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Anita Krepp Por que a indústria da cannabis virou terreno fértil para golpes

Anita Krepp Por que a indústria da cannabis virou terreno fértil para golpes
Enquanto o mercado da planta se consolida, lobistas e supostos investidores encontram no setor um terreno fértil para vender influência e promessas. Leia o artigo no Poder360.

Se você reparar bem, vai perceber que suspeitas de fraude, estelionato e golpes dos mais variados tipos aparecem com frequência cada vez maior no ecossistema da cannabis. O mais recente, em que a PF investiga se Lulinha e a empresária Roberta Luchsinger atuaram para favorecer a World Cannabis em uma tentativa de levar medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde por meio de seus contatos, exemplifica bem esse fenômeno no cannabusiness.

Faz sentido pensar que um dos fatores de atração das tentativas de golpe nesse setor vem do fato de esta ser uma das únicas indústrias que surgiram no século 21, motivo pelo qual ainda há tantas brechas, muito maiores que em quaisquer outras. No entanto, essa explicação não conta toda a história.

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O que torna a cannabis especialmente vulnerável à picaretagem é uma combinação rara de dinheiro novo, conhecimento escasso, regulação instável, mercado ilegal paralelo e uma promessa bilionária de crescimento. Poucos mercados emergentes reúnem todos esses ingredientes ao mesmo tempo.

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A verdade é que o dinheiro chegou antes do conhecimento consolidado. Durante décadas, o saber sobre a planta ficou espalhado entre a academia, o ativismo, a medicina e o mercado ilícito.

A abertura regulatória criou, de repente, uma demanda enorme por especialistas, consultores e executivos de cannabis. Só que não existe tempo suficiente de experiência em gestão de cannabis regulada para validar quem se apresenta como autoridade. O resultado é um ambiente perfeito para o fake it till you make it: currículos inflados, títulos pomposos e tecnologias proprietárias que ninguém consegue auditar.

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Some-se a isso a dificuldade de verificação. Quando alguém afirma que sua genética produz 30% de THC, que sua patente é revolucionária ou que seu registro está em análise na Anvisa, o investidor comum simplesmente não tem como checar. É muito diferente de comprar uma padaria, em que dá para visitar o balcão, ver os pães e perguntar por quanto vende.

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Na cannabis, grande parte do valor está em ativos invisíveis. Genética, propriedade intelectual, licenças e autorizações. A assimetria de informação é brutal, e o vocabulário científico funciona como verniz. Basta salpicar a conversa com termos como full spectrum, biodisponibilidade e efeito comitiva para produzir sensação de legitimidade, mesmo quando a evidência não sustenta a promessa comercial.

A narrativa da corrida verde faz o resto. Vendida durante anos como a próxima grande indústria, a cannabis desperta em muita gente o medo de ficar de fora, o que faz com que as pessoas troquem de pergunta: em vez de questionarem se aquilo é verdade, querem saber quanto precisam investir. É exatamente nesse terreno que floresce o lobby mal-intencionado.

Um bom exemplo desse lobby que tenta alavancar empresas desconhecidas e de qualidade duvidosa a contratos milionários ocorreu no final de 2025, quando veio a público o caso da Prefeitura de São Paulo, que fechou uma licitação de até R$ 521 milhões anuais para comprar canabidiol da Velox por valores até 8 vezes superiores aos praticados no mercado.

A situação ganhou contornos ainda mais graves quando se descobriu que a filha da secretária responsável pela área havia trabalhado para a fabricante e a distribuidora do produto e treinado médicos da rede municipal. Depois de o escândalo vir à tona, os contratos foram cancelados, mas a prefeitura já havia desembolsado ao menos R$ 43,4 milhões.

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Os golpes da indústria da cannabis não são invenção do Brasil. O 1º golpe de escala global começou a se desenhar em 2020. Juicy Fields, uma plataforma de e-growing, prometia a pequenos investidores participação nos lucros do cultivo de cannabis medicinal, com retornos que chegavam a mais de 100% ao ano. A promessa milagrosa era, na verdade, um esquema piramidal em que o dinheiro dos novos investidores era usado para pagar os anteriores, até que o esquema ruiu, desaparecendo com mais de 600 milhões de euros de 180 mil investidores.

Alguns participantes da quadrilha russa apontada como cabeça do golpe foram presos, enquanto outros seguem soltos e, vale o aviso, ávidos por desembarcar no Brasil como “conselheiros” do setor, como se nos faltassem picaretas por aqui. Não só não faltam, como alguns já fizeram escola. Entre os casos mais conhecidos está o casal de sócios por trás da Hemp Vegan, marca de cosméticos que acaba de ser denunciada por estelionato pelo Ministério Público de São Paulo.

O caso envolve ao menos 3 vítimas que desembolsaram de R$ 300 mil a R$ 600 mil cada uma para investir em franquias da marca que, segundo a denúncia, nunca saíram do papel. Mas os problemas não começaram agora: desde 2020, o casal já era alvo de denúncias de clientes e ativistas, que o acusavam de vender, sob a marca Linha Canábica da Ba, produtos supostamente contendo cannabis, embora, segundo as denúncias, não houvesse qualquer traço da planta em sua composição.

Casos assim se multiplicam porque o setor ainda está construindo seus selos de confiança. Em indústrias maduras, credenciais funcionam como filtro. Contador registrado, laboratório acreditado e certificação reconhecida. Na cannabis, prolifera uma inflação de autoridade feita de selos privados, institutos, prêmios e rankings cuja relevância real é difícil de avaliar.

Para o picareta, parecer legitimado vale quase tanto quanto ser. E, enquanto bancos e seguradoras seguem tratando o setor com desconfiança, até empresas legítimas ficam reféns de intermediários e de promessas extraordinárias de capital, o que só aumenta a exposição de todos.

Não se deve, porém, condenar um mercado inteiro pelos pecados de seus parasitas. A imensa maioria dos negócios canábicos que projetam uma indústria bilionária no Brasil trabalha com ética, rigor técnico e uma paciência impressionante. São associações sérias, farmacêuticas auditadas, pesquisadores, médicos e empreendedores que constroem, tijolo por tijolo, as pontes que ainda faltam. 

Em última análise, o problema está menos na juventude da indústria do que na velocidade com que o dinheiro chega, já que os filtros que separam oportunidade de conversa fiada ainda estão sendo montados. A melhor vacina contra os picaretas, portanto, é acelerar essa montagem. Quanto mais bem regulada (e isso não quer dizer hiper-regulada), transparente e institucionalizada for a cannabis brasileira, menos espaço sobra para quem vive de vender fumaça.

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