Existe uma instituição no Corinthians maior do que a presidência, maior do que o conselho deliberativo e, certamente, muito maior do que qualquer grupo político que eventualmente esteja no comando do clube. Essa instituição é a torcida.
A história do Corinthians mostra que, nos momentos realmente importantes, a torcida costuma perceber antes quando alguma coisa deixou de funcionar. E, quando essa percepção coletiva se transforma em pressão, resistir a ela se torna cada vez mais difícil. Vimos isso recentemente.
publicidadeFormulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-se
publicidade publicidadeA torcida se manifestou de maneira contundente diante dos rumos que estavam sendo dados à situação de Memphis Depay, à forma como o processo foi conduzido. Houve críticas, protestos e enorme pressão.
Os acontecimentos posteriores mostraram que havia razões concretas para a preocupação. Mais uma vez, a arquibancada havia entendido o problema antes de muita gente que estava dentro do clube.
publicidadeMas a questão de Memphis é só 1 episódio. O movimento muito maior que está acontecendo hoje é outro. Há bastante tempo uma parcela crescente da torcida percebeu que o modelo institucional do Corinthians se esgotou.
publicidade publicidadeUma dívida bilionária, compromissos não honrados, perda de competitividade, sucessivas crises políticas, ausência de transparência e enorme dificuldade para tomar decisões estruturais produziram uma conclusão que já parece evidente para quem observa o clube de fora do Parque São Jorge, o Corinthians precisa mudar. E precisa mudar urgentemente.
O movimento SAFiel já ultrapassou a marca de 100 mil assinaturas. Mas existe um número ainda mais incômodo para quem tenta desqualificar o movimento como algo “de fora”, aproximadamente 3.000 signatários são associados do próprio Parque São Jorge.
Isso importa porque desmonta um argumento frequentemente utilizado contra qualquer transformação, o de que a pressão por mudanças viria só de torcedores sem participação na vida associativa. Não vem, ela também existe dentro do clube.
Ao mesmo tempo, a torcida começou a ocupar fisicamente os espaços onde entende que precisa ser ouvida. Houve manifestação diante do Ministério Público, houve protesto na Arena. Outros estão programados. É uma verdadeira maratona de mobilização.
publicidadeEnquanto isso, parte da estrutura política do Parque São Jorge continua resistindo. A resistência chegou ao ponto de os conselheiros defenderem o cancelamento de uma assembleia geral que estava marcada.
É compreensível que mudanças profundas provoquem dúvidas, discussões e até oposição. O que não é mais razoável é imaginar que seja possível simplesmente impedir o debate.
Há uma diferença enorme entre discutir uma proposta e impedir que ela seja discutida. E talvez seja justamente aí que alguns dirigentes estejam interpretando mal o momento histórico.
Há ainda um fenômeno recente que deveria chamar especialmente a atenção de quem comanda o Corinthians, parte da torcida passou a defender abertamente uma intervenção judicial no clube.
Independentemente da discussão jurídica sobre seu cabimento e das circunstâncias excepcionais que uma medida dessa natureza evidentemente exige, o simples fato de milhares de corintianos enxergarem hoje a Justiça como possível caminho para reorganizar o clube diz muito sobre o tamanho da crise de confiança nas instituições internas.
Ninguém deseja que seu clube seja administrado por um interventor judicial. Quando uma parcela da torcida começa a pedir isso, portanto, a pergunta mais importante talvez não seja por que ela quer uma intervenção. A pergunta deveria ser, o que aconteceu com o Corinthians para que seus próprios torcedores chegassem a esse ponto?
A resposta passa pela sensação de que os mecanismos internos já não conseguem produzir as mudanças que a situação exige.
E existe uma expectativa bastante compreensível por trás desse movimento, a de que um interventor independente, tendo acesso às informações do clube, promovendo auditoria, conhecendo a real dimensão das dívidas e analisando tecnicamente sua capacidade de pagamento, chegaria a um diagnóstico que há muito tempo parte da torcida já parece ter alcançado, o modelo atual se esgotou.
É nesse cenário que a SAFiel precisa ser examinada. Não como uma aventura. Não como um cheque em branco. Muito menos como uma solução imposta por seus idealizadores. Mas como uma alternativa concreta, séria e tecnicamente estruturada para enfrentar simultaneamente os dois maiores problemas do Corinthians, o colapso financeiro e o modelo de gestão.
Se uma análise independente concluir que existem alternativas melhores, elas deverão ser apresentadas e debatidas.
Pessoas que antes rejeitavam qualquer discussão começam a admitir que alguma transformação será inevitável. É assim que mudanças históricas normalmente começam. Primeiro, são consideradas impossíveis. Depois, perigosas. Em seguida, passam a ser discutidas. Até que, finalmente, tornam-se inevitáveis.
Acredito que o Corinthians esteja exatamente nesse ponto.
A pergunta já não é mais se haverá mudança, a pergunta é qual mudança haverá, quando ela acontecerá e quem terá a coragem de conduzi-la.
O que não parece mais possível é fazer de conta que não existe problema ou acreditar que pequenas mudanças administrativas serão suficientes para resolver uma crise de dimensão estrutural.
A torcida não está pedindo apenas melhores jogadores, um novo técnico ou a saída deste ou daquele dirigente. Ela está questionando o próprio modelo.
O Corinthians não tem simplesmente uma torcida. Em boa medida, o Corinthians é a sua torcida. E, quando uma torcida com mais de 100 mil pessoas mobilizadas começa a exigir uma mudança estrutural, o assunto deixa de ser apenas uma discussão interna do Parque São Jorge.
Torna-se um movimento. Torna-se apenas questão de tempo.
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