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Voltaire de Souza Quem for santo que pule do avião

Voltaire de Souza Quem for santo que pule do avião
Relações entre juízes, políticos e banqueiros colocam o STF no centro da trama. Leia a crônica no Poder360.

Disputas. Discordâncias. Dissensões.

É grande a tensão nos tribunais de Brasília.

–Vossa Excelência está extravasando de suas atribuições.

–Reputo inapropriado, senhor presidente, o comentário que acaba de ser exarado pelo meu insigne colega.

–Reputo o senhor.

–Com a palavra, o Ministério Público.

–Na-na-não. Ninguém nesta Corte haverá de amputar a meio o meu direito à palavra.

–Amputa-se coisa nenhuma, senhor presidente.

–Exortaria meus colegas a evitar o recrudescimento de uma disputa que…

–Disputa é a excelentíssima genitora de Vossa Excelência.

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–É disso que se trata? Hein? Hein?

A presidente da Corte se chamava dra. Valentina Poccheto.

–Hã… hã…

A imprensa acompanhava de perto a situação.

O dr. Sinval Caprone nada explicava sobre os seus contatos no mundo financeiro.

O dr. Ivan Gelotti não escondia seus interesses nos mundos cinematográfico e político.

O dr. Pirilampo Pereira gostava de ver o circo pegar fogo.

O dr. Amadeu Nopélio já tinha se afastado da questão.

Nas ruas, manifestantes pediam a saída de um magistrado.

–Qual? Quem? Aquele?

–Não, esse é nosso.

–Tem certeza?

–Tenho.

–Mas a gente não queria a saída do outro?

–Isso foi no ano passado.

A dra. Valentina suspirou.

–O pior é que, nessa questão, eu fico com o voto de Minerva…

Não adiantava pedir a opinião da Polícia Federal.

–Quem é que manda lá?

–Depende.

As investigações chegavam a um impasse.

A dra. Valentina examinava uma pilha de documentos.

–Aqui diz que um juiz advoga para o banqueiro. Hum. No mínimo estranho.

Ela abriu outro calhamaço.

–Aqui, o banqueiro era sócio de outro magistrado. Ora, ora.

O 3º calhamaço também tocava no assunto.

–O banqueiro prometeu verba para um candidato. Inimigo do 1º magistrado.

Valentina tomou um chá de camomila.

–Primeiro magistrado esse que quer acabar com o 3º investigador.

A noite trazia grilos aos descampados da capital federal.

–Ou será que é o contrário?

Era difícil decidir.

A dra. Valentina acompanhava os avanços da tecnologia.

–Quem sabe a inteligência artificial simplifica isso?

O programa Duralex tinha sido feito especialmente para ajudar em casos cabeludos.

Em poucos segundos, vieram os primeiros resultados.

–Põe o Caprone para conversar com o banqueiro. Zzmm… Zzm.

–Mas o banqueiro está preso…

–Põe o Gelotti para conversar com ele também. Brrrk, brrk.

–Os 2 juntos? E a imprensa?

–Encontro sigiloso. Mmnn… mggk.

–Mas como? Na cadeia?

–Não… aí todo mundo fica sabendo. Zzn. Plic, plic.

–Que barulhos são esses?

O computador continuava o seu trabalho.

–Manda todos para um hotel em Portugal.

–Mas como eu faço para tirar o banqueiro do país?

–Põe num jatinho. Crikk… crikk.

–Mas…

–E arranja um piloto da equipe de paraquedistas da Aeronáutica.

–Ué. Por quê?

–Zzzm, bbbzm… Aí você pode explodir o avião no meio do oceano Atlântico.

–Com todo mundo dentro?

–Menos o piloto. Plic, plic.

A dra. Valentina desligou o computador.

–Vai que está grampeado.

Estava.

Caprone, Gelotti, Nopélio e Pirilampo chegaram a um acordo.

–A dra. Valentina. Está dentro de uma nova trama golpista.

–Terrorismo na certa.

–Batata.

–Quem é que vaza a notícia?

–Pode deixar comigo.

O banqueiro J. P. do Prado já está mais tranquilo na sua cela da Papuda.

–Valeu a pena doar esse programa de inteligência artificial para o Judiciário.

O acesso a dados e decisões da Corte ficava muito facilitado.

–O pessoal do Elon Musk deu uma ajuda e tanto.

Jatinhos podem ter uso exclusivo. Pessoal. Particular.

Mas, por vezes, políticos, juízes e banqueiros estão todos no mesmo barco.

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