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Como os jornais americanos perderam sua voz

Como os jornais americanos perderam sua voz
A história dos editoriais de jornais pode chegar ao fim, vítima da mudança nos valores noticiosos e da pressão econômica. Leia no Poder360.

Por Ken Paulson

Hazel Brannon Smith era quase certamente a mulher mais impopular do Mississippi quando escreveu um editorial em 1963 criticando duramente o “Conselho de Cidadãos Brancos” racistas no Lexington Advertiser, jornal de sua propriedade.

“A hierarquia de governantes nesta organização de cunho totalitário não permite qualquer desvio de sua linha oficial –e aqueles que acreditam e defendem os conceitos tradicionais americanos de liberdade humana, dignidade e decência, o fazem por sua própria conta e risco”, escreveu ela em um editorial que era ao mesmo tempo poético e perigoso.

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Os conselhos constituíam uma rede de grupos supremacistas brancos por todo o Sul, muitas vezes com fortes laços com cidadãos locais proeminentes. Eles já vinham pressionando Smith economicamente, não por ela ser uma defensora ferrenha da integração racial –ela não era– mas por editoriais nos quais insistia na adesão ao Estado de Direito, exigia justiça para todos e incentivava relações raciais pacíficas.

Smith pagou um preço alto por sua coragem.

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Ameaças de morte, incêndio criminoso em sua redação, boicotes e até mesmo a demissão de seu marido do cargo de administrador de um hospital não arrefeceram sua luta pela liberdade e justiça. Ela se tornou a 1ª mulher a ganhar o Prêmio Pulitzer de editorialismo, em 1964.

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A história de Smith é inspiradora, mas de forma alguma um caso isolado. Contudo, a longa história dos editoriais de jornais pode estar prestes a chegar ao fim, vítima tanto da mudança nos valores jornalísticos quanto da pressão econômica.

De apelos por reformas a ataques partidários

Desde a fundação desta nação, jornais grandes e pequenos publicam seus próprios artigos de opinião, desafiando os poderosos, clamando por reformas e exigindo prestação de contas. Os editoriais nem sempre foram construtivos. Houve muitos editoriais criticando Smith, e outros foram ataques partidários. Mas muitos refletiram preocupação com a comunidade e apelos por um futuro melhor.

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Os editoriais –em sua forma ideal– são essencialmente cartas do próprio jornal aos seus leitores, explicando um problema, apresentando os fatos e concluindo sobre o que seria melhor para a comunidade. Você pode concordar ou discordar, mas o resultado final é que você refletiu sobre o assunto, que era a intenção do autor do editorial. Normalmente, o artigo de opinião é escrito por um jornalista em consulta com o editor, o diretor-geral e colegas experientes, e se baseia em grande parte na própria apuração do jornal.

Em 1841, o editor Horace Greeley foi pioneiro na criação de uma página editorial independente no jornal New York Tribune. A inovação, que separava os pontos de vista do jornal dos artigos de notícias, foi amplamente adotada por outros editores.

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Ao longo dos últimos 185 anos, os editoriais de jornais desempenharam um papel fundamental em praticamente todos os movimentos sociais e de justiça social importantes da história americana. O apelo de William Lloyd Garrison pela abolição da escravatura no jornal Liberator, de Boston, e a luta pelo sufrágio feminino liderada por Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton no jornal The Revolution, em Nova York, prenunciaram e ajudaram a inspirar reivindicações semelhantes por justiça nas páginas de jornais locais por toda a América.

E quando o presidente Franklin Roosevelt ordenou o internamento de cidadãos americanos de ascendência japonesa em 1942, só um jornal –o Bainbridge Review, na Ilha Bainbridge, Washington– denunciou a medida como o ato inconstitucional que era. O jornal testemunhou o recolhimento de cidadãos em sua própria comunidade e não se calou.

Perder a alma do jornal

Durante minha carreira como editor-chefe do USA Today e de jornais diários em Wisconsin, Flórida e Nova York, revisei milhares de editoriais. Posso afirmar que, em âmbito local, os editoriais de jornais tendem a abordar temas mais corriqueiros, porém essenciais, como o apoio às escolas locais, o monitoramento do uso do dinheiro público e a denúncia de processos governamentais ineficazes.

Em seu livro “Outrage, Passion & Common Sense” sobre editoriais históricos, o jornalista Michael Gartner começou citando o lendário jornalista William Allen White sobre a importância deles: “O editorial é a alma do jornal. Talvez o coração e a alma. E num bom jornal que conhece, compreende e ama a sua cidade natal, ou o seu país, o editorial é também o coração da cidade, ou da nação”.

