a falta de dinheiro e termina aumentando justamente o problema que pretendia resolver.
Há relatos e pesquisas associando o jogo problemático a superendividamento, sofrimento psicológico, conflitos conjugais e desestruturação familiar. Em levantamento divulgado em agosto, 23% dos entrevistados disseram conhecer casos de violência doméstica relacionados às apostas. Correlação, evidentemente, não significa que toda violência tenha sido causada diretamente pelo jogo, mas o dado merece atenção.
Quando a aposta de um começa a comprometer a comida, as contas e a paz de quem não apostou, a questão deixa de ser exclusivamente individual e torna-se um problema social.
DANOS AO COMÉRCIO E À ECONOMIAOs mesmos R$ 200 que deixam de comprar comida, roupa, medicamentos ou material escolar também deixam de entrar no caixa do supermercado, da farmácia, da loja e de outras atividades econômicas. O governo, ávido por receitas, deveria preferir arrecadar nessas searas, e não na jogatina.
Um estudo da Confederação Nacional do Comércio estima que, de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência associada às apostas tenha retirado R$ 143 bilhões do comércio varejista brasileiro ?valor comparável às vendas dos natais de 2024 e 2025 somadas. Em março de 2026, os gastos mensais com apostas já ultrapassavam R$ 30 bilhões.
É uma espécie de círculo vicioso: dinheiro destinado ao consumo vai para a aposta; a perda reduz a capacidade de pagar compromissos; aumenta a inadimplência; o endividamento diminui ainda mais a renda disponível para consumo. E, para cobrir o ?buraco? no orçamento, a ?solução? é tentar, mais uma vez, a sorte nas bets.
Há, portanto, uma transferência de recursos da economia cotidiana e produtiva para o mercado de apostas. O dinheiro que poderia circular no comércio, sustentar empregos, remunerar serviços e atender às necessidades das famílias é direcionado para uma atividade cujo resultado econômico para milhões de consumidores é, por definição, a perda.
BETS E CRIME ORGANIZADOExiste ainda uma dimensão menos visível do problema: a atração que o mercado de apostas exerce sobre o crime organizado. É preciso distinguir os operadores legalmente autorizados do mercado ilegal de apostas. Não se pode atribuir automaticamente às empresas legalizadas os crimes praticados por operadores clandestinos. Essa distinção é necessária tanto juridicamente quanto por uma questão de justiça.
Isso, porém, não elimina o problema. O mercado de apostas tornou-se atraente para organizações criminosas tanto como atividade econômica quanto como instrumento para movimentação e lavagem de dinheiro. O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) registrou aumento de 766,6% nas comunicações de operações suspeitas de 2015 a 2024, destacando, entre os caminhos de sofisticação da lavagem, as fintechs, as plataformas de apostas on-line e os criptoativos.
Nas apostas, o mecanismo pode reproduzir o ciclo clássico da lavagem de dinheiro: recursos ilícitos ingressam no sistema, percorrem uma sequência de operações destinada a dificultar seu rastreamento e retornam revestidos de aparente licitude, sob a forma de prêmios, receitas empresariais ou aparentes ganhos legítimos.
Operações policiais já identificaram estruturas de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro que se valiam de empresas, interpostas pessoas e plataformas de apostas. Outras investigações revelaram disputas entre organizações criminosas pelo controle territorial da exploração de jogos e a utilização do setor para produzir receita, movimentar dinheiro e conferir aparência lícita a recursos de origem criminosa.
O Tribunal de Contas da União, em auditoria operacional, estimou que operadores ilegais respondem por 41% a 51% do volume total de apostas, o que corresponde a até R$ 40 bilhões anuais.
Não estamos, portanto, falando só do risco de uma pessoa perder dinheiro diante da tela de um celular. Existe também um mercado bilionário que interessa diretamente ao crime organizado.
A REGULAÇÃO NÃO RESOLVEU O PROBLEMAA Lei 14.790 de 2023 disciplinou as apostas de quota fixa e incorporou ao setor mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. A regulamentação também estabeleceu requisitos para a identificação de apostadores, sócios, controladores e beneficiários finais das empresas. São medidas importantes, mas insuficientes.
Estruturas societárias complexas, empresas interpostas, holdings, fundos e sociedades estrangeiras podem dificultar a identificação de quem efetivamente controla ou se beneficia economicamente de determinadas operações.
Operações da Receita Federal e da Polícia Federal envolvendo bilhões de reais e dezenas de empresas suspeitas demonstram que a existência de regulação formal não é suficiente para eliminar a exploração clandestina do mercado nem impedir sua utilização para lavagem de dinheiro.
