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Carlos Teixeira Jejum de Copas no Brasil é culpa da gestão

Carlos Teixeira Jejum de Copas no Brasil é culpa da gestão
A seleção não perdeu seus craques perdeu a cultura que transformava talento em grandeza. Leia o artigo no Poder360.

Grandes empresas raramente entram em decadência por falta de gente talentosa. A derrocada costuma começar quando deixam de transformar talento individual em desempenho coletivo.

Essa é uma das conclusões mais relevantes da moderna teoria das organizações, e talvez seja também a chave para compreender a crise da seleção brasileira.

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Durante décadas, acreditamos que o maior patrimônio do futebol brasileiro era a capacidade quase sobrenatural de produzirmos craques. Pelé, Garrincha, Tostão, Rivellino, Zico, Falcão, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká… Cada geração parecia confirmar a existência de uma fonte inesgotável de talentos.

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Hoje, diante de uma seleção que há duas décadas decepciona e já não desperta o mesmo temor nos adversários, o debate costuma seguir 2 caminhos: ou o Brasil teria deixado de produzir grandes jogadores, ou estaria preso a treinadores e esquemas táticos ultrapassados.

Talvez estejamos procurando a resposta no lugar errado.

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O professor Boris Groysberg, da Harvard Business School, dedicou grande parte de sua carreira a investigar por que profissionais considerados extraordinários muitas vezes deixam de apresentar o mesmo desempenho excepcional quando mudam de empresa.

Sua conclusão desafia a intuição.

O talento individual explica só parte do sucesso. A outra parte, muitas vezes decisiva, depende da cultura organizacional, da liderança, das relações de confiança, dos processos e do ambiente em que esse talento está inserido. “Estrelas não brilham sozinhas; brilham dentro de constelações”, afirma o professor.

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A indústria aeronáutica aprendeu isso há décadas. Um avião comercial não depende de um piloto genial, mas de uma cultura sistêmica de segurança tão sólida que reduz ao mínimo o impacto inevitável das falhas humanas. O segredo da aviação não foi encontrar os melhores pilotos do mundo, mas construir organizações nas quais pilotos competentes operam com extraordinária confiabilidade.

No futebol, nosso país continua produzindo jogadores extraordinários. Vinicius Júnior, Rodrygo, Raphinha, Estêvão, Endrick e tantos outros que figuram dentre os melhores dos maiores clubes europeus. Se o talento brasileiro continua existindo, por que ele parece não estar mais presente quando veste a camisa da seleção?

Talvez porque estejamos diante de uma questão mais profunda: o ambiente e a cultura organizacional da seleção e dos clubes.

Durante muitas décadas, a seleção foi uma instituição que operava em simbiose com os grandes clubes de futebol nacional. Nesta parceria prevalecia uma identidade própria e distinta do esporte mais popular do Brasil. Mais do que um agrupamento de grandes jogadores, havia valores transmitidos entre gerações, líderes respeitados, símbolos compartilhados e um compromisso permanente de excelência coletiva do futebol nacional.

Confirmando a tese do professor Boris, a constelação estava posta antes de se pensar em qualquer estrela individual. Vestir a camisa verde-amarela significava ingressar no degrau mais alto dessa cultura futebolística nacional.

O talento individual dos atletas era naturalmente convertido em desempenho e passado adiante. Pelé influenciou Zico que influenciou Romário. Romário influenciou Ronaldo que influenciou Kaká e Ronaldinho, que influenciaram Neymar.

Quando essa sofisticada cultura institucional enfraqueceu, a camisa canarinha deixou de potencializar nossos atletas e passou só a vesti-los.

É imprescindível notar o papel central que os clubes desempenham nessa questão. São eles que formam atletas, líderes, comportamentos e hábitos e que ensinam 1º às crianças o que significa fazer parte de uma organização.

