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Marcelo Coelho O prazer de torcer por todo mundo

Marcelo Coelho O prazer de torcer por todo mundo
Eliminação precoce da seleção brasileira abriu espaço para apreciar o Mundial sem a obrigação de uma torcida única. Leia o artigo no Poder360.

Foi curta a passagem do Brasil pelos campos da Copa, e eu diria que ninguém viu grande tragédia em nossa eliminação. Era coisa mais ou menos prevista, e foi na verdade um alívio que tudo tenha durado pouco.

A principal vantagem, do meu ponto de vista, é ter ficado livre da obrigação de torcer inutilmente. Mas não é que tenha deixado de querer a vitória deste ou daquele país. O prazer desta Copa, sem dúvida, foi o de poder mudar de opinião, de desejos e de expectativas a cada momento.

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Tomo de exemplo o jogo entre Egito e Argentina, nas quartas de final. Quando me disseram que o Egito ganhava de 2 a 0, fiquei contente. Simpatia pelos mais fracos, óbvio. Mas aí a Argentina fez 1, fez 2, e –como todo mundo, imagino— celebrei com entusiasmo o gol da virada. Pena do Egito? Sim. Mas a beleza da vitória argentina pesou mais na balança.

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Convenci-me de que todo jogo da Copa merecia ser visto. No jogo contra a Inglaterra, comecei argentiníssimo. Logo virei casaca: o time de Messi fazia faltas horrorosas, sem parar, e me vi torcendo por um gol inglês, e mais ainda por uma ou duas expulsões no lado adversário. E aí, veio o novo milagre, e minha nova conversão –lá estava eu ao lado da Argentina, torcendo e retorcendo.

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Que prazer, esse da infidelidade futebolística! Mais ainda, essas vitórias épicas, sofridíssimas, livram a gente de ter piedade do lado perdedor. O merecimento de quem ganha é mais forte do que a tristeza de quem perdeu.

Se pudéssemos medir as duas coisas, é como se houvesse um saldo positivo. Contam-se mais quilos, ou graus centígrados, ou watts, produzidos pela felicidade argentina do que a quantidade de quilos, graus centígrados ou watts perdidos com a infelicidade inglesa.

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Não é que simplesmente se tiraram 5 “felicitoquilos” de um país para dar 5 “felicitoquilos” ao outro. A alegria da vitória argentina somou-se a um outro elemento, produzido pela própria circunstância do jogo: o que se cria, numa virada daquelas, é uma quantidade de “valor moral”.

Não se trata só do merecimento futebolístico de uma vitória que, afinal, foi justa, mas de algo que vai além até do “justo” e do “injusto”. Falo, numa palavra, da beleza do que aconteceu.

O tom deste texto vai ficando emocional. Mas aí entra mais um ingrediente no caldo desta Copa. O acaso dos jogos, e a ausência do Brasil, permitiram que –no meu caso pelo menos— imparcialidade e emoção andassem juntas. Fui “imparcial”, mudando de preferência e torcida conforme a partida acontecia. Fui “emocional”, celebrando o bom resultado ao fim do jogo. Fui “imparcial” e “emocional” ao mesmo tempo, notando sobretudo o que houve de beleza, de garra, de improbabilidade naquelas vitórias, sem mesmo avaliar a qualidade dos dribles e dos gols.

Por falar em qualidade, e para acrescentar um último comentário, toco na delicada questão de quem é melhor: Pelé ou Messi.

Como decidir? Como saber? Mais ainda: importa saber? Tenho memórias de Pelé, não muitas, e menos ainda de Messi. Um julgamento “imparcial” exigiria, por exemplo, levantar todos os registros de jogos feitos pelos 2. Mas é claro que, com o tempo, a documentação não só se perde, mas se “compacta” em 10 ou 20 lances inesquecíveis.

E há outros critérios: qual o melhor driblador? Qual o melhor cobrador de faltas? Quem fazia menos faltas?

Podemos também adotar pontos de vista mais subjetivos. O jogador que foi mais “importante” para um time ou um país (acho que Pelé ganha nesse ponto) pode não ter sido o mais “miraculoso”. O mais “genial” (pela capacidade de achar um gol onde não havia gol possível) pode não ser o mais “brilhante” (no sentido de fazer o previsível com habilidade extrema).

É como nessas listas de “maiores romances do século” ou dos “maiores gênios” da música. O “melhor” compositor acho que foi Bach; o mais “gênio”, Beethoven. O “maior romance” pode não ser o “mais perfeito”, e o “mais belo” não ter sido o “mais importante”.

Deixemos, então, que a emoção decida –e que, com ela, mudemos de opinião conforme o dia. Messi, Pelé, Maradona, que sé yo? Que ganhem todos. Pudesse a política ser desse jeito também.

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