Um assalto pode durar poucos segundos, mas suas consequências se estendem por muito mais tempo.
Depois do ato, começa uma verdadeira maratona: bloquear cartões, trocar senhas, acessar bancos, recuperar contas, cancelar documentos, refazer cadastros, comprar outro celular, recuperar aplicativos e tentar garantir que o criminoso não consiga transformar o roubo dos seus pertences em uma invasão à sua vida digital. Para quem depende do celular para trabalhar, não há sequer tempo para processar o que aconteceu. É preciso resolver tudo rapidamente.
Há de se destacar também a parte emocional. O susto, o medo, a sensação de vulnerabilidade e o trauma de ter uma arma apontada para você. Depois, é preciso voltar à rotina. Resta seguir em frente e agradecer por não ter acontecido algo pior.
publicidadeNós, brasileiros, aprendemos a comemorar o fato de sair vivo de um assalto. E é evidente: sair vivo é o que mais importa. Não há nada de errado em sentir alívio e gratidão por isso. Porém, às vezes esquecemos o absurdo que existe por trás dessa constatação. Chegamos a um ponto em que não ser morto durante um assalto passou a ser considerado uma espécie de vantagem, quase como se fosse uma bênção o assaltante ter levado só nossos pertences. É uma adaptação compreensível diante da violência cotidiana, mas também é um retrato bastante cruel do país em que vivemos.
publicidade publicidadeAlguns dados ajudam a dimensionar esse sentimento. Uma pesquisa PoderData encomendada pela Fiesp, realizada em julho e agosto de 2026, mostrou que 77% das famílias brasileiras tiveram algum custo adicional provocado pelo medo da violência. 70% disseram ter tido despesas relacionadas à insegurança no último ano. Entre eles, aparecem gastos com fraudes, segurança patrimonial e transporte mais seguro.
Um em cada 4 brasileiros afirmou ter deixado de aceitar uma oportunidade de trabalho por medo da violência, enquanto 18% disseram ter perdido negócios por esse motivo.
A pesquisa também mostra que a insegurança altera comportamentos cotidianos: 38% deixaram de comprar determinados produtos e 24% passaram a evitar certos estabelecimentos. Ou seja, a violência não se resume ao momento em que alguém é assaltado, roubado ou vítima de outro crime. Ela produz custos econômicos, modifica escolhas e restringe a própria liberdade de circulação das pessoas.
publicidadeIsso ajuda a entender por que segurança pública aparece de forma tão persistente entre as principais preocupações dos brasileiros e, nestas eleições, se consagrou como a principal delas. As cobranças políticas são evidentes: quando o crime altera o modo como as pessoas trabalham, consomem, circulam e vivem, não estamos diante de uma preocupação secundária, mas de uma questão central da vida nacional.
Outro dado chocante vem da pesquisa do Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de 2025, que revelou que 19% dos brasileiros viviam em bairros onde havia presença de facções criminosas ou milícias. São aproximadamente 28,5 milhões de pessoas. Um ano antes, eram 14%, ou cerca de 23 milhões. A tendência é de aumento.
Outro estudo, publicado pela Cambridge University Press, em 2025, chega a uma estimativa ainda mais impressionante ao utilizar o conceito de governança criminal: de 50,6 milhões a 61,6 milhões de brasileiros estariam submetidos a algum grau de governança exercida por organizações criminosas. Não são números diretamente comparáveis aos do Datafolha, porque medem fenômenos diferentes, mas ambos apontam para a mesma direção: o crime organizado brasileiro já não pode ser descrito só como um problema de indivíduos armados cometendo crimes. Ele também é um problema de poder, território e soberania.
Os dados ajudam a dimensionar o desespero e a indignação que tomaram conta do país. E o mais alarmante é que, às vésperas da eleição, os principais candidatos não conseguem oferecer respostas críveis para esse problema.
O campo da esquerda está preso no looping da estagnação, em que as questões sociais e raciais são sempre acionadas para explicar a criminalidade, o racismo, a pobreza e outras questões, ao mesmo tempo em que há uma crítica recorrente ao trabalho da polícia, que exageraria em seus embates com criminosos, frequentemente lidos como uma hipotética juventude negra periférica, como se não fossem, em muitos casos, jovens armados com fuzis e integrantes de estruturas criminosas extremamente violentas.
Do outro lado, temos uma direita perdida, sem saber muito bem o que oferecer além de fazer a compreensível chacota com a forma inacreditável com que a esquerda trata a questão. Ultimamente, os principais nomes da direita, como Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, precisaram responder ao rumor que atinge a todos: o de que, em algum grau, estariam interessados em importar medidas adotadas pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Em resumo, Bukele adotou um regime de exceção para dar celeridade à repressão e aos processos penais, com suspensão de garantias fundamentais do devido processo legal, o que permitiu encarceramentos em massa e produziu uma queda expressiva dos indicadores de criminalidade. São duas questões que não fecham. Primeiro, o efeito colateral mais óbvio: ao fazer isso, Bukele extinguiu, na prática, importantes freios democráticos, passou a concentrar progressivamente poder sobre o Congresso e o Judiciário, alterou as regras para permitir sua candidatura a um 3º mandato e consolidou um regime cada vez mais autoritário.
E El Salvador é um país pequeno, com uma população pouco maior que a da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Seu problema de segurança pública, embora grave, tinha uma escala e uma estrutura diferentes da brasileira, marcada historicamente pela atuação de gangues territoriais. Mudanças no nosso Código Penal e uma certa desburocratização dos processos de julgamento e prisão de criminosos são urgentes, sem dúvida. Mas isso não resolveria um problema que é muito mais sistêmico: o tráfico de drogas altamente profissionalizado e transnacional, além de facções que operam comandos, redes financeiras e estruturas logísticas muito mais complexas.
Daí vem a outra estratégia, se é que pode ser chamada assim, de parte da direita: louvar a possibilidade de os Estados Unidos classificarem as facções PCC e CV como organizações terroristas. Para os mais nacionalistas, isso na verdade abre um precedente para que os EUA se deem o direito de patrulhar ou intervir nas nossas fronteiras em nome do combate ao narcotráfico, justamente em uma região estratégica como a Margem Equatorial, com expectativa de ser o novo reservatório de petróleo do mundo, além da disputa global por terras-raras e minerais críticos essenciais para a manutenção da hegemonia americana. Pouco parece crível, nessa leitura, que essas facções interessariam aos EUA só pelo combate ao crime, sem que existam outros interesses de longo prazo inseridos em sua própria estratégia geopolítica.
Portanto, você acha que está adotando uma solução e, na verdade, pode estar abrindo precedentes para outros problemas.
De toda forma, quando se analisam as propostas da direita para a segurança pública, o que aparece, em grande medida, são generalidades embaladas em frases de efeito. O bolsonarismo e o mblismo, os movimentos mais populares da direita hoje, perceberam muito bem o tamanho da indignação popular, mas não perceberam que indignação não é política pública. E resposta importada soa como despreparo.
“Prendeu, matou”, slogan de Renan Santos que se tornou popular, resume muito bem essa lógica. Dá o tom da nossa revolta. Mas é preciso uma dose de cinismo para fingir que já não é exatamente assim.
Temos altíssimas taxas de letalidade policial há anos e a criminalidade não recua. A política pública de longo prazo, complexa e capaz de enfrentar a estrutura do crime organizado, que nosso Estado não foi capaz de produzir, essa direita que aí está não sabe sequer conceber. E isso precisa ser dito, mesmo que a esquerda esteja igualmente perdida em seus próprios devaneios.
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