É aqui que surge a contradição central. O Brasil continua sendo uma das principais potências globais na formação técnica de jogadores, mas a maioria esmagadora dos nossos clubes permanecem presos a estruturas organizacionais disfuncionais, marcadas por amadorismo, personalismo, baixa transparência, instabilidade política, desequilíbrio financeiro severo crônico e ausência de planejamento de longo prazo.

Nossos clubes são, por regra, instituições precárias que operam em modo de sobrevivência. Vendem o almoço do dia seguinte para pagar a janta de hoje. Continuam revelando grandes atletas, mas, com raras exceções, tornaram-se instituições frágeis, incapazes de sustentar ambientes organizacionais saudáveis.

E essa distinção é decisiva. Enquanto nossos clubes não se transformarem, o prognóstico para nossa seleção não será animador. Quando um jovem brasileiro chega ao Real Madrid, ao Manchester City ou ao Liverpool, ele não aprende a jogar futebol. Isso ele já sabe. O que encontra, pela 1ª vez em sua carreira, é uma cultura institucional baseada em planejamento, responsabilidade, estabilidade, meritocracia e excelência operacional.

O talento não muda. O contexto muda. E o contexto muda tudo.

Nesse ponto o leitor pode até ficar em dúvida e pensar que os maiores clubes brasileiros já dispõem de estrutura de 1º mundo, como centros de treinamento avançados, belas arenas, médicos e fisiologistas ultraespecializados, técnicos importados e executivos de futebol remunerados. Mas quando falamos de cultura organizacional que muda o contexto, estamos tratando da camada mais profunda de uma instituição.

Podemos, assim, pensar na cultura como o solo fértil da floresta: invisível para quem observa só a superfície, mas indispensável para tudo o que cresce acima dela. Clubes que procuram reproduzir o sucesso alheio só importando técnicos, copiando táticas, processos ou modelos de gestão se esquecem de que os frutos não nascem das árvores isoladamente, mas da base densa que as nutre. Sem o mesmo solo, dificilmente haverá a mesma colheita.

Se esse diagnóstico estiver correto, a crise da seleção brasileira não começou na Granja Comary, mas em todo o ecossistema que deságua na própria seleção.

É ilusório imaginar que o hexa vai chegar enquanto a seleção for abastecida por clubes formadores que convivem há décadas com improvisação, instabilidade e baixa qualidade de governança.

Nenhuma organização consegue entregar continuamente aquilo que sua cultura não é capaz de sustentar.

Reconstruir o futebol brasileiro exige mais do que escolher treinadores, sistemas táticos ou convocar talentos. Exige uma agenda institucional séria, capaz de alinhar seleção, clubes, formação de atletas, governança e cultura de excelência.

Se ainda restam dúvidas, os fatos falam por si: o Atlético de Madrid –um dos casos mais interessantes do futebol moderno exatamente porque sua estratégia competitiva não nasce da abundância de recursos, mas da necessidade de competir contra 2 gigantes muito mais ricos: Real Madrid e Barcelona– pela 3ª Copa do Mundo consecutiva será o clube com o maior número de jogadores presentes na partida final. Mais do que isso, nesta edição de 2026, alcançará outra marca impressionante: a maior representação de atletas em uma decisão de mundial por um mesmo clube desde a Copa da Itália, em 1934.

A nós, de nada adianta perder a Copa e convocar de forma tempestiva uma reunião para definir metas esportivas de curto e médio prazo, que parecem transferir toda a responsabilidade do solo da floresta para a árvore.

Parem as máquinas! As metas do futebol brasileiro deveriam ser radicalmente outras: reconstruir as instituições que um dia fizeram nossos craques produzirem coletivamente.

Culturas vencedoras não nascem por acaso. Enquanto o diagnóstico e o tratamento da doença que assola o futebol e a seleção brasileira não estiverem corretos, o hexa será só o sonho de uma estrela solitária a vagar, desgarrada da sua constelação, no escuro espaço das ilusões.

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