Quase uma semana depois da captura de Nicolás Maduro em uma operação militar americana em Caracas, o governo da Venezuela anunciou nesta sexta-feira a retomada dos contatos diplomáticos diretos com os EUA, pontuando que o objetivo é “restabelecer as missões diplomáticas em ambos os países”. Em um comunicado cuidadoso, feito para equilibrar a leitura da decisão tanto dentro quanto fora do país, o governo afirma que o restabelecimento das embaixadas tem o “propósito de abordar as consequências da agressão e do sequestro do presidente e da primeira-dama [Cilia Flores], assim como abordar uma agenda de trabalho de interesse mútuo”. Na prática, a medida é a base para a normalização das relações diplomáticas entre os dois países, quase 16 anos depois de os EUA retirarem seu embaixador de Caracas e quase sete anos desde o rompimento oficial dos laços diplomáticos, durante o primeiro governo de Donald Trump.
'Gesto de paz unilateral': Venezuela anuncia libertação de presos políticosJanaína Figueiredo: Diplomata dos EUA e petroleiras negociaram manutenção do chavismo no poder Visita americanaO anúncio foi feito após o Departamento de Estado americano afirmar que uma equipe da Unidade de Assuntos da Venezuela, sediada na Colômbia, incluindo o encarregado de negócios John T. McNamara, chegou a Caracas para “conduzir uma análise inicial para um potencial reinício de operações no país”, afirmou um funcionário. Diplomata de carreira, McNamara é visto como um possível nome para assumir o posto de embaixador em Caracas. O governo venezuelano confirmou a chegada da delegação no comunicado e acrescentou que uma equipe diplomática da Venezuela também será enviada a Washington. Citando fontes americanas que falaram sob condição de anonimato, o jornal espanhol ABC afirmou que a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, teria solicitado ser recebida na Casa Branca na próxima terça-feira.
Antes de mencionar a relação com os EUA, o comunicado venezuelano reiterou a denúncia de que o país foi vítima de uma “agressão criminosa, ilegítima e ilegal contra seu território e seu povo”, que deixou mais de 100 mortos — incluindo 32 militares cubanos e 23 venezuelanos —, “em flagrante violação do direito internacional”. Também classificou a captura de Maduro e de Cilia como “uma grave violação da imunidade pessoal dos chefes de Estado”. Nesse contexto, disse o comunicado, o plano de normalização das relações segue a determinação de Delcy de lidar com a agressão americana pelos canais diplomáticos, com a convicção de que a “Diplomacia Bolivariana de Paz é o caminho legítimo para defender a soberania, restaurar o direito internacional e preservar a paz”.
Continuar Lendo 'Partido político em armas': Entenda como excesso de generais explica inação da Venezuela perante ataques dos EUAPergunte ao GLOBO: Há risco de guerra civil na Venezuela?
Durante telefonemas com os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, da Colômbia, Gustavo Petro, e com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, Delcy reiterou a mensagem de que a Venezuela usará a via diplomática contra o ataque, agradeceu Lula e Sánchez pela postura perante a agressão à Venezuela e afirmou que os mandatários defenderam “avançar uma agenda de cooperação bilateral ampla”, indicou um comunicado. Em uma segunda nota, agradeceu também o Catar por sua “disposição em contribuir para a construção de uma agenda de diálogo entre EUA e Venezuela”, em referência ao papel de mediação assumido por Doha antes do ataque.
US$ 100 bilhõesO plano de normalizar as relações fecha uma semana em que os EUA deixaram claro que o uso da força, assim como a ameaça de voltar a recorrer a ela, é o meio de coerção para impor seus interesses na Venezuela, principalmente no que concerne ao mercado de energia. Com 17% do total mundial, a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do planeta.
Dias após captura: Venezuela anuncia retomada de relação diplomática com os EUANesta semana, o governo de Donald Trump manteve o bloqueio naval a petroleiros na costa venezuelana, adotou medidas para controlar as exportações de petróleo do país e anunciou que a Venezuela comprará apenas produtos fabricados nos EUA — para tanto, usando recursos que ficarão guardados em contas em solo americano.
Nesta sexta-feira, em uma reunião na Casa Branca, Trump pressionou cerca de 20 companhias de petróleo americanas a investir ao menos US$ 100 bilhões (R$ 537 bilhões de reais) na reconstrução da infraestrutura petrolífera venezuelana, dizendo que será dele a prerrogativa de escolher quais empresas ficarão responsáveis por reativar essa indústria no país caribenho.
