Cana, soja e milho são os protagonistas atuais. Mas seria um erro imaginar que a agroenergia brasileira terminará neles. O próximo capítulo poderá ser escrito por uma diversidade muito maior de matérias-primas.
O sorgo, por exemplo, apresenta características que despertam interesse para a produção de etanol e biomassa. O trigo e o triticale também aparecem entre os cereais que podem ampliar sua participação nessa indústria.
publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seEntre as oleaginosas, além da soja, existem possibilidades envolvendo canola, dendê, macaúba, babaçu, licuri e outras espécies. Algumas delas podem encontrar espaço não só no biodiesel, mas em rotas para diesel verde e combustível sustentável de aviação.
publicidade publicidadeA EPE já identifica uma cesta diversificada de matérias-primas para os biocombustíveis brasileiros, incluindo cana, milho, trigo, sorgo, óleos de soja e algodão e, em diferentes estágios de desenvolvimento, macaúba, palma e babaçu. Mas talvez a maior fronteira esteja justamente naquilo que não é colhido.
Palha, casca, bagaço, vinhaça, torta de filtro, dejetos animais e outros resíduos agroindustriais podem deixar de ser vistos como passivos e passar a ser considerados fontes de energia. É aí que entra o biogás.
A digestão anaeróbica de resíduos agropecuários permite produzir biogás, que pode ser utilizado para produzir eletricidade ou ser transformado em biometano. No setor sucroenergético, a produção de biometano a partir de vinhaça e torta de filtro já começa a ganhar escala. Segundo a EPE, havia 6 unidades em operação em dezembro de 2025, de um total de 17 autorizadas.
A lógica é poderosa: transformar aquilo que antes era resíduo em combustível.
publicidadeE há ainda uma fronteira tecnológica mais distante, mas promissora: a utilização de biomassa lignocelulósica para produzir etanol de 2ª geração, gás de síntese e combustíveis sintéticos.
Nesse cenário, a agricultura deixa de ser só fornecedora de matéria-prima. Passa a ser também fornecedora de energia, moléculas e carbono renovável.
O Brasil já tem uma vantagem que o mundo procura: diversidade. Poucos países conseguem combinar uma produção agrícola de escala continental com cana, milho, soja, oleaginosas, florestas plantadas e uma enorme disponibilidade de resíduos agropecuários.
Mais importante: essas cadeias podem se complementar.
A cana produz açúcar, etanol e bioeletricidade. O milho transforma grão em etanol e proteína animal. A soja fornece óleo para biodiesel e farelo para alimentação. Os resíduos podem produzir biogás e biometano. Novas culturas podem entrar no sistema à medida que a tecnologia e a economia tornarem seus processos competitivos.
É uma espécie de mosaico energético, em que cada cultura ocupa um espaço diferente.
O desafio será fazer essa expansão sem repetir os erros do passado. A agroenergia precisa aumentar a produtividade sem pressionar desnecessariamente a terra, reduzir emissões sem comprometer a produção de alimentos e avançar tecnologicamente sem perder de vista a sustentabilidade econômica.
O futuro não será de uma única cultura energética. Será de um sistema integrado de produção de alimentos, fibras, combustíveis, eletricidade e moléculas renováveis.
A cana abriu esse caminho. A soja e o milho estão acelerando a marcha. E outras culturas, oleaginosas e resíduos poderão ampliar ainda mais a fronteira.
O Brasil, nesse caso, não precisa escolher entre ser uma potência agrícola ou uma potência energética. Pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. E talvez essa seja uma das maiores oportunidades do agronegócio brasileiro nas próximas décadas.
Este texto faz parte de uma série de 4 artigos sobre a energia que sai do campo, transformando o agro em uma grande plataforma de fonte renovável. Leia os artigos anteriores:
A megausina energética do agro –parte 1 A energia da cana-de-açúcar –parte 2 Soja e milho: o agro entra de vez no tanque –parte 3 publicidadeTodo conteúdo