Confesso que eu estava entre as pessoas que não se sentiam tão entusiasmadas com a Copa do Mundo de 2026. Mas bastou o 1º apito tocar e a seleção brasileira entrar em campo para que aquela emoção conhecida voltasse, com tudo o que o futebol mobiliza: memória, pertencimento e uma linguagem comum que atravessa gerações.
Eu amo esse símbolo nacional que é o futebol brasileiro e a forma como ele constrói pertencimentos coletivos. Mas amar também significa poder questionar. E a pergunta que me atravessa é por que uma instituição tão central na nossa identidade foi construída sem a participação plena das mulheres nos espaços de poder que definem seus rumos.
publicidade publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seHá uma pergunta desconfortável: você lembraria de imediato de mulheres que presidiram grandes clubes brasileiros? A maioria de nós reconhece rapidamente dirigentes homens. No caso das mulheres, surgem poucas exceções como Marlene Matheus, Patrícia Amorim e Leila Pereira. A memória não é neutra: reflete a distribuição histórica do poder no futebol brasileiro.
publicidadeLevantamento do UOL Esporte em 2024 mostra a dimensão dessa assimetria. Entre 117 cargos estratégicos nos clubes das Séries A e B, incluindo presidência, direção de futebol e comando técnico, 116 eram ocupados por homens. Entre 40 clubes analisados, só uma mulher ocupava a presidência: Leila Pereira no Palmeiras. O dado não indica só ausência, mas concentração estrutural de poder.
publicidadeÉ aqui que a noção de liderança do jogo se torna central. Não se trata só de quem atua em campo, mas de quem define regras, distribui recursos e organiza a própria arquitetura institucional do futebol.
publicidadeEssa estrutura não surgiu por acaso. O futebol feminino no Brasil foi proibido a partir de 1941, durante o governo Vargas, quando o decreto-lei 3.199 impedia mulheres de praticarem esportes considerados “incompatíveis com sua natureza”. A proibição durou mais de 40 anos e só começou a ser desmontada no fim dos anos 1970. A modalidade foi oficialmente regulamentada em 1983, abrindo caminho para sua existência institucional depois de décadas de exclusão.
Esse histórico ajuda a explicar por que a desigualdade é estrutural, não acidental. E esse contraste fica ainda mais evidente diante da trajetória de Marta Vieira da Silva, seis vezes melhor jogadora do mundo pela Fifa e maior artilheira da história das Copas do Mundo, entre homens e mulheres, com 17 gols marcados em Mundiais. Sua carreira evidencia que talento nunca faltou. O que faltou foi acesso às estruturas de decisão, reconhecimento e desenvolvimento.
Estudo de 2025 de Júlia Barreira e pesquisadoras mostra que políticas da CBF e da Conmebol ampliaram o futebol feminino de 2019 a 2023, com mais equipes, competições e visibilidade. Mas o mesmo estudo mostra um limite decisivo: o crescimento da modalidade não foi acompanhado por mudança proporcional nas estruturas de liderança. Em muitos casos, clubes criam equipes femininas por exigência regulatória, sem investimento consistente ou profissionalização plena.
Isso revela um ponto central: ampliar presença não significa democratizar poder. O problema nunca foi a ausência de mulheres no futebol, mas a arquitetura institucional que define quem decide seus rumos.
E esse cenário se torna ainda mais relevante diante da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil, marco que evidencia a expansão global da modalidade e, ao mesmo tempo, os desafios de governança e financiamento.
Mulheres não estão chegando ao futebol. Estão nele há pelo menos um século no Brasil. O que está em disputa não é pertencimento, mas liderança. O futebol brasileiro não sofre de ausência feminina. Sofre de concentração masculina do poder. E enfrentar isso exige reorganizar as estruturas que definem o jogo, dos clubes às federações, dos conselhos às comissões técnicas. A transformação necessária é simbólica e institucional, mas precisa atingir as estruturas.
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