Nos 3 primeiros artigos desta série, defendemos uma ideia simples: nas últimas décadas a educação brasileira avançou, mas ainda está longe de onde precisa chegar. Argumentamos também que acelerar esse avanço exige 2 movimentos simultâneos: preservar e aperfeiçoar políticas que caminham na direção correta e promover mudanças mais profundas nas agendas em que fazer mais do mesmo não nos levará ao próximo patamar.
No artigo anterior, começamos a tratar desse 2º movimento. Dentre 4 prioridades de mudança estrutural elencadas pelo Todos Pela Educação no documento ?Educação Já: Dois Movimentos, Uma Só Agenda?, abordamos duas: políticas docentes, com foco na formação inicial dos professores, e uma política nacional permanente de recomposição das aprendizagens.
publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seAgora, completamos o quarteto. O Brasil precisa modernizar a maneira como avalia a aprendizagem de seus estudantes e dar novo fôlego, com ambição e qualidade, à expansão da educação integral em tempo integral.
publicidade publicidade MODERNIZAÇÃO DAS AVALIAÇÕES NACIONAISPoucas políticas educacionais brasileiras resistiram tão bem ao teste do tempo quanto o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica).
Criado há mais de 3 décadas, ele permitiu ao Brasil construir algo que não é trivial nem mesmo entre países desenvolvidos, menos ainda em uma federação com 26 Estados, Distrito Federal e mais de 5.500 municípios: uma régua nacional capaz de acompanhar a aprendizagem e comparar resultados ao longo do tempo.
Sem o Saeb, saberíamos muito menos sobre nossa educação. Não teríamos o Ideb como conhecemos, seria mais difícil identificar redes que avançam ou ficam para trás e o debate educacional estaria ainda mais sujeito a impressões e achismos.
Mas uma ferramenta que ajudou a modernizar a educação brasileira também precisa ser modernizada.
publicidadeConstruímos uma boa avaliação para responder a uma pergunta fundamental: quanto nossos estudantes estão aprendendo? O desafio agora é responder melhor também a outra: o que conseguem fazer com aquilo que aprenderam?
Essa mudança se tornou ainda mais importante diante das transformações do mundo em que vivemos. Informação e conteúdo nunca estiveram tão acessíveis e, com a inteligência artificial, tornou-se ainda mais fácil encontrá-los, organizá-los e até produzir respostas. Cada vez mais, a escola precisa assegurar que os estudantes saibam compreender, relacionar e questionar conhecimentos, mobilizando-os com autonomia e criatividade diante de problemas novos. E nossas avaliações precisam acompanhar essa mudança.
Essa modernização passa por pelo menos 4 frentes.
A 1ª é redefinir o que o Saeb pretende avaliar. Hoje, a avaliação se concentra em habilidades específicas, tratadas de forma relativamente fragmentada e sem explicitar com clareza a progressão das aprendizagens esperadas ao longo da trajetória escolar. Isso limita sua capacidade de avaliar competências mais complexas e favorece questões de múltipla escolha, muitas vezes apoiadas em textos curtos e de baixa demanda cognitiva.
Avaliações internacionais, como o Pisa, cujos resultados de 2025 serão divulgados em 8 de setembro, caminham em outra direção. Partem de situações mais conectadas à vida cotidiana e avaliam se os estudantes conseguem mobilizar diferentes habilidades para demonstrar o domínio de competências. Para isso, utilizam textos mais extensos, problemas contextualizados e formatos variados de questões, que exigem interpretação, articulação de informações e formulação de estratégias.
O Saeb precisa caminhar nessa direção a partir da Base Nacional Comum Curricular: definir com clareza as competências esperadas ao final de cada ciclo e área do conhecimento e avaliar a capacidade dos estudantes de mobilizar diferentes habilidades para demonstrá-las. Precisa também explicitar as situações-problema associadas a essas competências e tornar mais clara a progressão das aprendizagens que sustenta as avaliações, algo especialmente importante para orientar políticas de recomposição.
A 2ª frente é inovar na forma de avaliar. O Inep precisa liderar um esforço de construção de novos itens, capazes de identificar com maior precisão os diferentes níveis de aprendizagem dos estudantes. Isso passa por incorporar textos mais extensos e aprofundados, questões voltadas à aplicação prática de conceitos e à resolução de problemas, respostas construídas pelos próprios estudantes e produção textual.
A tecnologia amplia ainda mais essas possibilidades. A transição para avaliações digitais permite incorporar questões interativas e simulações. A inteligência artificial pode, por sua vez, viabilizar o uso em maior escala de questões abertas sem tornar proibitivo o custo de correção. São fronteiras que exigem cuidado e validação rigorosa, mas seria estranho preparar os estudantes para um mundo transformado pela tecnologia enquanto nossa principal avaliação nacional permanece praticamente parada no tempo.
A 3ª frente envolve a motivação dos estudantes. Avaliações não são termômetros independentes da vontade de quem responde. Se a prova não tem qualquer consequência para o aluno, seu engajamento pode afetar o resultado e, portanto, a qualidade da informação produzida.
