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Paula Schmitt A Corte Inferior, o monopólio da imprensa e o jornalismo diplomado

Paula Schmitt A Corte Inferior, o monopólio da imprensa e o jornalismo diplomado
Internet rompeu o monopólio da informação e exigência de formação ampliaria barreiras ao próprio jornalismo. Leia o artigo no Poder360.

Desta vez ficou inteligível até para as pessoas de menor cognição: o Supremo Tribunal Federal está cogitando a volta de uma regra da ditadura militar para controlar o jornalismo. A norma sendo agora reavivada por 3 venerentos juízes foi editada em 1969 por uma Junta Militar no auge da repressão.

Essa é a hora em que a piada perdeu a graça, porque ela conta o seu próprio final. Mas eu me sinto obrigada a abordar este assunto porque tenho lugar de fala aqui –aliás, lugares de falas, porque sou uma das raras jornalistas que recebeu o diploma mas se recusou a ir pegá-lo. A outra coisa que me recusei a fazer foi tirar a carteirinha do sindicato, e também não fui atrás da licença de jornalista internacional para trabalhar fora do Brasil.

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Esse enfado com a burocracia acabou servindo indiretamente para uma reprimanda oficial quando eu trabalhava para a TV russa em Berlim, uma história que contei aqui. A redação estava para ser inaugurada e, como jornalista veterana, fui convidada a dar uma “aula” aos novos jornalistas da casa.

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O chefe, que se sentava à cabeça da mesa, me deu seu lugar de autoridade para que eu explicasse como fazer jornalismo em países estrangeiros. Depois de uma lista de decepções em que meus conselhos iam diretamente contra o que o chefe esperava de mim, eu expliquei que uma das coisas que eu não fazia de jeito nenhum, quase em hipótese alguma, era pedir permissão oficial para trabalhar. Ao contrário –eu fazia questão de sempre entrar com visto de turista.

“Acho que eu nunca pedi permissão para filmar ou reportar de algum país”, eu disse, “nem em Israel, nem nos EUA, nem no Líbano, apesar de trabalhar lá por anos. Eu, aliás, desencorajo fortemente qualquer jornalista a pedir permissão para um governo antidemocrático, especialmente ditaduras, como Síria ou Egito”. Ali eu descobri que a Síria era protegida da Rússia, e chamar uma ditadura de ditadura era coisa de democracia. É proibido proibir a proibição.

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Fosse hoje aquele discurso, eu teria incluído o Brasil na lista de tiranias porque aqui já não falta mais nada: presos políticos, rito jurídico jogado às favas, leis e códigos penais destroçados, censura alastrada, hierarquia judicial depositada no esgoto do silêncio e da conivência jornalística e até prisões pelo uso da bandeira nacional em perfil nas redes sociais.

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Voltando ao diploma, admito que meu maior desprezo é pela burocracia e algumas regras civilizatórias. Cansei de avisar a quem me entrega cartão de visita que o destino daquele pedaço de papel provavelmente será a ponta de um baseado –isso se o cartão for totalmente de papel. Se ele for plastificado, essa honra lhe será negada.

Mas diploma de jornalismo merece ainda menos reverência da minha parte, porque nenhuma universidade garante o que é mais essencial ao bom jornalismo: a honestidade, a justiça e a coragem de perseguir os abusadores do poder. Nenhuma faculdade ensina isso. Eu diria até que elas ensinam o contrário: uma conformidade ao espírito de porco –digo, corpo– e um temor absurdo da opinião da maioria. Faculdades de jornalismo, assim como o jornalismo em sua grande parte, são instrumentos da massificação do pensamento e da manutenção do “Consenso Inc”.

Os 8 gráficos a seguir, frutos de um estudo iniciado pela UFSC em 2022 e com algumas atualizações, mostram que as redações analisadas são ocupadas majoritariamente por jornalistas que se autocaracterizam como “de esquerda”. Entre aqueles filiados a algum partido, a maioria dos jornalistas também é filiada à esquerda.