Infelizmente, numa tendência que começou há 4 anos, os editoriais estão desaparecendo rapidamente. As indicações ao Prêmio Pulitzer para editoriais atingiram o pico em 1995, com 101 inscrições, mas caíram para só 25 este ano, segundo Marjorie Miller, administradora do Prêmio Pulitzer. Isso levou à fusão de editoriais com outros artigos de opinião numa única categoria daqui para frente.

As principais empresas de notícias recuaram

Algumas empresas de notícias concluíram que editoriais locais não são do seu interesse. Editoriais e endossos foram em grande parte descartados, juntamente com os homens e mulheres que usavam seu conhecimento institucional para zelar por suas comunidades.

A Gannett, agora USA Today Co. Inc. e a maior empresa de jornais dos EUA, e a Lee Enterprises, a 3ª maior, lideraram a redução dos editoriais locais a partir de 2022.

“Em vez disso, [Lee] distribuiu aos seus jornais páginas editoriais padronizadas, compostas por comentários de colunistas nacionais e de seu conselho editorial”, escreveu Paul Farhi para o Nieman Reports quando a mudança foi feita. “A mudança pode ter sido uma bênção para aqueles que buscavam mais uma opinião sobre política presidencial, Congresso e assuntos internacionais, mas pouco contribuiu para comentários sobre eventos que ocorriam perto dos 77 jornais diários de Lee”.

A Gannett foi franca sobre seus motivos, afirmando que os editoriais eram “frequentemente citados” pelos leitores como uma razão para cancelar suas assinaturas. Dizer a verdade ao poder estava afetando os resultados financeiros.

Segundo o The Washington Post, um grupo de editores da Gannett também foi citado dizendo: “Os leitores não querem que lhes digamos o que pensar”.

Na minha experiência, isso é um argumento falacioso. Bons editoriais não ditam regras. Na verdade, eles são um equilíbrio de ideias, buscando defender uma comunidade com a perspectiva de um morador antigo e leal que já viu de tudo. Aliás, o USA Today foi pioneiro em editoriais duplos, um oferecendo seu ponto de vista e o outro uma perspectiva diferente.

O público exige prestação de contas

É verdade que editoriais locais geram menos cliques on-line do que notícias importantes ou reportagens esportivas. Mas pesquisas recentes indicam que os leitores continuam ávidos por transparência e prestação de contas por parte das autoridades governamentais.

“Como tem acontecido nas últimas 4 décadas, a maioria dos americanos afirma que as críticas das organizações de notícias impedem os líderes políticos de fazerem coisas que não deveriam”,  constatou um estudo do Pew Research Center em 2024.

Apesar do declínio constante dos editoriais diários em jornais, acredito que ainda existem maneiras de as organizações de notícias resgatarem o espírito dos editoriais em um modelo econômico e de alto impacto. Algumas sugestões para as redações de hoje:

Publique editoriais conforme a necessidade. Não precisam ser diários, mas se forem publicados só quando algo realmente precisar ser abordado, a comunidade dará atenção. Ofereça a eles a perspectiva local e confiável que ninguém mais pode fornecer.

Crie um conselho editorial comunitário composto por moradores com espírito cívico, pontos de vista distintos e diversos e mentes abertas. Identifique as questões mais importantes que sua comunidade enfrenta e peça aos membros do conselho que as explorem, buscando consenso, mas reconhecendo os pontos de vista legítimos de todos os lados. Publique um editorial pelo menos uma vez por mês e divulgue-o amplamente.

Colabore com outros veículos de comunicação da sua cidade para retomar as entrevistas de apoio político. Em uma tradição de décadas, os jornais costumavam convidar tanto os candidatos à reeleição quanto os que concorriam contra eles para discutir por que seriam os mais indicados para servir à comunidade. Faça perguntas difíceis e deixe a cargo de cada veículo como utilizar o material final. Isso pode levar a diferentes apoios políticos por parte de diferentes veículos ou simplesmente a uma sessão completa de perguntas e respostas que toda a comunidade possa ver. Os políticos dificilmente recusariam a entrevista se as opiniões de seus oponentes estivessem recebendo ampla exposição local.

Qualquer uma dessas abordagens ajudaria a restabelecer a responsabilização dos funcionários públicos a uma fração dos custos anteriormente incorridos pelos meios de comunicação tradicionais.

Em 1791, a 1ª geração de americanos exigiu que  a liberdade de imprensa fizesse parte da Constituição, contando com os jornalistas para fiscalizar a corrupção e o abuso de poder. Algumas dívidas nunca são totalmente pagas.

Texto traduzido por Bianca Parma. Leia o original em inglês.

O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.

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