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Geleiras derretendo: Desastre na fronteira do Nepal e Tibete acende alerta sobre os riscos de um Himalaia em transformação

Geleiras derretendo: Desastre na fronteira do Nepal e Tibete acende alerta sobre os riscos de um Himalaia em transformação
Aquecimento do Himalaia acelera a perda de gelo e pode contribuir para mudanças que favorecem avalanches, deslizamentos e inundações

A enorme inundação que deixou um rastro de destruição na fronteira entre o Nepal e o Tibete (território sob domínio da China), no Himalaia, ocorreu em uma região que já passa por uma transformação acelerada provocada pelo aquecimento do planeta. Embora ainda não se saiba ao certo as causas e nem se é possível afirmar que as mudanças climáticas tenham alguma relação direta com o desastre— que deixou mais de 160 mortos e centenas de desaparecidos —, o episódio chama atenção para o derretimento acelerado das geleiras do Himalaia e sobre como isso pode modificar e aumentar determinados riscos em uma região.

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Segundo as avaliações iniciais de geólogos e glaciologistas, uma grande massa de gelo, de ao menos 600 metros de largura, teria se desprendido de uma área de geleira a uma altitude de aproximadamente 5.200 metros, despencando quase 1.200 metros em direção ao vale abaixo. A queda, então, teria liberado uma enorme quantidade de energia que pulverizou esse bloco, transformando-o em um volume significativo de água, rocha e gelo.

Uma das hipóteses levantadas até então é que esse material tenha bloqueado o Rio Lhende Khola — um afluente do Rio Bhote Koshi, que flui do Tibete para o Nepal —, formando uma espécie de "barragem" temporária. A água, então, teria se acumulado e posteriormente rompido esse bloqueio, provocando uma enorme inundação repentina que atingiu comunidades e infraestrutura rio abaixo.

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1 de 13 Casas ficam parcialmente submersas em água barrenta ao longo da margem de um rio após inundações — Foto: Prabin RANABHAT / AFP

2 de 13 Casas ficam parcialmente submersas em água barrenta ao longo da margem de um rio — Foto: Prabin RANABHAT / AFP

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3 de 13 Equipes de resgate usam uma escavadeira para transportar uma pessoa afetada por inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal, em 26 de agosto de 2026 — Foto: Prakash MATHEMA / AFP

4 de 13 Casas ficam inundadas de lama após inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prakash MATHEMA / AFP

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5 de 13 Equipes de resgate carregam uma pessoa afetada por inundações repentinas em Devghat — Foto: Prakash MATHEMA / AFP

6 de 13 Uma casa fica inundada de lama após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot — Foto: Prabin RANABHAT / AFP

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7 de 13 Moradores observam casas parcialmente submersas em água barrenta após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal, — Foto: Prakash MATHEMA / AFP

8 de 13 Uma casa fica parcialmente submersa em água barrenta após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prakash MATHEMA / AFP

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9 de 13 Moradores observam uma torrente de água barrenta avançar por um rio após inundações repentinas no Nepal em 26 de agosto de 2026. — Foto: Prakash MATHEMA / AFP

10 de 13 Uma torrente de água barrenta avança por um rio após inundações repentinas em Galchhi, no distrito de Dhading, no Nepal — Foto: AFP

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11 de 13 Uma inundação massiva atingiu o distrito de Rasuwa, no norte do Nepal, em 26 de agosto, danificando estradas e a infraestrutura de energia enquanto as autoridades se mobilizavam para avaliar a extensão da destruição — Foto: Prabin RANABHAT / AFP

12 de 13 Casas ficam inundadas de lama após inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prakash MATHEMA / AFP

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13 de 13 Uma casa fica inundada de lama após inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prabin RANABHAT / AFP

'Sentinelas'

A sequência exata e a causa dos acontecimentos, porém, ainda está sendo investigada por especialistas, que alertam que seria prematuro classificar o episódio como uma consequência direta do aquecimento global. Contudo, é documentado que as geleiras do Hindu Kush-Himalaia — cadeia que se estende por cerca de 3.500 km e abrange oito países — vêm perdendo massa rapidamente nas últimas décadas, em meio ao aumento das temperaturas na região.

Nos últimos 50 anos, a região aqueceu em ritmo superior à média global, segundo o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (Icimod, na sigla em inglês). Em junho deste ano, o instituto nepalês projetou temperaturas entre 0,5°C e 2°C acima da média de longo prazo em partes da cadeia entre junho a setembro.

— As geleiras presentes em cordilheiras montanhosas são consideradas como sentinelas das mudanças climáticas porque elas respondem diretamente às mudanças nos parâmetros de temperatura atmosférica — explica ao GLOBO a geógrafa Júlia Lorenz, doutoranda do Centro Polar e Climático da UFRGS. — Além disso, o aquecimento atmosférico tende a ser mais proeminente em regiões mais elevadas, justamente onde se encontram essas geleiras.

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Em meio ao aumento da temperatura, as geleiras da região perderam cerca de 12% de sua área entre 1990 e 2020, enquanto a velocidade de perda de gelo praticamente dobrou desde 2000. Em alguns locais, as perdas acumuladas chegam a 27 metros de espessura de gelo desde 1975, segundo relatório publicado neste ano pelo Icimod.

Alto risco

O problema é que, à medida que o gelo recua nas geleiras, podem surgir ou crescer lagos glaciais, enquanto encostas e depósitos de gelo e rocha anteriormente estabilizados podem se tornar mais vulneráveis. As consequências dessas transformações podem se manifestar em diferentes tipos de riscos, entre eles avalanches, deslizamentos e as chamadas "inundações por rompimento de lagos glaciais" (conhecidas pela sigla GLOF, em inglês).

Embora ainda não esteja confirmado que um fenômeno desse tipo tenha ocorrido no desastre de ontem, o Nepal está entre os países do Himalaia expostos a esse risco. Em 2020, segundo reportagem do New York Times, havia cerca de 19.300 lagos glaciais no Himalaia, cerca de 1.700 a mais do que em 1990, enquanto a área total ocupada por eles havia crescido 10%.

Inundações mortais atingem o Nepal nesta quarta-feira — Foto: AFP

— Um estudo de 2019 sobre o Himalaia apontou que, entre 1999 e 2005, 203 lagos na região eram potencialmente perigosos para eventos de GLOF, já que muitas dessas áreas de risco são ocupadas — acrescenta Lorenz.

Segundo um artigo publicado na npj Natural Hazards em janeiro deste ano, até o momento, mais de 388 eventos de GLOF foram documentados na região do Himalaia-Karakoram (135 entre 1900 e 2000 e outros 85 a partir de 2000), principalmente em lagos represados ​​por acúmulo de detritos e gelo. Os dados, porém, podem estar subnotificados.

O risco é especialmente agudo em quatro lagos de alto risco (Thulagi, Lower Barun, Lumding Tsho e Hongu 2), segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), onde possíveis rompimentos poderiam desencadear inundações devastadoras, deslizamentos de terra e perdas econômicas para as comunidades que vivem nas regiões.

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