Autoridades de diferentes esferas do governo alemão estão explorando — publicamente e nos bastidores — maneiras de limitar o poder do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (afD, na sigla em alemão) caso a legenda conquiste o governo de um estado nas eleições do próximo domingo. Os esforços das autoridades, detalhados em entrevistas e declarações de altos funcionários, incluem tentativas de restringir o compartilhamento rotineiro de determinadas informações sigilosas com serviços de inteligência estaduais caso a AfD passe a controlá-los. Também envolvem medidas menos drásticas relacionadas a políticas públicas. O planejamento é motivado, em parte, pelo temor de que integrantes da legenda possam repassar segredos de Estado à Rússia, país com o qual o partido mantém relações estreitas.
Relembre: AfD entra com recurso contra rótulo de partido ‘extremista de direita’ imposto por serviço de inteligência da AlemanhaQuer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsAppQuer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 paísesA AfD está prestes a conquistar o maior número de votos nas eleições de 6 de setembro em Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha. Se conseguir cadeiras suficientes para formar sozinha uma coalizão de governo, será o primeiro partido de extrema direita, desde a Segunda Guerra Mundial, a assumir o poder em um estado alemão.
Um cartaz fixado em um poste em frente à Torre de TV de Berlim, fotografado em 18 de agosto de 2026, exibe um anúncio de campanha eleitoral do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) para as próximas eleições regionais em Berlim — Foto: JOHN MACDOUGALL / AFPGovernar um estado normalmente daria ao partido acesso a informações sigilosas do governo federal, inclusive sobre inteligência e segurança.
Continuar LendoMuitas das autoridades que buscam limitar o poder da AfD consideram a legenda uma ameaça à democracia e à segurança nacional alemãs e afirmam que seus planos são necessários para proteger o país. A defesa da democracia é uma questão particularmente sensível na Alemanha, que, após a Segunda Guerra Mundial, desenhou suas instituições para impedir que partidos extremistas como o nazista voltassem ao poder.
Mais Sobre Alemanha Calor extremo impõe desafio existencial à Índia, e governo acelera planos de resiliência climática Homem pesca em rio na Alemanha e encontra carro roubado que estava submerso há mais de 50 anosOs partidos que rivalizam com a AfD a consideram extremista. Nenhuma outra grande legenda alemã aceita trabalhar com o partido para formar um governo em nível estadual ou federal — uma estratégia conhecida no país como “firewall” (cordão sanitário) e que a AfD critica há anos.
O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, disse neste verão ao tabloide Bild que não repassaria informações sigilosas a um eventual governo da AfD. Ele citou a proximidade do partido com o presidente russo, Vladimir Putin, elogiado por líderes da legenda.
— É impossível ignorar a afinidade deles com Putin — afirmou Pistorius. — Acreditar seriamente que deveríamos deixar essas informações caírem descuidadamente nas mãos erradas é algo que, obviamente, não pode acontecer.
Veja: Putin classifica acusação da Alemanha sobre 'ataque híbrido' como 'erro grave' enquanto Otan e UE prometem união frente à RússiaAos olhos da AfD e de seus apoiadores, os esforços para limitar o poder do partido são uma tentativa de atropelar a vontade dos eleitores e impedir sua agenda política, que inclui deportar migrantes e proibir bandeiras do orgulho LGBTQIA+ nas escolas.
— Não é democrático, não é político e não é correto; é simplesmente meio sujo — disse Ulrich Siegmund, candidato da AfD ao governo de Saxônia-Anhalt, em entrevista ao canal populista austríaco ServusTV.
Integrantes da AfD em Saxônia-Anhalt não responderam a repetidos pedidos de comentário sobre os esforços para limitar o poder do partido caso ele vença.
Contexto: Marcha do Orgulho LGBTQIA+ termina com um morto e 15 feridos após carro atingir multidão em BerlimEm muitos casos, o planejamento para tentar restringir a AfD ocorre em segredo, por medo de que as discussões vazem para a imprensa e alimentem a narrativa do partido de que o governo federal alemão está impedindo a vontade dos eleitores.
Ministros do Interior de outros estados discutiram ideias para restringir os poderes de um eventual governo da AfD, inclusive negando a seus integrantes acesso a determinadas informações com implicações para a segurança, segundo Georg Maier, ministro do Interior da Turíngia, no centro da Alemanha.
