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Voltaire de Souza Mais corruptos numa sinuca

Voltaire de Souza Mais corruptos numa sinuca
O medo de ser descoberto leva empresários a buscar respostas onde nem sempre existe transparência. Leia a crônica no Poder360.

Dúvidas. Ameaças. Decisões.

O banqueiro e empresário Aladino Lavazzi estava preocupado.

–Olha só o caso do Vorcaro.

Ele avaliava.

–Daqui a pouco me pegam também.

A pilha de irregularidades se acumulava nos arquivos sigilosos de sua holding.

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–Como é que eu vou saber o que a polícia já descobriu?

Aladino fazia exercícios na esteira ergométrica.

–É muita insegurança jurídica.

Sem contar as turbulências no mercado.

–Outra recuperação judicial? Por que não falaram comigo?

Na vida corporativa, é essencial obter informação de qualidade.

Aladino se sentia isolado.

Iam secando seus canais de comunicação.

–Com tanto vazamento…

A rotina do empresário, entretanto, seguia seu curso normal.

Ordeiro. Rigoroso. Disciplinado.

Depois da ergométrica, a musculação.

Em seguida, o pilates e a massagem.

O fone de ouvido transmitia recados e conselhos de autoajuda.

Sete e meia da manhã.

–Hora de ir para o culto.

A Igreja da Boa Mensagem contava com um vistoso e exclusivo templo em Brasília.

Aladino orou pela liberdade.

–Também Cristo teve problemas com as autoridades policiais.

O Porsche Spyder conduziu-o rapidamente à sede regional do seu banco de investimentos.

A secretária Yasmine trazia a agenda do dia.

–Olha… aquele encontro com o senador… ele cancelou.

–Verdade?

–O dr. Fuji Nahora também disse que não vai poder almoçar.

Tratava-se de um importante investidor japonês.

–O que será que está acontecendo?

Só havia uma explicação.

–Minha casa está caindo… e eles já perceberam isso.

Aladino orientou a secretária para deixar tudo pronto em caso de uma viagem súbita.

–Claro, doutor Aladino. Mas se me der licença para lembrar de uma coisa…

–O quê?

–Aquela vidente que a sua namorada recomendou.

–Ah… é mesmo… Nessa hora qualquer informação ajuda.

Madame Ramíris era uma famosa consultora mística argentina.

–Sin mi ayuda el Milei no decide nada.

–Se funciona para o presidente…

–Diez mil dólares la consulta.

–Em cash?

–Doce mil en el Pix.

Aladino e a vidente se sentaram em torno de uma mesinha com tampo de madrepérola.

Na semiobscuridade, brilhava uma bola de cristal.

–Bueno. Que querés saber?

–Vão me prender? Tenho de fugir? Quando?

Madame Ramíris contemplava a bola de cristal.

–Um poquito embaçada…

Ela esfregou um lenço de seda na superfície do implemento místico.

–No sé… está brillante, pero… 

–Pero?

–Veo reflejos… espejos… 

Nenhuma imagem concreta parecia se formar.

–Solo veo una esfera… una pelota…

Aladino não conseguia entender.

–Uma bola de cristal? Mas isso eu estou vendo também.

–No, no… una bola dentro de la bola… 

–Esfera dentro de esfera?

–Como que una lámpada luminôssa… dentro de la pelota de cristal.

O cérebro ágil de Aladino começou a trabalhar.

–O futuro… uma bola dentro da outra…

–Como una pelota de bilhar.

–Ah. Então eu matei a charada.

A solução era cristalina.

Aladino ligou para a secretária.

–Marca um encontro com aquele meu amigo. O… o… da capa preta.

–Do tribunal? Qual?

–Fica esperta, Yasmine. Olha que podem estar grampeando a conversa…

–Mas quem é que eu procuro?

–Aquele… hã… que já está na nossa caçapa.

–Tipo… bola de bilhar?

–Exatamente.

A bola de cristal de Madame Ramíris pareceu tremular num vislumbre de assentimento.

–El futuro… es lá con ele… pero la pelotita de cristal no se engana jamás.

Não se conhecem os resultados da entrevista de Aladino com o importante magistrado.

É que tribunais são, por vezes, como bolas de cristal.

Você pode acreditar.

Mas nem tudo é transparente.

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