O vergonhoso espetáculo que os ministros do Supremo Tribunal Federal exibiram ao país na sessão realizada na 3ª feira (15.set.2026) mostrou a atualidade da sábia advertência de Winston Churchill sobre não desperdiçar crises. Esta que se desenrola em Brasília pode e deve ser aproveitada para fortalecer a República e a democracia, corrigindo erros e distorções que se acumularam desde a redemocratização de 1985 e que hoje solapam o virtuoso processo de construção nacional em que estamos embarcados.
Trata-se de debater, de tomar as medidas necessárias para proteger o mais alto tribunal da República e demais Instâncias da Justiça da vaidade e de interesses pessoais de seus integrantes e de restaurar a credibilidade do órgão como tribunal constitucional.
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publicidade publicidadeA 1ª e inadiável providência é acabar com as transmissões televisionadas das sessões do Supremo Tribunal Federal. Introduzida em nome da transparência, a exibição ao vivo dos trabalhos do STF produziu o efeito oposto, permitindo que seus muito bem remunerados integrantes fujam do julgamento do mérito das questões que deveriam estar em pauta e contrabandeiem posições políticas pessoais em linguajar rebuscado inalcançável para a imensa maioria dos brasileiros e usado para exibir sabedoria inútil e dispensável.
Em democracias consolidadas como Estados Unidos, França e Alemanha, os relatos públicos dos trabalhos das Cortes supremas limitam-se à divulgação do áudio das audiências e sessões e da transcrição completa das intervenções dos juízes e dos demais participantes. Preserva-se assim a transparência. E a Justiça fica protegida da vaidade dos juízes, escancarada na lamentável plenária recente do STF.
Outra providência saneadora é banir as chamadas decisões monocráticas. As decisões devem ser tomadas pelo tribunal como um todo, por unanimidade ou maioria, acompanhadas por sua publicação e pela dos votos minoritários ou divergentes. É a maneira inteligente e eficaz de evitar a formação de grupos ou correntes, que tendem a descambar para um desinteressante fla-flu jurídico, como ocorreu nos casos envolvendo Daniel Vorcaro, o notório vigarista que emergiu como subornador geral da República num dos escândalos em curso.
publicidadeÉ espantoso pensar que esse sujeito tenha conseguido contratar os serviços de um escritório de advocacia de São Paulo administrado pela mulher de um integrante do STF e no qual trabalham os filhos do casal. O que essas pessoas têm na cabeça? Não é necessário saber jurídico para demonstrar a impropriedade dessa relação. Basta um pouco de bom senso e entendimento mínimo daquilo que constitui conflito de interesses.
É essencial limitar o foro privilegiado.
Obviamente, os casos a serem revistos pelo STF devem ser só aqueles nos quais haja dúvidas legítimas sobre a constitucionalidade de leis aprovadas pelas instâncias legislativas ou das decisões dos executivos federal, estadual ou municipal. Aos ministros cabe escolher os casos que devem examinar, por sua relevância e repercussão nas políticas públicas. Nos Estados Unidos, isso é feito em reuniões fechadas dos 9 juízes supremos. A aceitação por 4 deles basta para que um caso seja incluído na pauta do pleno.
Milhares de petições chegam ao Supremo dos Estados Unidos. Mas só 75 a 85 delas são julgadas nos 8 meses do ano judicial, que começa em outubro e termina em junho. Nos demais casos, prevalecem as decisões das Instâncias inferiores da Justiça. Na ausência de um sistema racional de revisão judicial, dá-se a realidade que temos no Brasil, de tribunais abarrotados de processos e assim impedidos de fazer o serviço de promoção da Justiça que a Constituição prescreve.
Tudo isso passa, sem dúvida, por uma drástica revisão e pela redução do foro privilegiado. Reza a Constituição que todos os cidadãos são iguais perante a lei. Mas no Brasil introduziu-se um absurdo que dá a quase 60.000 pessoas o direito ao foro privilegiado, ou seja, por prerrogativa de função. Elas são julgadas somente pelas cortes superiores –o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal–, para impedir que se tornem alvos de perseguições políticas nos tribunais de 1ª Instância. Abusada como é no Brasil, a regalia, que deveria proteger um número mínimo de pessoas em função das posições oficiais que ocupam, foi avacalhada e perdeu sentido. Na forma como hoje existe, virou mero privilégio e impedimento à Justiça.
Por último, mas não menos importante, os ministros deveriam fazer um favor à nação e abandonar o uso das formas solenes de tratamento, como vossa excelência. Numa nação na qual prevalece uma deliciosa informalidade no tratamento entre as pessoas, os salamaleques soam ridículos e reduzem quem os usa a personagens de chanchadas.
Senhor e senhora dariam conta de demonstrar o devido respeito e manter as trocas de opiniões num patamar apropriado de dignidade. Poder-se-ia aproveitar e abandonar o título de ministro ou ministra e substituí-lo por juiz ou juíza superior, que é o que de fato são. Impõe-se ainda, por óbvia, a busca acelerada da paridade de gênero nas nomeações de juízes, o que na certa melhorará a representatividade e credibilidade da Justiça brasileira.
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