— Vocês estão negociando diretamente conosco, não com a Venezuela — garantiu o republicano.
Mas o diretor-executivo do gigante ExxonMobil, Darren Woods, afirmou no encontro que “é inviável investir” na Venezuela enquanto seus sistemas comercial e jurídico não mudarem. Desde 2019, a indústria petrolífera venezuelana está submetida a sanções.
Ainda durante a reunião, Trump elogiou Caracas por colaborar com Washington após o ataque.
— Francamente, eles têm sido muito inteligentes na forma como vem lidando conosco — disse Trump. — Porque aquele lugar poderia ter sido obliterado com mais um ataque, e não quisemos fazer isso.
Mais cedo, em uma publicação em sua plataforma Truth Social, o republicano sugeriu entender também como cooperação a decisão anunciada na quinta-feira por Caracas de iniciar a libertação de presos políticos, acrescentando que uma “segunda onda de ataques previamente esperada” não seria mais necessária. Até agora houve 11 libertações, com Jorge Rodríguez, irmão de Delcy que é o presidente da Assembleia Nacional, afirmando que as solturas são “feitas com intenções sinceras em direção à paz”. Ele não disse, porém, quantos dos estimados 800 a 900 presos políticos serão libertados.
Apesar de anunciar que cancelou um segundo ataque, o presidente americano disse que os EUA manterão navios de sua frota naval no Caribe “por razões de segurança”. Na sexta, forças americanas abordaram o quarto petroleiro no Mar do Caribe, dois dias depois de terem interceptado uma embarcação com bandeira russa no Norte do Atlântico após mais de duas semanas de perseguição. Assessores de Trump afirmaram ao New York Times que a campanha militar confere a Washington uma enorme influência sobre o que restou do regime de Maduro após a prisão do líder venezuelano para enfrentar a justiça em Nova York.
Mais Sobre Venezuela EUA ampliam campanha de ataques a embarcações e passam a mirar barcos de ‘reabastecimento’ Com pressão por combate ao tráfico, Rubio se reúne com presidente da Colômbia em início de viagem à América do SulDesde a derrubada de Maduro, Trump também aumentou a pressão sobre a Colômbia e o México, afirmando que os dois governos de esquerda são lenientes com o narcotráfico. Alegação similar foi a base para justificar a ação contra Maduro, que é denunciado por conspiração para o narcoterrorismo e por uso de armas para proteger operações de tráfico.
Um dia após EUA e Colômbia concordarem em realizar ações conjuntas contra o Exército de Libertação Nacional — que tem atuação marcante na fronteira com a Venezuela —, Trump anunciou na sexta que vai receber o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, na Casa Branca no próximo mês. “Tenho certeza de que tudo correrá muito bem para a Colômbia e para os EUA, mas a cocaína e outras drogas devem ser IMPEDIDAS de entrar nos EUA”, escreveu na Truth Social. Já a presidente do México, Claudia Sheibaum, demonstrou na sexta o desejo de “fortalecer coordenação” com EUA depois de Trump reiterar sua ameaça de atacar cartéis por terra, complementando: “Os cartéis estão controlando o México.”
Efeito paradoxalSegundo o jornal espanhol ABC, o pedido de Delcy para viajar a Washington já foi recebido por vários escritórios do governo federal americano e está sob análise. Como ela está sujeita a sanções americanas por violações de direitos humanos, qualquer viagem aos EUA exigiria uma licença específica ou uma isenção temporária do Departamento do Tesouro, por meio do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC). Ainda de acordo com o jornal, Delcy espera ser recebida tanto na Casa Branca quanto pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Interlocutores do governo brasileiro avaliam que a ação dos EUA na Venezuela pode produzir um efeito paradoxal: em vez de acelerar o fim do chavismo, pode abrir uma janela de oportunidade para setores remanescentes do regime se reorganizarem política e economicamente.
Como não há perspectiva de eleições em curto prazo, a impressão de alguns auxiliares de Lula é DE que, se conseguirem aumentar a produção de 700 mil para um milhão de barris e administrar ao menos parte dos recursos do petróleo, ainda que sob algum grau de controle americano, pode haver espaço para políticas sociais mínimas. Uma melhora relativa das condições de vida poderia ter impacto político relevante, avaliam.
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