Há, portanto, bets legais e bets ilegais. Reconhecer essa diferença, contudo, não significa aceitar como inevitável a existência desse mercado. A questão que precisamos formular é anterior: diante dos custos econômicos e sociais que o sistema produz, interessa ao Brasil manter essa atividade legalizada?
LIBERDADE INDIVIDUAL E INTERESSE PÚBLICOÉ nesse ponto que o debate precisa ir além da afirmação de que cada pessoa é livre para decidir o que fazer com seu dinheiro.
Liberdade pressupõe responsabilidade, informação e limites. O Estado restringe ou proíbe atividades quando seus efeitos deixam de atingir só quem voluntariamente assume o risco e passa a produzir consequências relevantes para terceiros e para a coletividade.
As bets movimentam bilhões de reais, alcançam milhões de brasileiros e afetam consumo, endividamento, saúde mental e relações familiares. Parte desse dinheiro deixa de alimentar famílias e movimentar a economia produtiva. Ao mesmo tempo, cria oportunidades adicionais para organizações criminosas no jogo ilegal e até no legalizado.
O argumento da liberdade individual, portanto, não encerra a discussão. A liberdade de apostar precisa ser confrontada com os custos que essa atividade transfere para pessoas que jamais fizeram uma aposta: filhos, cônjuges, credores, comerciantes e, em última análise, toda a sociedade.
O Brasil precisa discutir as bets para além da arrecadação tributária, dos patrocínios esportivos e da liberdade individual de apostar. O governo irá tributar esse dinheiro no consumo, o esporte não pode viver da exploração do desespero financeiro das pessoas e a liberdade individual não pode prevalecer automaticamente sobre o interesse público.
Uma análise honesta da realidade mostra que, na prática, as bets vão muito além de mero entretenimento. Elas se transformaram em uma forma legalizada de opressão e exploração dos pobres pelos ricos.
REGULAR MELHOR OU PROIBIR?É possível responder a todos esses problemas propondo mais regulação. Limites para publicidade, identificação mais rigorosa dos apostadores e beneficiários finais, restrições a meios de pagamento, fiscalização financeira, mecanismos de prevenção ao superendividamento e repressão mais eficiente às plataformas ilegais são medidas possíveis ?e algumas delas já vêm sendo adotadas.
A pergunta, porém, é se devemos continuar tentando administrar os danos de uma atividade cuja própria expansão produz consequências sociais que depois o Estado precisa combater.
Se milhões de pessoas comprometem renda familiar com apostas; se recursos deixam de circular no comércio e na economia produtiva; se o endividamento é agravado; se famílias que não escolheram apostar suportam as consequências; se existe um mercado clandestino bilionário associado à lavagem de dinheiro e ao crime organizado; e se o próprio Estado precisa construir uma crescente estrutura regulatória para conter esses efeitos, talvez a discussão não deva ser só sobre como regular melhor. Deve ser também sobre se vale a pena manter o jogo.
Há atividades para as quais a sociedade estabelece limites não porque todo indivíduo que as pratica necessariamente cause dano, mas porque a soma de seus efeitos produz um custo coletivo considerado inaceitável. A liberdade econômica e a autonomia individual são valores fundamentais, mas não são absolutos.
No caso das bets, o argumento favorável à proibição não depende de afirmar que todo apostador desenvolverá vício, que toda empresa legalizada pratica ilícitos ou que toda aposta destruirá uma família. Basta reconhecer que o fenômeno, considerado em sua dimensão coletiva, já produz externalidades suficientemente graves para justificar uma resposta mais profunda do Estado.
Nossa proposta, portanto, não é simplesmente separar as bets ?boas? das ?ruins?, legalizar umas e perseguir outras. É reconhecer que, diante da magnitude dos danos produzidos por esse mercado, a solução mais adequada é retirar a própria atividade do campo da exploração econômica autorizada.
Sabemos da voracidade fiscal do governo, do apelo comercial do esporte e do imenso poder econômico das bets para pressionar legisladores e formadores de opinião. A solução, portanto, não será fácil.
Também não se trata de imaginar que a simples proibição fará desaparecer, por decreto, todo jogo clandestino. O crime organizado continuará exigindo repressão, inteligência financeira e fiscalização.
Mas o fato de uma atividade poder continuar existindo ilegalmente não constitui, por si só, argumento suficiente para que o Estado a autorize e legitime.
A questão fundamental é outra: depois de conhecermos seus efeitos sobre a renda das famílias, o comércio, o endividamento e o ambiente de atuação do crime organizado, deve o Estado brasileiro continuar conferindo legitimidade jurídica e espaço econômico às bets? Entendemos que não.
A dimensão e a gravidade do problema evidenciam que nossa sociedade não está preparada para o jogo liberado. Diante de um drama tão multifacetado, talvez a resposta mais eficiente seja também a mais simples, rápida e direta: proibir as bets.
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