Isso fortalece um ponto emblemático da fala de Alexandre de Moraes, descrita pelo advogado André Marsiglia como sua “aula magda”: Alexandre não quer controlar os jornalistas das redações, porque esses já estão devidamente controlados, piramidalmente. Jornalistas sabem que o que sustenta as mídias que vem perdendo assinantes e audiência é, em última instância, o pobre pagador de impostos. Este tem o fruto do seu trabalho arrancado à força por governos de esquerda que efetivam a concentração de renda transferindo dinheiro de milhões de trabalhadores para uma minoria no topo de uma empresa que, por sua vez, vai alimentar seus jornalistas “de esquerda” e manter a roda girando. Essa é a arquitetura irrefutável e autoexplicativa da pirâmide do consenso.

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Por isso a redação da Globo comemorou a vitória de Lula, um ato vergonhoso flagrado em vídeo e muito bem lembrado neste comentário de Leandro Ruschel. A cena ficou notória graças à internet livre, e conseguiu envergonhar os 2 lados dessa falsa disputa: os patrões capitalistas malvadões e os jornalistas “de esquerda” que trabalham numa TV famosamente apoiadora de qualquer ditadura que lhe sustente.

Como se o vídeo não fosse suficiente, a própria Globo admitiu em nota oficial que aquilo não foi um erro, mas um deslize em que um grupo de jornalistas se descuida da necessária “prática de autocontenção”.

O que Alexandre quer não é proteger o trabalho dos jornalistas, mas precisamente eliminar os jornalistas que não se sujeitam à pirâmide, que não aceitam ter patrão, e não querem ser parte de um jornal “tradicional” que hoje ganha mais pelo que deixa de publicar do que pelo que publica, e que ganha mais pela propaganda que camufla como jornalismo nas páginas de reportagens do que a publicidade explicitamente paga.

Eu já achava essa mistura indigesta desde o começo da minha carreira. Quando fui contemplada com o Prêmio Nacional de Radiojornalismo da Bandeirantes, recebi não só um pagamento em dinheiro pela vitória, mas fui contratada como parte da premiação. Mas eu fiquei na empresa só durante o período que correspondia ao prêmio, e provavelmente nem 1 dia a mais. Uma das razões para isso eu mesma dei, logo nos primeiros dias de trabalho, quando fui apresentada aos chefes dos meus chefes e avisei publicamente ali, da forma mais aberta possível, que eu não aceitaria fazer o boletim do trânsito porque eu jamais fecharia a nota com algo do tipo “Crédito Badejo, o crédito que credita no seu crediário” ou “Itaúva, o banco que não precisa de assaltante”.

“Não sou garota-propaganda”, eu expliquei, “sou jor-na-lis-ta, e jamais rebaixaria a minha missão fazendo publicidade no mesmo fôlego em que dou uma notícia”. A partir dali meus dias estavam contados, mas meu contágio estava contido –algo que ficou claro nos almoços de salitre na cantina, eu sozinha, ou na companhia de secretárias, office boys e entregadores, funcionários que não corriam o risco de serem contaminados.

Almocei naquelas companhias com muito orgulho, devo dizer –eles eram os únicos que liam livros, e vivíamos trocando achados dos sebos no centro de São Paulo. Bons tempos. Mas reforçando a desnecessidade de um diploma, ali na Band eu aprendi muito com um dos melhores chefes que já tive, Marcelo Parada, que em alguns meses me ensinou mais do que 5 anos de universidade, mesmo não indo muito com a minha cara.

Décadas depois, o Paulo Henrique Amorim, um dos chefes na Band em parte do tempo em que estive lá, me ligou em Beirute pedindo para eu “dar entrevista” a ele explicando o que estava acontecendo, já que minha cobertura da guerra era a mais honesta da TV, ele me assegurou, com palavras similares a essas.

