Ódio. Conflito. Picuinha.
Em Brasília, o clima está mais polarizado do que nunca.
A guerra chega aos tribunais.
O professor Ezequiel Parroti era um respeitado cientista político.
–Temo pela saúde das instituições. E pelo futuro da democracia.
Ele prestava serviços de consultoria e prognóstico a importantes entidades empresariais.
A reunião se dava num luxuoso gabinete da Faria Lima.
Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-se–As classes produtoras precisam tomar uma atitude firme no momento.
O dr. Teófilo era presidente de uma federação comercial paulista.
–Verdade. O empresariado anda muito tímido ultimamente.
Ele se serviu de uma porção de amendoim.
–Esse caso da 6 X 1… Onde é que nós vamos parar?
O dr. Valdão Cerqueiro atuava no ramo de alimentos processados de origem bovina.
–Demagogia eleitoral, sem dúvida.
–E essas eleições…
–Atrapalhando tudo.
–O país dividido.
–Sem ter ambiente para produzir.
–E nenhuma segurança jurídica.
O professor Ezequiel ouvia com atenção.
–Bem, esses problemas são reais. Mas a democracia…
–O que é que tem a democracia?
–Certamente os senhores não chegariam ao extremo de propor um golpe militar…
O silêncio caiu pesado sobre o chão coberto de tapetes orientais.
Ezequiel prosseguiu.
–Ainda mais porque, com um pouco de imaginação, podemos encontrar saídas…
–Quais?
–Perfeitamente democráticas…
–Ah, é?
–Com um mínimo de ajustes legislativos.
–Explica aí, professor.
–O problema, que se alastra pela sociedade e pelos tribunais, é essa polarização.
–Sim.
–Um quer isso, outro quer aquilo… um candidato de um lado, outro do outro lado…
–E os 2 querendo grana da gente.
–Para resumir: precisamos de uma 3ª via.
–Xi… esse papo de novo?
O dr. Teófilo não tinha esperanças nos atuais candidatos alternativos.
–Zema, Caiado… é mais confusão.
–Exatamente. Precisamos de alguém completamente diferente.
O professor Ezequiel assinalava as qualidades para um candidato ideal.
–Jovem. Dinâmico. Sem histórico de perder eleição.
–Certo. Mas só isso?
–O principal é que ele esteja acima do conflito.
–Verdade.
–Com bom trânsito em todas as áreas.
–Com o Lula e o Bolsonaro?
–Sim. Sem contar a presença nacional.
–Tipo?
–Bahia… Rio de Janeiro… Brasília… Aqui mesmo na Faria Lima.
Ezequiel prosseguia.
–Depois. Alguém que se dá bem com a maioria dos nossos magistrados.
–Importante, isso.
–Porque o país não pode mais suportar a Justiça pendendo a favor de um ou outro candidato.
–Claro.
–Como se vê, existe um nome perfeito para agradar gregos e troianos.
–Quem, professor Ezequiel?
–O Vorcaro, minha gente. Com ele, o Judiciário está no papo.
–E o Lula e o Flávio vão na onda dele.
–Certamente.
–Uma boa base parlamentar.
–Todos os ingredientes para um governo bem-sucedido.
Ezequiel tomou seu último gole de scotch.
–Enfim, ele já manda mesmo, né…
–Em muita coisa. Com certeza.
–Só falta sacramentar o nome pelo voto popular.
–Você acha que dá?
–Vamos ter de trabalhar um pouco. Começar com uma delação das boas…
–Depois, um ajuste na oficialização da candidatura, né?
–Um partido reunindo várias frentes…
–Todo mundo feliz.
–Com o Vorcaro, acaba a polarização.
–E é como dizem: a elite unida jamais será vencida.
Pelas vidraças da Faria Lima, o vento chegava em rajadas de frio e de esperança.
A proposta do professor Ezequiel pode ser de difícil execução.
Mas o caminho do centro, por vezes, se acha entre duas barras de ferro numa grade de cadeia.
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