Experiências recentes merecem atenção. Neste ano, o governo federal passará a utilizar o Enem também como instrumento de avaliação do ensino médio, além de sua função de acesso ao ensino superior. Há desafios metodológicos nessa escolha, mas uma vantagem evidente: para milhões de jovens, ir bem naquela prova importa. Em São Paulo, lógica semelhante orienta o Provão Paulista, que combina avaliação com possibilidade de ingresso nas universidades públicas estaduais.
São caminhos similares e que levantam uma questão importante: como desenhar avaliações que incentivem os estudantes a mostrar, de fato, o melhor que sabem?
A 4ª frente diz respeito ao alcance das avaliações. Na educação infantil, por exemplo, o país ainda dispõe de poucas informações sobre a qualidade das experiências oferecidas às crianças. É preciso construir instrumentos adequados à etapa, obviamente sem transformar crianças pequenas em respondentes de provas, capazes de observar ambientes, práticas pedagógicas e condições de oferta.
Modernizar o instrumento, porém, é só metade da agenda. Há uma 2ª transformação tão importante quanto: usar melhor aquilo que avaliamos.
Durante muito tempo, a grande contribuição do Saeb foi mostrar ao país onde estávamos. Agora, ele precisa ajudar mais a mudar para onde estamos indo.
Avaliações não podem servir só para produzir indicadores, rankings e manchetes a cada 2 anos. Precisam chegar às redes e escolas de maneira mais rápida, compreensível e pedagogicamente útil, com melhores devolutivas, orientações sobre as principais dificuldades dos estudantes e maior articulação entre o Saeb e as avaliações estaduais e municipais.
Isso é especialmente importante diante do desafio discutido no artigo anterior. Para enfrentar as enormes defasagens dentro de uma mesma turma, professores e gestores precisam de informações mais precisas sobre o que os estudantes sabem e, principalmente, o que ainda não sabem.
Em síntese, precisamos de uma avaliação mais exigente naquilo que pergunta e mais útil naquilo que devolve.
O Brasil foi pioneiro na construção de uma cultura de avaliação em larga escala. Depois de 3 décadas aprendendo a medir melhor nossa educação, chegou a hora de levar essa construção ao próximo estágio e usá-la mais diretamente para transformá-la.
TEMPO INTEGRAL: MAIS TEMPO, MAS NÃO DE QUALQUER JEITOA 2ª transformação é diferente. Aqui, o desafio é acelerar uma expansão ainda muito aquém do necessário.
Há algumas semanas, escrevemos na Folha de S.Paulo sobre uma anedota que gostamos de contar. Explique a alguém de um país desenvolvido o que significa uma ?escola de tempo integral? no Brasil, 7 horas diárias em vez das 5 horas da escola regular, e provavelmente ouvirá algo como: ?Ah, entendi. Aqui a gente chama isso de escola?.
A brincadeira dimensiona nosso atraso.
O Brasil avançou nos últimos anos. No ano passado, 25,8% dos estudantes da rede pública estavam matriculados em tempo integral. No ensino médio, 26,8%. Visto pelo outro lado, praticamente 3 em cada 4 jovens dessa etapa ainda estudam em jornada parcial.
E a barra acaba de subir. O novo Plano Nacional de Educação estabeleceu que, até o final da próxima década, pelo menos metade dos estudantes da educação básica pública deverá estar matriculada em tempo integral. Ambição mais do que correta.
Antes, é importante separar 2 conceitos. Escola de tempo integral significa ampliar a jornada. Educação integral é uma concepção voltada ao desenvolvimento pleno do estudante. Uma coisa não assegura a outra, mas a 1ª cria condições muito melhores para a 2ª.
O tempo adicional permite fazer algo que as 5 horas comprimidas da escola brasileira tornam quase impossível: combinar aprofundamento acadêmico, recomposição das aprendizagens, atividades culturais e esportivas, desenvolvimento socioemocional e, no ensino médio, uma integração mais robusta com a educação profissional.
Permite, sobretudo, democratizar oportunidades. Famílias de maior renda conseguem complementar aquilo que a escola não oferece com cursos de idiomas, esportes, atividades culturais, reforço escolar e tecnologia. Para milhões de estudantes das escolas públicas, praticamente tudo precisa caber dentro da própria escola. A jornada ampliada é, por isso, também uma poderosa política de equidade.
Mas não basta manter os estudantes por mais duas horas dentro da escola.
Nos últimos anos, a expansão do tempo integral em alguns Estados veio acompanhada de flexibilizações preocupantes. Há escolas classificadas como integrais em que só parte dos estudantes está em jornada ampliada e experiências em que a extensão do horário não foi acompanhada por mudanças equivalentes no currículo, na formação das equipes, na infraestrutura e no apoio à gestão.
Esse é o verdadeiro risco da expansão: transformar uma política potencialmente transformadora em ?mais tempo da mesma escola?.
