Tenho me perguntado se estamos olhando para as eleições de 2026 com as perguntas certas.
Economia, segurança pública, inflação e crescimento continuarão dominando o debate. Mas, ao acompanhar o que vem acontecendo em diferentes democracias, passei a refletir que outra transformação, mais silenciosa, também moldará o ambiente político brasileiro. A igualdade entre homens e mulheres deixou de ser só uma agenda de direitos para se tornar um dos terrenos da própria disputa política.
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publicidade publicidadeFoi essa a impressão que tive ao ler uma reportagem recente do Guardian sobre a Suécia. Durante décadas, o país foi apresentado como uma das maiores referências mundiais em igualdade de gênero. Ainda assim, no contexto das eleições parlamentares de setembro, cresce a distância entre as preferências políticas de homens e mulheres, sobretudo entre os mais jovens. Enquanto elas tendem a apoiar partidos comprometidos com políticas de igualdade e proteção social, eles se aproximam cada vez mais da direita radical.
publicidadeSe até uma sociedade que avançou tanto na redução das desigualdades vive hoje esse distanciamento, talvez não estejamos diante do fracasso da igualdade, mas do fato de que seu próprio avanço tenha reorganizado o tabuleiro político.
publicidadeEssa hipótese encontra eco em outras evidências. O relatório Women’s Rights in Review: 30 Years After Beijing, da ONU Mulheres, mostra que quase 1 em cada 4 países registra reações organizadas contra direitos conquistados pelas mulheres. Na literatura internacional, esse movimento tem sido descrito como backlash: uma reação política e social aos avanços da igualdade de gênero. Não estamos diante de casos isolados. À medida que a igualdade avança, ela própria passa a integrar a disputa política.
A eleição presidencial da Coreia do Sul, em 2022, ilustrou esse fenômeno de forma concreta. O então candidato conservador Yoon Suk-yeol fez da crítica ao feminismo um dos eixos centrais de sua campanha, argumentando que políticas de igualdade discriminavam os homens.
publicidadeAs pesquisas de boca de urna revelaram um amplo distanciamento entre homens e mulheres jovens nas preferências políticas. Mais do que um debate sobre direitos das mulheres, aquela eleição mostrou como a igualdade de gênero passou a reorganizar identidades políticas e estratégias eleitorais.
Mas foi um estudo da Universidade Uppsala, publicado neste ano no British Journal of Political Science, que mudou a forma como passei a olhar para esse fenômeno. Depois de analisar mais de 43.000 respostas de políticos suecos ao longo de uma década, as pesquisadoras constataram que 36% das parlamentares deixaram de se manifestar publicamente por medo de ameaças, contra 20% dos homens.
O dado mais inquietante, além da violência em si, é o silenciamento que ela produz. Quando uma parlamentar deixa de defender uma pauta por medo, não é apenas uma mulher que perde espaço. A democracia passa a deliberar com menos perspectivas, menos experiências e menos pluralidade. Representação não é apenas ocupar uma cadeira. É poder exercer plenamente a voz que essa cadeira representa.
No Brasil, esse alerta ganha contornos próprios. O Monitor da Violência Política de Gênero e Raça 2025, produzido pelo Instituto Alziras e pelo Observatório Nacional da Mulher na Política, mostra que a maior parte dos casos judicializados ocorreu durante o exercício do mandato e teve como principais vítimas vereadoras. Quatro anos depois da aprovação da Lei nº 14.192, ainda não há condenações definitivas.
Mais do que os números, o que me inquieta é a dificuldade de as instituições responderem à altura desse tipo de violência. Se o medo silencia legisladoras, como mostrou a pesquisa de Uppsala, uma resposta institucional insuficiente pode ampliar esse efeito e fragilizar a confiança de que as regras democráticas serão capazes de protegê-las.
É por isso que penso nas eleições brasileiras de 2026. Não basta perguntar quantas mulheres disputarão cargos ou quantas serão eleitas. Precisamos perguntar em que condições exercerão a representação que lhes for confiada. Conseguirão defender posições controversas sem que isso desencadeie campanhas permanentes de intimidação? Conseguirão influenciar a agenda pública com liberdade?
Essa me parece ser uma discussão sobre a qualidade da democracia, e não apenas sobre a participação das mulheres. Que democracia estamos construindo se parte das mulheres precisa aprender que, para continuar na política, é melhor falar menos? Temos o desafio de ampliar a participação das mulheres, em toda a sua diversidade, na política. Mas isso, por si só, não basta.
Vivemos um momento de backlash contra a igualdade de gênero, no qual a reação aos avanços conquistados também disputa eleições, instituições e narrativas democráticas. É preciso garantir que as mulheres possam exercer plenamente seus mandatos, suas ideias e sua voz. Defender a igualdade, hoje, deixou de ser só uma agenda de direitos. É também uma condição para proteger a própria democracia.
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