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Voltaire de Souza Ninguém segura esse jatinho

Voltaire de Souza Ninguém segura esse jatinho
Sob pressão, juiz aceita convite para recuperar o ânimo. Leia o artigo no Poder360.

Denúncias. Disputas. Dissensões.

Não é tranquila a vida nos altos tribunais da capital.

O dr. Caprone se serviu de mais um whiskynho.

–É muita perseguição.

No tribunal, os assessores sofriam.

–É muito stress.

–Ele só dá bronca.

–Sempre foi exigente.

–Mas nunca foi desse jeito.

A conclusão era uma só.

–Ele precisa relaxar.

–Um break.

–Uma viagenzinha.

O dr. Caprone tinha dificuldades em aceitar essa sugestão.

–Justo agora? Com o mundo caindo em cima da minha cabeça?

O pior, nessas horas, é a falta de proteção.

Do capacete ao filtro solar, qualquer coisa já é alguma coisa.

Cocô de arara é que não dá para admitir.

O assessor Del Piombo tentava convencer o magistrado.

–Não precisa ser uma viagem longa… Uma esticadinha só.

–Tipo?

–Bate e volta.

–Para onde?

–Qualquer lugar. Umas 3 horas já dão conta…

O dr. Caprone ficou pensando.

–Acho que eu sei onde você quer chegar.

Um jatinho.

Uma parada na fronteira com o Paraguai.

–Ou Bolívia.

Havia um problema.

–Qual jatinho? De quem?

Caprone tinha perdido o contato de alguns de seus principais amigos no mundo financeiro.

–O J. P., infelizmente, está fora de circulação.

O assessor já estava acionando o celular.

–Pode deixar que eu cuido disso.

A boa notícia veio no final da tarde.

–O senhor já pode embarcar.

–No jatinho dele?

–Claro.

–Incrível.

–Afinal, dr. Caprone, o dono não precisa estar presente.

A pista de pouso particular ficava perto de Pirenópolis.

O carro oficial chegou discretamente.

–Tapete vermelho… escadinha com detalhes dourados… o padrão de sempre.

A porta da aeronave abriu automaticamente.

–Ué. Não tem ninguém?

Um serviço de bordo eletrônico fez funcionar o carrinho de bebidas.

–Tipo robô?

O jatinho começou a taxiar.

–Será que o Jorginho está na cabine?

O habitual piloto de J. P. não se mostrava presente.

Veio o aviso de segurança.

–Bem-vindo ao nosso teste do voo DQC Zero Um.

–DQC?

–Dólar. Quenga. Champanhe.

–Mas quem é que está falando?

–Inteligência artificial, excelência.

O carrinho chegou com uma maleta Louis Vuitton.

–É só digitar a senha, excelência.

O champanhe veio num balde de gelo movido a controle remoto.

–E a quenga? Não me diga que vocês arranjaram algum robô.

–Não, não, doutor Caprone.

A espetacular morena Gilvanka apareceu atrás de uma cortininha.

Olhos verdes. Cabelos tipo samambaia. Sorriso feiticeiro.

–Haha… nada de artificial com você, hein?

–Hihi… o peitinho é um pouco.

A viagem transcorreu sem turbulências.

Isto é. Com algumas.

–Aíính…

–Hehe.

–De novo, Caprone… 

–Tem certeza?

–Vem, querido… adoro esconder o carequinha.

–Opa. Opa. Cuidado com o que você fala, Gilvanka.

–Por quê, meu lindo? O que é que eu disse de errado?

–Isso pode dar origem a embargos de declaração.

–Mas eu só estou pedindo um habeas corpus… hihi.

O pouso do jatinho foi numa ampla propriedade rural.

–Olha… é pista de grama.

–Mas é bem lisinha.

O dr. Caprone voltou a Brasília com espírito renovado.

A madrugada cobria de tons dourados a praça dos Três Poderes.

Dólar. Quenga. Champanhe.

Relações pessoais podem perturbar o curso da Justiça.

Mas o sistema, muitas vezes, funciona direitinho só no piloto automático.

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