A experiência brasileira mostra que é possível fazer diferente. Pernambuco, referência nacional na década passada, combinou a expansão da jornada com mudanças profundas no funcionamento das escolas. Investiu em infraestrutura, reorganização curricular, maior dedicação dos professores às unidades, formação das equipes e fortalecimento da gestão. Os resultados apareceram na aprendizagem e, de maneira especialmente impressionante, na permanência dos jovens na escola.
Mais recentemente, o Piauí foi ainda mais ousado. Em poucos anos, promoveu uma expansão acelerada do tempo integral articulada à educação profissional e tecnológica. Em 2025, todas as escolas estaduais de ensino médio já ofereciam o modelo e 81% dos estudantes estavam matriculados em jornada integral, maior proporção do país. E resultados que normalmente levam tempo para aparecer vieram em velocidade surpreendente: no Ideb de 2025, a rede estadual piauiense alcançou a 2ª maior nota do Brasil no ensino médio, atrás só do Paraná, com forte avanço também na aprendizagem medida pelo Saeb.
A lição é simples: tempo importa, mas o que fazemos com ele importa tanto quanto.
Por isso, o próximo governo federal deveria retomar uma política robusta de indução à educação integral em tempo integral, combinando duas obsessões: escala e qualidade.
Escala exigirá dinheiro. Escolas de jornada ampliada custam mais: precisam de mais professores, alimentação, manutenção e, muitas vezes, ampliação ou construção de infraestrutura. Não é razoável esperar que Estados e municípios, especialmente os mais pobres, façam sozinhos essa transição.
O governo federal pode exercer papel decisivo.
Primeiro, financiando infraestrutura, com prioridade para redes e territórios de menor capacidade fiscal. A atual gestão, depois de perder parte do ímpeto com que iniciou o mandato nessa agenda, sinaliza que, em um eventual 2º mandato, pretende retomá-la com força. Independentemente de quem esteja no governo a partir de 2027, esse deve ser o caminho.
Segundo, oferecendo recursos adicionais de custeio durante um período de transição, para que as redes expandam a jornada e incorporem gradualmente os novos custos aos próprios orçamentos.
Outros instrumentos devem remar na mesma direção. Os ponderadores do Fundeb e os repasses do Programa Nacional de Alimentação Escolar podem refletir melhor o custo das matrículas em tempo integral. Até o Pé-de-Meia, que defendemos no 2º artigo desta série que seja mais focalizado, poderia oferecer incentivos significativamente maiores aos jovens vulneráveis matriculados nessa modalidade.
A lógica é poderosa: justamente os estudantes que mais precisam trabalhar e têm maior dificuldade para permanecer 7 horas na escola são os que mais poderiam se beneficiar de uma jornada ampliada e de qualidade.
Mas dinheiro sem modelo não basta. O apoio federal precisa estar associado a parâmetros de qualidade: infraestrutura adequada, reorganização curricular, formação das equipes, acompanhamento da implementação e avaliação dos resultados.
Sair de pouco mais de 1/4 dos estudantes da rede pública em tempo integral para metade exigirá transformar a rotina de milhões de alunos e milhares de escolas. Não se faz por decreto nem de uma hora para outra. Exige planejamento, investimento e capacidade de implementação durante muitos anos. É justamente por isso que precisamos começar com mais força agora.
EM TIME QUE ESTÁ GANHANDO SE MEXE, SIMAo longo dos 2 últimos artigos, apresentamos 4 agendas em que o Brasil precisa avançar e para as quais ainda faltam encaminhamentos decisivos: formação inicial de professores, recomposição das aprendizagens, avaliações nacionais e educação integral em tempo integral.
Nenhuma exige jogar fora o que construímos. Pelo contrário. Temos políticas, instituições e experiências bem-sucedidas sobre as quais avançar. O erro seria confundir continuidade com defesa do status quo.
Os resultados recentes mostram que a educação brasileira está avançando. Ao mesmo tempo, o novo PNE estabeleceu metas que exigirão uma velocidade de melhora muito superior à que tivemos até aqui. As duas coisas precisam ser lidas juntas.
Se estivéssemos diante de um sistema educacional que não consegue sair do lugar, talvez a prioridade fosse simplesmente fazê-lo andar. Não é mais esse o caso.
O Brasil já mostrou que consegue avançar. Agora precisa mostrar que consegue acelerar.
E é aqui que a metáfora do futebol encontra seu limite. Quando um time está ganhando, o treinador pode pensar duas vezes antes de mexer. Mas se sabe que o jogo vai ficar mais difícil e que o placar atual ainda não assegura a vitória, não mexer também é uma decisão. E pode ser a mais arriscada de todas.
Na educação brasileira, estamos finalmente saindo do lugar. O pior que poderíamos fazer agora seria transformar o avanço conquistado em argumento para nos acomodarmos.
Em time que está ganhando se mexe, sim. Especialmente quando o objetivo é ganhar de mais.
O Todos pela Educação, por meio de seus colaboradores, publica artigos mensais neste Poder360. Os textos são publicados sempre na primeira 4ª feira de cada mês, na seção de Opinião e na página Educação no Poder, neste jornal digital.
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