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Bernardo Freire Desenrola confirma que bets não são a causa do endividamento

Bernardo Freire Desenrola confirma que bets não são a causa do endividamento
Dados do programa mostram que crédito, cartão e consignado são os maiores responsáveis pela situação das famílias. Leia o artigo no Poder360.

O Desenrola, que acaba em 31 de agosto, oferece a chance de o Brasil olhar para o endividamento das famílias com menos narrativas e mais dados. E os dados desmontam uma tese que ganhou força nos últimos meses: a de que as bets seriam uma das principais causas —ou a principal— desse endividamento.

Não se nega que apostadores possam se endividar, em especial nos casos de comportamento compulsivo. É por isso que prevenção, educação financeira, mecanismos de proteção —presentes no mercado legal— e, sobretudo, o combate ao mercado ilegal são necessários.

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Outra coisa, porém, é transformar um problema que pode atingir uma parcela reduzida dos apostadores na explicação para o endividamento geral do país. Os próprios dados do Desenrola negam essa última conclusão.

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Como se sabe, o Desenrola foi estruturado para renegociar dívidas financeiras. Cartão de crédito, crédito pessoal, cheque especial e outros estão no centro da crise. Não existe uma categoria de “dívida com bets” que explique a dimensão do problema.

O estoque de crédito das famílias é estimado em cerca de R$ 3,3 trilhões. Só 4 modalidades —crédito imobiliário, consignado, cartão de crédito e financiamento de veículos— representam cerca de R$ 2,59 trilhões. Os números do endividamento são duas ordens de grandeza maiores que o das apostas.

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Pelos dados do Desenrola, 800 mil dos cerca de 30 milhões de apostadores do país foram impedidos de apostar depois de aderirem ao programa. Isso significa que cerca de 2,6% dos apostadores estavam endividados a ponto de aderir ao refinanciamento do Desenrola. É uma parcela pequena, perto de um problema tão grande.

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A fala do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em 24 de agosto, reforçou o diagnóstico. Na abertura da Febraban Tech, ao tratar do aumento do endividamento das famílias, ele sequer citou as bets. Diferentemente, destacou a expansão do crédito, especialmente por meio do cartão, do consignado e de linhas sem garantia.

“Não dá para ficar contente com a notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu”, afirmou Galípolo. Segundo ele, 96 milhões de brasileiros utilizam cartão de crédito e 52,8 milhões carregam dívidas no rotativo ou em parcelamentos com juros. O comprometimento médio da renda desses consumidores com o cartão chegou a 54%.

O consignado privado cresceu 145% em 1 ano, chegando a R$ 102 bilhões, e o crédito pessoal não consignado foi a R$ 397,2 bilhões. São esses os mecanismos que o Banco Central identifica ao explicar o atual quadro. As bets, além de não concederem crédito, não aparecem nesse diagnóstico.

Há ainda outra confusão: a ideia de que os brasileiros teriam “perdido R$ 37 bilhões com bets” –quando não são citados outros números completamente desconectados dos dados oficiais– e que esse dinheiro teria saído da economia.

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Os cerca de R$ 37 bilhões correspondem ao GGR —a receita bruta do jogo— no mercado regulado. Não significa que R$ 37 bilhões sumiram. Grande parte desse valor alimenta a economia: paga destinações, salários, tecnologia, fornecedores, publicidade, patrocínios esportivos, outros serviços e, por fim, impostos.

Salário é renda; publicidade é receita de outra empresa; patrocínio é receita de clubes, atletas e entidades; imposto é arrecadação pública. Todos esses itens somam cerca de R$ 27,5 bilhões.

E o lucro também permanece no circuito econômico, seja por reinvestimento, seja por distribuição ou tributação. Esse montante, dos operadores legalizados, corresponde a cerca de R$ 9,5 bilhões —muito menos de 1% do endividamento total.

Isso não significa negar o jogo problemático. Se alguém se endivida ao apostar, é preciso agir. Se se torna compulsivo, deve-se protegê-lo. E operadores ilegais, que não seguem regras e ainda correspondem a mais de 40% do mercado, devem ser combatidos.

Mas casos individuais não podem ser transformados, sem evidência causal, na explicação para a quantidade de endividamento.

O fim do Desenrola deveria encerrar esse argumento. O Brasil tem um problema grave de endividamento, e o diagnóstico do Banco Central aponta como causas da expansão do crédito o cartão, o consignado e modalidades caras e sem garantia.

As apostas não devem ser tratadas como intocáveis. Mas também não podem virar o bode expiatório de um problema que tem raízes no sistema de crédito brasileiro.

Combater o jogo ilegal, proteger o apostador vulnerável e estimular o uso responsável do crédito são objetivos legítimos. Mas culpar os operadores pelo endividamento é falsear a realidade para atacar um setor legítimo da economia, que pela 1ª vez na história do país oferece apostas com regras de prevenção ao endividamento, à ludopatia e ao acesso de menores.

No fim, o Desenrola deixa uma lição simples: o endividamento brasileiro tem muitas causas, mas essa conta não é das bets legalizadas –pelo que defender a proibição do setor no Brasil corresponde à demagogia e conivência com a ilegalidade.

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