Durante sua entrevista ao “Jornal Nacional”, na 6ª feira (28.ago.2026), Flávio Bolsonaro anunciou que o seu ministro da Saúde, para a surpresa de alguns e o desespero de muitos bolsonaristas, é um inconteste entusiasta da cannabis. Claudio Lottenberg, além de presidente do Conselho do Hospital Albert Einstein, o que o tornou conhecido da maioria das pessoas, também é dono de uma longa trajetória na defesa da planta e no empreendedorismo no cannabusiness.
Em 2021, numa parceria com outros 5 médicos e com Dirceu Barbano, que atuou como diretor-presidente da Anvisa de 2011 a 2014, Lottenberg tornou-se sócio da Zion Medpharma, que atuava no mercado como importadora de produtos de cannabis via RDC 660. Em 2023, a startup foi incorporada à Endogen, health tech de cannabis, e em 2026 passou a atuar pela RDC 1015, que autoriza a comercialização de produtos de cannabis nas farmácias, e Lottenberg tornou-se seu CEO.
publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seO empreendedorismo do oftalmologista no mercado de cannabis o transformou também em um defensor recorrente da medicina canabinoide, seja em eventos, entrevistas, reportagens ou na atuação como articulista em diferentes veículos. Ao levar a defesa da cannabis medicinal para além do consultório e dos negócios, Lottenberg passou a ser não só um dos médicos mais visíveis na defesa pública da planta, mas também uma figura de enorme destaque e influência a abraçar a causa abertamente.
publicidade publicidadeCom o histórico de Lottenberg, não é difícil imaginar que, caso chegue ao Ministério da Saúde, terá um apreço especial por destravar avanços na pauta medicinal da cannabis. Um interesse que nenhum ministro da Saúde dos governos Lula demonstrou até hoje —o que expõe o paradoxo político da cannabis: uma pauta alinhada historicamente à esquerda, mas jamais assumida por ela.
OPORTUNIDADE OU ARMADILHA?É difícil imaginar um cenário mais favorável para destravar pautas que se arrastam há anos, como a incorporação de novos tratamentos ao SUS, a racionalização das exigências burocráticas que encarecem o acesso, o fomento à pesquisa clínica nacional e, quem sabe, uma articulação mais séria em torno da produção em solo brasileiro. Evidentemente, nada disso está garantido. Sabemos que o Ministério da Saúde é um território de disputas orçamentárias e ideológicas que já engoliu gestores muito mais experientes; porém, a oportunidade existe e é inédita.
O problema é que cannabis medicinal e política de cannabis são coisas diferentes, e convém não confundi-las. Defender o canabidiol prescrito por médico, produzido por farmacêutica autorizada e vendido em farmácia é uma posição. Agora, defender o acesso à flor, o autocultivo, a redução de danos, a descriminalização e o uso adulto é outra, bem mais espinhosa.
publicidadeLottenberg construiu sua trajetória pública firmemente ancorada no 1º campo. Sua empresa opera dentro do modelo mais institucionalizado que existe, o da RDC 1015, e sua defesa da planta sempre veio embrulhada em jaleco branco. Não há registro de que ele tenha se manifestado a favor do uso adulto. Aliás, tudo indica que é refratário à ideia.
Inclusive, há um paradoxo curioso em sua biografia. Lottenberg é oftalmologista e o glaucoma foi uma das primeiras condições a atrair a atenção da ciência para os canabinoides, em idos dos anos 1970, com estudos sobre pressão intraocular envolvendo justamente o THC, a molécula que o modelo farmacêutico brasileiro trata como se fosse radioativa.
O exemplo serve para lembrar que a fronteira entre a molécula “boa” e a molécula “maldita” é muito mais científica do que o debate público brasileiro admite, e muito menos moral do que a regulação sugere. Um ministro oftalmologista que entende de canabinoides teria autoridade única para dizer isso em voz alta. Resta saber se dirá.
O modelo que Lottenberg representa é o da cannabis que passa pelo consultório, pela indústria, pela Anvisa e pelo balcão da farmácia. Comparado ao cenário atual, em que pacientes dependem de importação cara, judicialização e associações sob risco de batida policial, seria um avanço considerável, mas ainda é um modelo que responde só parte das perguntas.
Quem vai plantar a matéria-prima? O paciente poderá cultivar sua própria planta ou seguirá refém do habeas corpus? A flor, forma terapêutica consolidada na Alemanha, na Austrália e em Israel, continuará banida? O Brasil desenvolverá uma indústria nacional com diferentes teores de THC ou ficará restrito ao canabidiol quase puro?
Um ministério pró-cannabis medicinal pode fazer tudo andar sem tocar em nenhuma dessas questões. Pode, na verdade, fazer tudo andar justamente para não precisar tocar nelas.
FALTA ENTENDER A PLANTA POR INTEIROA reforma da política de drogas sempre foi bandeira associada à esquerda, mas os governos Lula trataram a cannabis como assunto inconveniente, terceirizando-o ao Judiciário e à Anvisa. O Conselho Nacional de Política de Drogas teve a chance de recomendar um decreto presidencial e recuou. Nenhum ministro da Saúde petista quis colocar o tema na mesa. Agora, um eventual governo de Flávio Bolsonaro pode entregar a pasta a um defensor da cannabis –ou pelo menos do CBD.
Tarcísio de Freitas anunciando produção estatal de medicamentos em São Paulo, Flávio escalando Lottenberg, a esquerda paralisada pelo medo do desgaste eleitoral. A cannabis parece estar cruzando, enfim, a fronteira ideológica que sempre limitou seu debate no Brasil, deixando de ser pauta de costumes para virar pauta de mercado —e de mercado, convenhamos, a direita brasileira entende alguma coisa.
Só que atravessar a fronteira ideológica não é o mesmo que romper com o proibicionismo ignorante. Um Estado pode incorporar a cannabis medicinal com sofisticação, aprovar produtos, ampliar prescrições, até estimular a indústria nacional e, simultaneamente, manter intactas a criminalização do usuário, a repressão às associações e a exceção judicial como única via para o cultivo doméstico.
A Alemanha, como sabemos, fez o caminho completo. Já o Brasil corre o risco de fazer o caminho pela metade e, ainda assim, chamá-lo de revolução. A eventual gestão Lottenberg carrega essa possibilidade. Pode ser o maior avanço da cannabis medicinal brasileira visto em décadas e, ao mesmo tempo, a consolidação definitiva de um modelo que só aceita a planta domesticada pela farmácia e pelo jaleco branco.
Será mesmo preciso um presidente de extrema direita para que a cannabis avance no Brasil? O teste de Lottenberg não será para fazer o canabidiol chegar mais barato ao balcão, mas para descobrir até onde um entusiasta da medicina canabinoide está disposto a enxergar a planta inteira, com seu THC, sua flor e parte de seus pacientes que preferem plantar a comprar. O CBD, ele já defende. Falta saber o que fará com o resto da planta.
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