Naquela época, Paulo trabalhava no IG, um site de notícias, e pelo que sei, ganhava muito bem para isso. Eu ganhava US$ 300 por cada aparição na TV, sob chuva ou sob bombas (uma decisão minha, que optei por ser paga por trabalho e não por mês, como sugeriu minha editora na época. Minha lógica era simples, e continua valendo: se eu fosse paga por mês, iria acabar produzindo reportagens de assuntos que eu não considerava dignos de serem transformados em notícia).

Paulo então me “entrevistou” uma vez em meio às bombas, e em condições precárias, ou talvez foi no conforto do business center do hotel que eu usava para transmitir meus vídeos (era o único lugar com servidor próprio e grande o suficiente para transmissão de arquivos pesados); depois, Paulo me entrevistou uma 2ª vez (talvez ao vivo), e na 3ª vez que ele ligou eu o lembrei que sou jor-na-lis-ta e, portanto, ele não estava me entrevistando, mas me fazendo trabalhar de graça para ele. “De agora em diante eu quero ser paga”, eu avisei. Foi a última ligação que ele me fez.

No que diz respeito à exigência do diploma, este Poder360 teve uma das atitudes mais corajosas do jornalismo brasileiro –e já sei que vou ter que negociar esta frase com meu editor, que detesta elogios ao jornal ditos no próprio jornal. K-gay. Não vou evitar esse enaltecimento porque a exigência do diploma de jornalismo não protege o jornalista– ela protege o jornal, inclusive este Poder360, porque a exigência diminuiria a competição radicalmente.

O advento da internet destruiu o monopólio da informação e expôs o cartel que edita a realidade. A exigência do diploma iria obrigar nossa informação a ser mediada por um único agente, precisamente quando a internet livre nos dá o poder de ir direto à fonte, sem o atravessador e seus possíveis interesses velados. Em outras palavras, a conversa de comadre feita pelo juiz supremo é tola, mas acima de tudo ela é vergonhosa, ainda que sua premissa seja parcialmente verdadeira.

De fato, muitos de nós estão consumindo notícias de uma bolha, mas isso sempre foi assim. A diferença agora é que são várias bolhas, e muitas delas são incontroláveis, o que atrapalha demais o comando piramidal do consenso.

Exemplos de mentiras propaladas pela “imprensa respeitável” são infinitos, e até cansativos. Muito do que crescemos ouvindo na mídia era mentira, mas o pior não é isso: o pior é que a maior parte das verdades a gente nem sabe que existe, porque elas nunca nem passaram perto de uma redação. O problema não é a porcentagem de mentiras no produto final, mas o fato de que a maioria das verdades só está ali porque foram autorizadas.

Para entender o truque, pense no seguinte: o programa “Fantástico”, da Globo, adora fazer um “jornalismo investigativo” indo atrás de esteticista que enfia cimento na bunda que esperava colágeno. Nossffffa, que coragem, “Fantástico”, indo atrás da dra. Marileide, de Duque de Caixinha. Uma salma de palmas por fazer o que qualquer postagem no Instagram teria feito muito melhor.

O que você, “Fantástico”, poderia de fato fazer melhor você raramente o faz: uma reportagem com o plasma contaminado da Bayer; com o talco com amianto da Johnson; com a “vacina” que nunca nem teve como teste sua capacidade ou não de impedir a transmissão. Isso já é pedir demais. Isso é trabalho para o verdadeiro herói do jornalismo brasileiro dos últimos anos: o blogueiro.

Quanto às bolhas: Alexandre, deixa eu te explicar devagarinho: a única coisa que combate a mentira é a verdade, e a única maneira de garantir esse confronto é permitir o debate livre, a pluralidade de fontes e a depuração pública dos fatos. A verdade raramente é absoluta, e a ela só se chega com pontos e contrapontos, diferentes visões, defesa e ataque, e liberdade absoluta de argumentação. Você e Flávio Dino são juízes: deveriam ser os primeiros a defender essa dialética.

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