A partir de 1973, circulou a lenda de que Keith Richards, tido como o músico mais junkie da história do rock, trocava de sangue volta e meia para purgar as drogas do corpo. E para poder voltar a elas. O próprio guitarrista dos Rolling Stones contou, anos depois, que ele inventara a história. Na autobiografia “Vida”, escrita em colaboração com James Fox, Richards relata que, a caminho de uma clínica de desintoxicação na Suíça, fez escala no aeroporto de Heathrow, em Londres, onde repórteres o esperavam para saber detalhes do tratamento. “E lá estava a imprensa me perseguindo: ‘Ei Keith’. E eu disse: ‘Chega dessa porra. Vou trocar de sangue’”. Richards justifica o fato de ter criado a lenda: “Eu só falei aquilo para os filhos da puta se afastarem. E a história está por aí desde aquela época”.
A troca de sangue eletiva, em busca de detox, saiu da divertida lenda criada pelo guitarrista e virou realidade a partir de meados dos anos 2010. E, em 22 de maio de 2026, uma das empresas que faz substituição de plasma humano (troca terapêutica de plasma –TPE, na sigla em inglês) para “promover a saúde e a longevidade”, a Circulate Health, publicou o estudo “A plasmaférese pode ser usada para reduzir a carga circulante de microplásticos em pacientes humanos?”, no periódico da área Journal of Clinical Apheresis.
publicidade publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seSegundo a empresa, que vende também testes de sangue para detecção de microplásticos, 114 pacientes submetidos à plasmaférese consentiram em ter amostras de sangue coletadas antes e depois do procedimento. Os pesquisadores quantificaram as partículas de microplástico nas amostras e identificaram queda da concentração em pacientes com níveis moderados a altos. Em entrevista ao Axios, o CEO e cofundador da Circulate, Brad Younggren, disse que o estudo é o 1º com ensaios clínicos documentados em humanos a mostrar uma terapia para a remoção de plásticos do corpo.
publicidadeA troca de plasma exige a inserção de cateteres intravenosos e dura de uma a 3 horas por sessão. Entre os riscos estão problemas de coagulação sanguínea, queda do nível de cálcio, infecção e flutuações da pressão arterial. O processo utiliza soro intravenoso para remover toxinas ou anticorpos de cerca de 70% da porção livre de células do sangue e substituí-la por albumina e uma solução salina.
publicidadeA lógica é simples: como os microplásticos se ligam a proteínas no sangue, descartar fisicamente o plasma e substituí-lo elimina as toxinas a ele ligadas.
publicidadeO artigo adverte que, como o limite de detecção do ensaio é de 1 μm (1 micrômetro, unidade de medida que equivale a 1 milésimo de milímetro), não foi possível determinar se o procedimento remove nanopartículas também. Além disso, diz que, como são usados tubos de plástico no processo, a capacidade de aferir a eficácia do procedimento na remoção de microplásticos do sangue em níveis iniciais mais baixos fica prejudicada.
Esse é um detalhe bem importante. Como as máquinas de TPE utilizam tubos, filtros e bolsas de plástico, a passagem de sangue por esses sistemas pode, também, liberar novos microplásticos de volta na corrente sanguínea.
Outro problema é que os microplásticos que porventura cheguem à corrente sanguínea não permanecem só no sangue. Acumulam-se em tecidos profundos, depósitos de gordura e órgãos como fígado, rins e pulmões, como atestou um estudo pioneiro realizado em 2021 pelo Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, liderado por Luís F. Amato Lourenço e supervisionado por Thais Mauad.
Não menos importante é a possibilidade de viés do estudo. Como toda publicação em periódico científico, os textos devem conter um tópico sobre conflito de interesses. No artigo divulgado pela Circulate Health, consta que 7 dos autores do estudo são associados à empresa que custeia a pesquisa e os outros 4 são associados a clínicas onde os dados foram coletados.
A TPE começou a ser desenvolvida na década de 1950, foi consolidada para usos médicos nos anos 1970 e é aplicada no tratamento de doenças autoimunes, como miastenia e lúpus, no acompanhamento da esclerose múltipla e também no preparo de pacientes para transplantes de medula óssea.
Em 2016, o método começou a ser alardeado no mercado de bem-estar e entre os adeptos do chamado biohacking que, em linhas gerais, é a prática de modificar a própria biologia, o estilo de vida e o ambiente para tentar otimizar o desempenho físico e mental e aumentar a longevidade.
Naquele ano, nos Estados Unidos, pelo menos uma empresa começou a vender transfusões de plasma de adultos jovens para idosos, prometendo aumento da vitalidade. Em 2019, o órgão regulador norte-americano FDA emitiu um alerta para dizer que o processo não tinha eficácia comprovada e trazia riscos biológicos desnecessários.
Mas não era o fim da TPE preventiva. Descobriu-se que o benefício da troca de plasma não viria de adicionar algo ao corpo, e sim de depurar o sangue. Clínicas privadas passaram a vender a técnica como detox profundo e definitivo.
Entre os entusiastas da troca de plasma estão a atriz Gwyneth Paltrow, que diz ter pago 36.500 libras (aproximadamente R$ 250 mil) numa clínica em Chicago (EUA) e defende a prática. Vale lembrar que Paltrow faz propaganda e se diz praticante das mais variadas terapias de desintoxicação. Foi criticada por médicos por difundir métodos não comprovados cientificamente.
A cantora LeAnn Rimes publicou imagens e texto em seu perfil no Instagram sobre o procedimento de TPE ao qual se submeteu, que diz ter custado US$ 10.000 (aproximadamente R$ 51.600), numa clínica em Nashville (EUA), em janeiro de 2026.
Em termos de saúde pública, o procedimento invasivo, caro e arriscado para retirada de microplásticos é impensável. Mais importante para o planeta é conter a dispersão de microplásticos no ambiente.
A presença de microplásticos no corpo vem sendo comprovada na última década. Mas, recentemente, algumas medições de quantidades nos tecidos e órgãos humanos foram questionadas. Depois de publicar, em janeiro de 2026, um artigo revelando possíveis problemas metodológicos em 20 estudos (“Uma bomba: dúvidas são levantadas sobre a descoberta de microplásticos em todo o corpo humano” e também a réplica “Rigor científico e os perigos dos microplásticos”), o Guardian fez um editorial sobre o tema.
No texto, o jornal mostra a necessidade de aprimoramento das técnicas de pesquisa em ciência e, ao mesmo tempo, alerta sobre o uso das possíveis imprecisões das pesquisas pelo lobby dos plásticos.
“Os cientistas estão confiantes de que haverá algum consenso sobre a quantidade de plástico em nossos corpos em breve –provavelmente dentro de alguns anos. Mas mesmo quando a ciência se tornar mais clara, essa polêmica provavelmente será usada por pessoas mal-intencionadas para desacreditar resultados futuros. Afinal, a indústria do plástico está a jusante da indústria de combustíveis fósseis e emprega muitas das mesmas técnicas de lobby. As preocupações com a poluição plástica até agora transcenderam as fronteiras políticas tradicionais. Esperamos que assim continue”, diz o Guardian.
publicidade publicidadeTodo conteúdo