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Geovana Basso Diálise em casa: tratamento adaptado à vida e não o contrário

Geovana Basso Diálise em casa: tratamento adaptado à vida e não o contrário
Modalidade peritoneal oferece mais flexibilidade, mas ainda enfrenta barreiras de oferta, informação e suporte no Brasil. Leia o artigo no Poder360.

A DRC (doença renal crônica) é uma condição muitas vezes silenciosa, que pode progredir ao longo dos anos. Condições muito prevalentes no Brasil e no mundo, como a hipertensão arterial e o diabetes mellitus, estão entre suas principais causas. Também aumentam o risco o envelhecimento populacional, a obesidade e o histórico familiar de doença renal.

A importância do diagnóstico precoce reside em um fato simples e determinante: embora o dano renal crônico estabelecido geralmente não seja reversível, o diagnóstico oportuno e o tratamento adequado podem retardar significativamente a progressão da doença e, em alguns casos, estabilizar a função renal. Em estágios avançados, podem surgir sintomas e complicações que tornam necessária uma terapia renal substitutiva. A decisão de iniciar a diálise deve ser individualizada e baseada no quadro clínico, e não só em um percentual isolado de função renal.

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Há mais de 7 décadas, a nefrologia utiliza terapias de suporte capazes de substituir parte das funções dos rins. Quando a função renal já não é suficiente para manter o organismo em equilíbrio, as opções incluem o transplante renal e as duas principais modalidades de diálise: a hemodiálise e a diálise peritoneal.

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No Brasil, o cenário mais comum ainda é o início não planejado da diálise. Para a maioria dos pacientes, a urgência dialítica vem acompanhada da ausência de um acesso previamente preparado e da falta de conhecimento sobre as opções de tratamento. Muitos descobrem a doença renal, ou ao menos a sua gravidade, só na emergência, já em estado crítico e sem tempo para compreender as modalidades disponíveis e participar de uma decisão verdadeiramente informada.

Para desmistificar o procedimento diante do medo do paciente e de sua família, costumo recorrer a uma analogia profundamente enraizada na cultura brasileira: o filtro de barro. Assim como a água atravessa uma barreira porosa que retém impurezas, a diálise utiliza uma membrana semipermeável para remover do organismo toxinas e excesso de líquidos. A diferença está em qual membrana é utilizada e em como o processo ocorre:

na hemodiálise, o sangue é retirado por meio de um acesso vascular, circula por um sistema externo e passa por um filtro artificial antes de retornar ao corpo. Na forma convencional realizada em clínica, o tratamento costuma ocorrer 3 vezes por semana, em sessões de aproximadamente 4 horas, além do tempo de deslocamento e preparação. Também existem modalidades domiciliares de hemodiálise, ainda pouco disponíveis no Brasil; na diálise peritoneal, utiliza-se uma estrutura do próprio corpo: o peritônio, membrana altamente vascularizada que reveste os órgãos abdominais. Por meio de um cateter, uma solução de diálise é infundida na cavidade peritoneal, onde permanece por um período e depois é drenada. O tratamento promove a remoção gradual e contínua de toxinas e excesso de líquidos. Pode ser realizado manualmente ao longo do dia ou, com o auxílio de uma pequena máquina automatizada, durante a noite, enquanto o paciente dorme.

Apesar de ser uma alternativa consolidada, os pacientes em diálise peritoneal representavam só 5% a 6% dos pacientes em diálise no Brasil, segundo o mais recente Censo Brasileiro de Diálise. Essa baixa utilização reflete um modelo assistencial historicamente centrado na hemodiálise, além de barreiras de financiamento, logística, capacitação das equipes e percepções que nem sempre correspondem às evidências.

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Um dos equívocos mais persistentes é imaginar que pessoas de menor renda ou escolaridade não seriam capazes de realizar o tratamento em casa. O estudo brasileiro BRAZPD, uma das maiores pesquisas sobre diálise peritoneal já conduzidas no mundo, acompanhou milhares de pacientes e mostrou que a renda familiar, isoladamente, não esteve associada a menor sobrevida do paciente. O perfil socioeconômico não deve, portanto, funcionar como critério automático de exclusão. Avaliação individualizada, treinamento adequado e suporte contínuo são muito mais relevantes.

Em um país de dimensões continentais, muitos pacientes que vivem em áreas remotas precisam percorrer grandes distâncias 3 vezes por semana para chegar a um centro de hemodiálise. Nesse contexto, a diálise peritoneal pode ajudar a reduzir vazios assistenciais: em vez de deslocar repetidamente o paciente até a terapia, a terapia pode chegar à casa do paciente.

Para viabilizar uma expansão consistente no Sistema Único de Saúde, precisamos enfrentar barreiras claras: coordenação entre União, Estados e municípios; financiamento adequado aos prestadores; logística confiável para entrega de insumos, inclusive em regiões remotas; capacitação contínua das equipes multidisciplinares; educação estruturada de pacientes e cuidadores; e acesso rápido a suporte clínico e técnico. O sucesso de uma terapia domiciliar não termina com a entrega do equipamento. Ele depende de um modelo de cuidado capaz de acompanhar e apoiar o paciente ao longo de toda a jornada.

Defender a diálise peritoneal não significa abandonar a hemodiálise nem assumir que uma única modalidade seja superior para todas as pessoas. Significa assegurar o direito fundamental de escolha. Quando apresentava as modalidades aos meus pacientes, destacava 4 pilares importantes na decisão sobre uma terapia domiciliar:

autonomia e empoderamento – o paciente deixa de ser só um receptor passivo do tratamento e assume um papel ativo na gestão da própria saúde; qualidade de vida e tempo – o tratamento pode ser integrado à rotina, reduzindo deslocamentos frequentes e preservando tempo para a família, o trabalho e outras atividades importantes; flexibilidade e mobilidade – com planejamento, organização dos insumos e suporte da equipe, a modalidade pode facilitar viagens, trabalho e compromissos sociais; segurança e suporte contínuo – realizar o tratamento em casa não significa estar sem assistência. Treinamento, acompanhamento clínico e acesso rápido à equipe são componentes essenciais da terapia.

Motivados pelo recém-comemorado Dia Nacional da Diálise (27.ago), precisamos reconhecer que não existe escolha real quando uma modalidade sequer é ofertada. A diálise peritoneal pode ser uma opção para parte dos pacientes, desde que sejam consideradas as condições clínicas, o ambiente domiciliar e as preferências do paciente e de sua família. Em um país no qual só 5,6% dos pacientes realizam diálise peritoneal, esse percentual não reflete necessariamente só preferência ou elegibilidade: ele também revela limitações de oferta, informação, treinamento e suporte. Ampliar o acesso não significa direcionar todos para o tratamento domiciliar, mas assegurar que cada paciente elegível tenha a oportunidade de conhecê-lo e escolher a modalidade que melhor se adapta à sua vida.

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