Claro que, conforme vamos envelhecendo, os esquecimentos e brancos de memória se tornam mais comuns. Quem já passou dos 60 está sempre apalpando o cérebro para ver se o alzheimer está por perto.
Parece que certas lacunas mentais –uma palavra que foge da língua, o nome de um ator de cinema que se esconde no intervalo dos neurônios com a coisa que a gente foi buscar na cozinha e não sabe mais o que é– não têm necessariamente muito a ver com a demência próxima.
publicidade publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seOuvi de um médico que isso é só sinal de que “o hard drive está cheio”. Muita informação acumulada ao longo dos anos. Não sei se isso me tranquiliza. A metáfora talvez seja um pouco vaga, em todo caso.
publicidadeLembro perfeitamente cada jogo do Brasil na Copa de 1970. Naturalmente, não é só porque meu hard drive estava mais vazio na época. Documentários, retrospectivas, cenas esparsas na televisão repetiram dezenas de vezes o gol de Carlos Alberto na final contra a Itália, a pixotada de Clodoaldo no jogo da Tchecoslováquia, a defesa sensacional do inglês Banks naquela cabeçada do Pelé.
publicidadeO vexame dos 7 a 1, muito mais recente, também ninguém esquecerá. Agora, não me perguntem nada sobre a campanha do tetra, muito menos sobre o que ocorreu na Copa de 2022.
publicidadeO problema, aí, não é de capacidade cerebral. É que essas Copas todas, uma em seguida da outra, perdem a importância quando a idade avança. A questão, aqui, se resume à velha lei da oferta e da procura. A abundância de um produto diminui o seu valor. A final a que assistimos aos 10 anos, por ser a 1ª, vale mais do que a 6ª ou a 7ª que tivemos de engolir.
Mas não se trata só de uma questão subjetiva, dependendo da fase em que estamos na vida. Desconfio que um adolescente, hoje, arrisca-se a ter memórias mais instáveis que as dos jovens de 40 anos atrás.
É bem provável, já que é muito maior e mais rápido o fluxo de estímulos e informações a que estamos expostos atualmente. Uma coisa é responder rapidinho, com um emoji ou um simples sorriso, ao meme que apareceu no celular. Outra coisa é conseguir evocar, 2 minutos depois de nossa reação, o que mesmo estávamos curtindo?
Não é culpa só da internet. Reparei há muito tempo que, com o simples noticiário da televisão, o fenômeno é parecido. Bastava acabar a transmissão do Jornal Nacional, e eu tentava lembrar as 5 principais notícias da noite –e não era nada fácil.
Chego a uma conclusão que, espero, não é das mais óbvias.
Muitos psicólogos dividem nossas recordações em 2 tipos: existe a memória recente –talvez guardada num lugar específico do cérebro– e a memória de longo prazo –preservada em região mais “funda”. Há teorias diferentes sobre isso. Falo, entretanto, da minha experiência prática.
Domingo passado, por exemplo, saí com meu filho para ver uma apresentação de música. Era em um café-casa de shows que eu não conhecia, num bairro longe de casa, e para mim, pelo menos, as coisas que se passam em noites de frio são em geral mais memoráveis.
As circunstâncias eram novas: o lugar parecia uma antiga oficina mecânica, mas com estantes de livros e objetos antiquados, gongos, gramofones, aparelhos de válvula, sofás de veludo no meio do palco. A mistura do confortável e do insólito se estendia ao cardápio, “autoral”, mas não muito, e se prolongava no jogo indireto das sombras e das luzes sobre os rostos da plateia.
Muito bem. Por algum motivo, eu quis, ou melhor, desejei, que aquelas duas ou 3 horas da minha vida não se perdessem como tantas outras mais ou menos parecidas. Estava consciente do problema crônico, cada vez mais intenso, do apagamento total de uma coisa acontecida 1 ou 2 meses atrás.
“Não!”, pensei. Não quero que esta noite desapareça da memória. Como asseguraria sua preservação?
Aí está a trivialidade da coisa, mas acho que no fundo não é tão trivial assim. Para que você não se esqueça de uma determinada experiência, é preciso 1º tentar se lembrar antes que se afunde na massa do passado.
Era um domingo. Na 2ª feira, tentei relembrar o que tinha visto. Fiz o mesmo na 3ª e na 4ª. Acho que está dando certo.
Isso não é tão banal assim. Não costumamos relembrar o que se passou na véspera, porque novos estímulos apareceram, como a cenoura eternamente estendida à frente do focinho do cavalo (ou do burro) que segue caminhando, perseguindo em vão o mesmo objeto fugidio.
Esse objeto se chama vida; é porque corremos atrás dela, sempre futura, sempre incompleta, que damos as costas para o que passou, para o que foi experimentado, para o que, em cada momento, já estava pronto e completo –e se perdeu, sumiu, desapareceu no fundo de uma memória inalcançável.
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