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Matheus Alexandre O DNA histórico do antissionismo negacionista do Holocausto

Matheus Alexandre O DNA histórico do antissionismo negacionista do Holocausto
Fala do presidente do PCO é manifestação do que a literatura definiu, no pós-1945, como antissemitismo secundário. Leia o artigo no Poder360.

Rui Costa Pimenta, presidente do PCO, afirmou em vídeo publicado em 6 de maio que a memória do Holocausto “é uma farsa” criada “para ocultar os crimes do sionismo”. Para muitos, essa fala pode surpreender por seu grau de ofensa à memória da Shoá. Historicamente, porém, ela não representa novidade. Trata-se de uma manifestação daquilo que a literatura definiu, no pós-1945, como antissemitismo secundário.

A noção de que a memória do Holocausto estaria sendo usada como instrumento de exploração política ou econômica ganhou força especialmente na Alemanha e na Áustria do pós-guerra. Eram contextos marcados pela dificuldade coletiva de confrontar a responsabilidade histórica do genocídio. Essa perspectiva esteve ligada ao desejo de rejeitar o peso moral do passado nazista, defendendo a necessidade de um “ponto final” em relação à culpa histórica.

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O discurso de que essa memória seria instrumentalizada especificamente pelo sionismo ganhou força particular na Alemanha Oriental socialista. Ali, como mostra Jeffrey Herf, o Estado isentou-se oficialmente de qualquer responsabilidade e perseguiu integrantes do Partido Comunista que buscavam colocar o Holocausto no centro do debate ou defendiam reparações aos judeus, acusando-os de servir ao “capitalismo judaico”.

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Na URSS, que já possuía sua própria dificuldade de lidar com a memória do Holocausto por colocar os povos soviéticos como as principais vítimas do nazismo, essa perspectiva também foi promovida com tons peculiares de negacionismo.

Em 1985, o Comitê Antissionista Soviético publicou uma cartilha que não só difundia a narrativa conspiratória de colaboração entre sionistas e nazistas, como também sustentava que judeus sionistas teriam exagerado a Shoá para obter objetivos políticos para Israel.

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Estávamos diante de uma realidade em que, para deslegitimar Israel, o antissionismo atacava a memória do Holocausto.

Hoje não é diferente. A memória judaica passa a ser vista, em si, como ferramenta de manipulação. Mesmo quando lembram seus mortos, judeus estariam escondendo crimes.

Por isso, nessa lógica, é preciso enfraquecer essa memória e, no limite, invertê-la (“os judeus são os novos nazistas”) para que seja possível deslegitimar a existência coletiva judaica.

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O cientista político Norman Finkelstein, por exemplo, alega que elites judaicas exploraram calculadamente o sofrimento judaico para obter ganhos financeiros e blindar Israel de críticas. Sua obra foi criticada por Peter Novick como uma “uma versão contemporânea dos Protocolos dos Sábios de Sião”.

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No plano geopolítico, a República Islâmica do Irã transformou o negacionismo e a distorção do Holocausto em política de Estado, promovendo conferências revisionistas e apoiando negacionistas.

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Como observa Meir Litvak, o regime sustenta que a memória da Shoá teria servido de base moral para legitimar Israel no Ocidente. Nessa lógica, enfraquecer essa memória significaria corroer a legitimidade israelense.

É, portanto, nesse lastro histórico que a fala de Pimenta se insere. Um lastro que o conecta, inclusive, a múltiplos grupos da extrema-direita negacionista que, ao atualizarem o enquadramento dos judeus como gananciosos, mentirosos, exploradores, manipuladores e conspiradores, também veem, como ele, a memória do Holocausto como “uma farsa” instrumentalizada por judeus para garantir ganhos políticos e financeiros em escala global.

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A diferença? Eles tornam explícito o que pensam sobre os judeus. Pimenta afirma se tratar “apenas de antissionismo”.

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