— Acredito que seja um problema real e que represente uma ameaça à segurança nacional se isso acontecer — alertou ele em entrevista.
'Ataque híbrido': Alemanha acusa Rússia de usar drone com explosivos contra aeroporto do paísMaier, um crítico contundente da AfD, se recusou a detalhar publicamente as medidas que os ministros do Interior estão considerando.
Os serviços federais de inteligência classificaram a AfD como suspeita de extremismo de direita. O partido também mantém conexões com a Rússia, um adversário cada vez mais hostil. Parlamentares da AfD provocaram forte reação política ao tentar revelar segredos de segurança nacional, alguns relacionados ao apoio alemão à Ucrânia, que poderiam beneficiar o planejamento militar russo. Autoridades alemãs acusaram a Rússia de sabotagem, ataques cibernéticos e outras iniciativas para enfraquecer a coesão social do país.
Evento de campanha eleitoral do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) em Haldensleben, no leste da Alemanha, em 1º de setembro de 2026 — Foto: RONNY HARTMANN / AFPA AfD lidera as pesquisas em dois estados — Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental — que irão às urnas neste mês. Ambos ficam na antiga Alemanha Oriental, reduto da legenda, onde seus líderes têm usado as redes sociais e a organização local para conquistar eleitores frustrados com a estagnação econômica, a imigração e as mudanças culturais.
A AfD parece próxima de conquistar uma maioria absoluta das cadeiras em Saxônia-Anhalt. Isso permitiria ao partido formar um governo sem o apoio de nenhuma outra legenda, contornando o cordão sanitário. O serviço federal de inteligência classifica a AfD de Saxônia-Anhalt como extremista de forma confirmada. Sua possível chegada ao poder levou algumas autoridades a considerar medidas extremas previstas pela legislação alemã.
Entenda: Europeus protestam contra presença da Rússia em reunião do G20 nos EUA, que tentam usar encontro para ampliar isolamento do IrãA Constituição alemã foi elaborada por sobreviventes da era nazista após a guerra. Para impedir que forças extremistas voltem a assumir o poder, ela permite que o governo federal assuma o controle das forças policiais estaduais caso a “ordem democrática livre” do país esteja em perigo.
Sven Hüber, um alto dirigente de um sindicato de policiais sem filiação partidária pública, comparou uma possível tomada do governo de Saxônia-Anhalt pela AfD à ascensão do Partido Nazista na década de 1930. Em uma carta publicada no boletim do sindicato, ele tranquilizou os policiais e afirmou que a entidade apoiaria os agentes que se recusassem a cumprir ordens ilegais de ministros “antidemocráticos”.
'Meu avô era nazista?': Documentos revelados desmentem mitos familiares na AlemanhaAliados da AfD reagiram. Hüber foi obrigado a renunciar ao sindicato nesta semana depois que uma plataforma de notícias de extrema direita publicou uma reportagem acusando-o de atos de violência durante o período em que atuou como guarda de fronteira da Alemanha Oriental, na década de 1980. Em nota, Hüber classificou as acusações como “difamatórias e caluniosas” e afirmou ter tomado medidas legais em resposta.
Medidas menos drásticasAutoridades de outras partes da Alemanha vêm considerando publicamente medidas menos drásticas para reagir a uma eventual vitória da AfD.
Um grupo de ministros de outros estados alemães avalia uma mudança que impediria um possível governo da AfD de bloquear parte do financiamento destinado à educação. O dinheiro exige aprovação unânime dos representantes de cada estado.
Leia também: Padrões estéticos para mulheres e homens simbolizam projeto de poder político da extrema direita globalA coalizão que governa Saxônia-Anhalt também aprovou, recentemente, uma lei destinada a impedir que um único partido vete nomeações para o Judiciário ou bloqueie a indicação de um governador que não seja de sua preferência.
A lei permite que partidos que não terminem em primeiro lugar nas eleições se unam para indicar o presidente do Legislativo estadual. Antes, apenas a legenda mais votada podia apresentar um candidato para aprovação do Parlamento estadual. A mudança poderia permitir que partidos tradicionais elegessem seu próprio nome para comandar o estado neste outono caso a AfD vença, mas não consiga uma maioria.
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