Recentemente, acompanhei uma atividade da Associação Agroecológica Mulheres Rurais do Assentamento Canaã na Bacia do Descoberto, em Brazlândia, zona rural do Distrito Federal. Durante 2 dias, mulheres agricultoras compartilharam saberes e práticas sobre transição agroecológica, sistemas agroflorestais e produção de alimentos. O assentamento, que antes tinha eucaliptos, hoje combina regeneração do território, agrofloresta e produção de alimentos. Ali, recuperar a terra significa também produzir renda, fortalecer a agricultura familiar e ampliar a segurança alimentar.
A passagem do Dia do Cerrado, em 11 de setembro, é uma oportunidade para olhar para além da efeméride e entender uma disputa maior sobre o bioma: qual modelo de desenvolvimento queremos financiar? Há 10 anos, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado chama a atenção para a necessidade de proteger seus povos, territórios, águas e saberes, o que implica reconhecer e assegurar os direitos territoriais de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
publicidadeDados do MapBiomas mostram que, de 1985 a 2024, o Cerrado perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa, enquanto a superfície de água natural caiu quase 28%. O bioma abriga nascentes de 8 das 12 principais bacias hidrográficas do país. Não estamos falando só de conservação ambiental, mas de economia, segurança alimentar, água, direitos e futuro.
publicidade publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seDurante décadas, o Cerrado foi tratado como fronteira a ser ocupada, convertendo vegetação nativa em pastagens e monoculturas, concentrando terra, renda e poder. Os custos dessa escolha, porém, são socializados. Para povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, a pressão sobre o território ameaça também modos de vida, culturas e conhecimentos.
A experiência que vi de perto, liderada pelas mulheres da agroecologia do Assentamento Canaã, aponta uma resposta possível. Recuperar áreas degradadas, proteger nascentes, diversificar a produção e fortalecer a agricultura familiar são medidas de adaptação climática porque aumentam a capacidade dos territórios de enfrentar secas, calor, escassez de água e insegurança alimentar. Também são medidas de mitigação, ao conservar vegetação, solo e biodiversidade e contribuir para a retenção de carbono.
É nesse ponto que a justiça climática encontra a agenda feminista. A crise climática interfere na produção de alimentos, na renda e no acesso à água, mas seus custos não são distribuídos igualmente. Mulheres rurais, indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais dependem diretamente da terra, da água e da biodiversidade.
publicidadeAo mesmo tempo, muitas preservam sementes, conhecimentos e práticas produtivas que fortalecem a capacidade de seus territórios responder às mudanças climáticas. Quando têm acesso à terra, crédito, assistência técnica, organização coletiva e mercados, ampliam sua autonomia econômica e a resiliência de suas comunidades. A política climática também precisa reconhecer e financiar esse trabalho.
É essa economia que a sociobioeconomia precisa fortalecer: negócios sustentáveis, cooperativismo e cadeias da sociobiodiversidade capazes de produzir renda sem destruir o território. Pequi, baru, buriti, cagaita, mangaba, babaçu e o maracujá Pérola do Cerrado, maracujá silvestre nativo desenvolvido pela Embrapa, exemplificam esse mercado. Esses produtos, sem falar em setores como a bioconstrução e os cosméticos, mostram o potencial de transformar a biodiversidade em inovação, renda e desenvolvimento.
Para que esse potencial se concretize, o setor privado precisa assumir o papel de motor comercial, integrando esses ativos às suas cadeias de suprimentos de forma justa, investindo em contratos de longo prazo com as comunidades e adotando práticas de ESG que valorizem o bioma. Mas isso exige política pública, crédito, assistência técnica, infraestrutura, compras governamentais e acesso a mercados. Exige também fortalecer as organizações coletivas de produtores, para que agricultores e comunidades participem da produção e da distribuição da riqueza criada.
Por isso, às vésperas das eleições, é preciso trazer o Cerrado para o debate político, mas não basta perguntar aos candidatos se defendem o bioma. É preciso perguntar quais recursos financeiros estão dispostos a direcionar para assegurar que conservar, regenerar e produzir de forma sustentável sejam alternativas economicamente concretas para quem vive no bioma e para assegurar os direitos territoriais de seus povos e comunidades.
O Cerrado já está produzindo respostas. No Assentamento Canaã, mulheres mostram que regenerar a terra pode significar também alimentar famílias, produzir renda, enfrentar a crise climática e construir autonomia. A questão agora é saber se o poder público terá disposição para transformar experiências como essa em política de Estado.
O Cerrado não é uma questão regional nem só ambiental. É uma questão brasileira, porque envolve a água que abastece o país, a produção de alimentos, a economia, a biodiversidade, os direitos de seus povos e comunidades e a capacidade de enfrentar a crise climática. O Cerrado que o Brasil escolher preservar, regenerar e desenvolver dirá muito sobre o país que queremos construir.
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