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Lizandra Paravidine A urgência por inovação e acesso em saúde feminina no Brasil

Lizandra Paravidine A urgência por inovação e acesso em saúde feminina no Brasil
Menopausa deixa de ser tabu, mas milhões de brasileiras ainda enfrentam barreiras para obter tratamentos adequados. Leia o artigo no Poder360

Nos últimos anos, um tema outrora silenciado vem ganhando voz e destaque na sociedade brasileira: a menopausa. Deixando de ser um tabu, o climatério agora é pauta de discussões crescentes, desde as mídias sociais até audiências públicas. Essa mudança reflete o empoderamento feminino e a busca por informações e tratamentos que melhorem a qualidade de vida de milhões de mulheres.

No entanto, enquanto a conscientização avança, o acesso a terapias inovadoras no Brasil ainda enfrenta desafios.

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É inegável que o cenário das terapias para menopausa evoluiu. Depois de um período de grande retração nas prescrições de terapia hormonal (TH) causado por receios despertados pelo estudo WHI (Women’s Health Initiative) de 2002, a compreensão científica amadureceu. Novos estudos, com diferentes posologias e formulações, trouxeram um retorno gradual e mais seguro à prescrição da TH.

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Hoje, na rede privada, já dispomos de um leque muito maior de possibilidades, incluindo formas transdérmicas como géis, sprays, adesivos, dispositivos intrauterinos, além da via oral e vaginal. Essa variedade é crucial para individualizar o tratamento e otimizar a segurança e a eficácia para cada mulher.

Apesar de todos os avanços na oferta de tratamentos hormonais, 48% das mulheres brasileiras na transição menopausal não recebem nenhum tratamento e somente 22% recebem prescrição de tratamento hormonal. O grande desafio reside na disponibilidade dessas terapias para a maioria das brasileiras, principalmente na rede pública de saúde (SUS).

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Essa desigualdade se torna ainda mais evidente quando observamos que cerca de 50% das mulheres atualmente não recebem nenhum tipo de tratamento para os sintomas da menopausa. Esse cenário reflete, em grande parte, a falta de opções terapêuticas adequadas e acessíveis, incluindo alternativas não hormonais, capazes de atender às diferentes necessidades e perfis de mulheres ao longo dessa fase da vida.

Muitas vezes, o que resta são medicamentos para ansiedade e depressão que, embora possam atenuar alguns sintomas como os fogachos, não são tratamentos direcionados e específicos para essa fase.

O impacto disso na qualidade de vida é imenso. O fogacho, por exemplo, é o sintoma mais característico e, frequentemente, o mais incapacitante, afetando o sono, o humor e a produtividade. Mulheres na faixa de 45 a 55 anos, que muitas vezes atingem o auge de suas carreiras e reconhecimento profissional, veem sua rotina de trabalho e doméstica drasticamente comprometidas por esses sintomas.

Além dos fogachos, manifestações como secura vaginal, risco de osteoporose, alterações de humor, pele, cabelo e até a perda de massa muscular e o aumento de peso, demandam um cuidado multiprofissional e terapias eficazes.

CONTEXTO REGULATÓRIO  

Nesse cenário, o papel dos órgãos regulatórios como a Anvisa é fundamental. Sua responsabilidade em avaliar estudos clínicos e assegurar a segurança e a eficácia dos medicamentos é inquestionável.

No entanto, o que observamos é um atraso na liberação de novas terapias no Brasil em comparação com órgãos de outros países, como o FDA (Estados Unidos) e as agências europeias.

O principal desafio parece estar na capacidade operacional da agência. Nos últimos anos, a medicina avançou em ritmo acelerado, com um volume sem precedentes de novos estudos e medicamentos a serem analisados.

A estrutura da Anvisa provavelmente não acompanhou esse crescimento, criando uma demanda muito superior à capacidade de processamento em prazo adequado. Ampliar o quadro de profissionais e investir em recursos técnicos torna-se, portanto, uma medida urgente para que o Brasil não perca espaço na adoção de inovações já disponibilizadas em diversas partes do mundo.

Além disso, é crucial que haja uma priorização dentro da pauta regulatória. Em um contexto em que o Outubro Rosa se concentra, com toda a razão, nos cânceres de mama e de colo de útero, e o Ministério da Saúde expande o acesso a exames e diagnósticos, precisamos estender esse olhar para além das enfermidades e, em particular, para a menopausa –que, embora não seja uma doença, é uma fase fisiológica que pode exigir intervenção para proporcionar o bem-estar.

Não são só os cânceres ou o período gravídico-puerperal que merecem atenção: o climatério e a menopausa também precisam ser incluídos como pautas prioritárias de saúde feminina.

CUIDAR DA MULHER É CUIDAR DA SOCIEDADE

Os benefícios do acesso mais rápido a essas inovações são diretos e transformadores: melhoria da qualidade de vida, maior produtividade, melhor qualidade do sono, melhores relações familiares e no trabalho. Quando uma mulher sofre com os sintomas da menopausa, toda a sua rede de apoio e a sociedade em seu entorno sentem o impacto.

No Brasil, onde muitas mulheres são o centro e o principal pilar de suas famílias, cuidar da mulher significa cuidar de todo um sistema.

Para otimizar o processo de desenvolvimento e aprovação de novas terapias, é imperativa uma colaboração multifacetada. Precisamos fortalecer os conselhos de saúde –nacionais, estaduais e municipais– como fóruns para que movimentos sociais, gestão e órgãos regulatórios dialoguem.

É essencial aproximar a Anvisa desses espaços, para que as demandas da sociedade e das pacientes sejam ouvidas e consideradas na tomada de decisões.

As mulheres brasileiras representam a maioria da população e elas estão envelhecendo. Não estamos mais só na “fase reprodutiva”, mas sim em uma vibrante “fase produtiva” que demanda cuidados contínuos.

Da adolescência ao climatério e à fase pós-menopáusica, cada etapa da vida da mulher merece atenção e acesso a tratamentos de qualidade, baseados em evidências científicas. Ao priorizar a saúde da mulher em todas as suas dimensões, incluindo o acesso acelerado a inovações para a menopausa, cuidaremos de toda a sociedade brasileira e investiremos no bem-estar e na produtividade de nossa nação.

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