A alta na bomba é, essencialmente, o repasse normal de um petróleo encarecido pela guerra. O excedente temporário tem assinatura de custo internacional, não de margem doméstica, e já está em queda.
Desde o fechamento do estreito de Ormuz, em 28 de fevereiro, o diesel passou de R$ 6,15 para R$ 7,25 por litro na média nacional —alta de 17,8% em 3 meses. A gasolina, no mesmo período, subiu 5,8%. Mais recentemente, com o cessar fogo e seu fim precoce, verificou-se mais volatilidade de preços. Aumentos dessa magnitude reacendem, como sempre, a procura por culpados domésticos. Antes de apontar dedos, porém, vale fazer a pergunta na ordem certa: quanto dessa alta é a guerra e quanto é Brasil?
publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-sePara responder, a GO Associados estimou o histórico do repasse de custos aos combustíveis brasileiros, utilizando 439 semanas de dados públicos —preços de bomba da ANP, câmbio do Banco Central e petróleo Brent físico— cobrindo de janeiro de 2018 a maio de 2026, com os métodos usuais da literatura econométrica. A lógica do exercício é a seguinte: 1º medir como a bomba respondeu, ao longo dos anos, ao petróleo e ao câmbio; depois, projetar o que essa resposta histórica produziria diante do petróleo e do câmbio efetivamente observados desde o choque; por fim, comparar essa trajetória projetada com os preços que realmente chegaram ao consumidor. A diferença é o que o repasse usual não explica.
publicidade publicidadeO 1º resultado é uma âncora: o diesel mantém com o Brent em reais uma relação de longo prazo estável. A cada 10% de alta no custo internacional, a bomba sobe de 5,5% a 7,3%, sendo que metade do ajuste (meia-vida) leva de 20 a 25 semanas para se concretizar. Com o Brent 54% mais caro do que antes do choque, o diesel doméstico continuaria subindo por meses mesmo que as cotações internacionais do petróleo se estabilizassem hoje —não por decisão isolada de agentes de mercado, mas porque o repasse de um choque desta magnitude não é, por natureza, instantâneo.
O 2º resultado é a régua do comportamento normal. Nas 13 semanas posteriores ao choque, o diesel ficou, em média, 11,7% (ou R$ 0,76 por litro) acima do que o padrão histórico de repasse explicaria. O excedente atingiu o pico de 20,3% no fim de março, no auge do estresse logístico, e recuou semanalmente até 6% no fim de maio.
Uma pista para explicar o excedente está no mercado internacional. O conflito no Oriente Médio quebrou a arbitragem entre o barril físico e os contratos futuros: em abril, o Brent entregue chegou a ser negociado mais de US$ 20 acima do papel —a diferença normal é de US$ 1 ou US$ 2. Somem-se a isso frete e seguro de zona de guerra, e o custo real de repor diesel no Brasil superou, por semanas, qualquer referência usual de paridade. O excedente medido por este exercício tem exatamente esse perfil: surge com o estrangulamento logístico, atinge o máximo junto com o prêmio do barril físico e se comprime depois do pico do estresse.
publicidadeE há uma contraprova doméstica eloquente: a gasolina. Os testes estatísticos não sugerem nenhuma mudança no comportamento de formação do seu preço depois do choque. Desde as mudanças tributárias de 2022, a gasolina descolou do ciclo internacional e passou a seguir o etanol, seu concorrente direto na bomba: alta de 1% no etanol acompanha alta de 0,73% na gasolina na mesma semana. Se houvesse oportunismo generalizado na comercialização de combustíveis, possivelmente apareceria nos 2 produtos, e não aparece em nenhum.
O encarecimento do diesel é explicado essencialmente pelo repasse gradual de um aumento de custos originado fora do Brasil e sobre o qual postos, distribuidores e mesmo parte da cadeia de abastecimento têm pouca ou quase nenhuma capacidade de influência. A parcela remanescente está associada ao mercado internacional em desarranjo. Criminalizar reajustes, tabelar preços ou presumir abuso na bomba seria, mais uma vez, quebrar o termômetro para tratar a febre.
Dois termômetros dirão se a normalização segue em curso: o prêmio do barril físico sobre o futuro, que vinha se estreitando em maio, e o próprio excedente doméstico, que caiu de 20,3% para 6% em 2 meses —cerca de 1,8 ponto percentual por semana. Se a trajetória se mantiver, o choque de 2026 terá sido, para o diesel brasileiro, um episódio severo, porém legível: custo que subiu, repasse que demorou, prêmio que passou.
Em um choque global, o preço é o mensageiro. A mensagem pode ser dura, mas atirar no mensageiro não a torna mais barata.
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