Na minha infância, as brincadeiras eram artesanais, como hoje se apresentam em sistemas educativos como Waldorf, Reggio Emilia e Montessori. A molecada fabricava os meios de locomoção, inclusive carros, aviões, bicicletas e cavalos de pau, que Alceu Valença viria a cantar nos anos 1980:
“Cavalo doido, por onde trafegas?
Depois que eu vim parar na capital
Me derrubaste como quem me nega
Cavalo doido, cavalo de pau.”
Na fase seguinte, depois que vim parar na capital, trafeguei por “Dom Quixote”, do espanhol Miguel de Cervantes, numa adaptação para “literatura infantojuvenil”. Corria montado no Rocinante de cabo de vassoura que muitas vezes me derrubou ao dar a “nega”, os dribles nos outros jóqueis, pelo piso da sala de vermelhão recém-encerada por minhas irmãs em seus papéis de Aldonza Lorenzo –nos fins de semana, todas eram Dulcineia del Toboso.
publicidade publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seDepois, tinha de correr no Rocinante, cavalo doido que meus sonhos levavam, seu nome era tempo, vento, vendaval. Não era fácil me livrar, mesmo num pégaso de madeira, pois meio minuto de páreo emporcalhava a casa que Aldonzas e Dulcineias haviam levado horas para deixar brilhando e elas queriam se vingar do sujismundo.
publicidadeChegando à adolescência, li a obra e fiquei encantado com a criação, mas já não havia o mesmo sopro, o que me elevava ao upa-upa sobre o Rocinante de madeira.
publicidadeComo o Menino Maluquinho do Ziraldo, o cavalo doido cresceu e se transformou no ônibus de ir para a escola. Logo, o interessante já era o Ziraldo no Pasquim. Por isso, conta com a minha solidariedade quem prefere o Monteiro Lobato do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” ao dos contos –meu personagem predileto era o Jeca Tatu, que nasceu no livro “Urupês”. No entanto, sua versão voltada para alegrar o interior do país foi o seu spin-off mirim no Almanaque Fontoura, distribuído nas farmácias da Fama, o bairro para onde me mudei em Goiânia depois de sair da Anicuns natal.
Entendo o adulto confessar que adora “Rosinha, Minha Canoa”, de José Mauro de Vasconcelos. Pergunte a um crítico se presta —vai detonar o coitado. Procure a opinião de um pescador que o leu quando pequeno nas férias com a família no rio Araguaia. Vai dizer que lhe abriu a porta larga do paraíso.
publicidadeCervantes, no entanto, está em outro nível. As listas dos maiores clássicos do mundo em todos os tempos contêm seu “Dom Quixote”, como a lista dos melhores escritores de todos os mundos tem o inglês William Shakespeare. Em dia de semifinal de Copa do Mundo, com Argentina em campo contra a Inglaterra e eu pertinho das Ilhas Malvinas, me lembrei da conversa com um madrilenho, que me perguntou num português de Joel Santana se existia escritor melhor que Cervantes. Respondi que não. Um inglês comprou confusão: “Nem Shakespeare?”. Fiquei no muro: “Ambos são excelentes. Não tem melhor nem aqui”, disse apontando para o continente.
O londrino entendeu que me referia ao que ele chamou de Falkland Islands, rebati que eram Borges e Cortázar. Antes que a discussão se acirrasse, naquele gelo de zero grau com sensação de freezer no vento que levaria os cabelos que não tenho, mudei o rumo da prosa.
Desviei o assunto para o Brasil recém-desclassificado pela fria Noruega e substituí a dupla para Messi e Maradona. Ele no seu espanhol de não sei onde e eu no meu inglês de curso rápido no YouTube passamos a nos entender.
Quem calava os ofensores de brasileiros antigamente era Pelé. Agora, a gente tem de se valer dos hermanos. Infelizmente, o britânico pouco conhecia de Shakespeare além do nome, o espanhol menos ainda de Cervantes ou do cavalo que inventou, muito menos ambos saberiam de Lobato, Ziraldo e Alceu Valença. São do tipo que pede para alemão cantar alguma coisa de Beethoven.
Na vez anterior em que estive naquele formidável fim do mundo, como é chamada a região do estreito de Magalhães, estava vestido com roupas semelhantes às de astronauta, temendo a baixíssima temperatura, quando vi a meninada jogando bola com grau negativo. Desta vez, não encontrei os futuros Messis e Maradonas, só europeus que me fizeram decidir entre 2 dos maiores gênios da literatura: o moleque do cavalo de pau que sujava a sala recém-lustrada pelas irmãs tinha a forma do Sancho Pança e distância dos dramas de Shakespeare, que só conheceria quando Rocinante estava com outro jóquei.
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