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Terremoto, avalanche: entenda o efeito por trás da tragédia no Nepal G1

Terremoto, avalanche: entenda o efeito por trás da tragédia no Nepal G1
Especialistas explicam como uma avalanche na fronteira com o Tibete pode ter represado o rio Trishuli e liberado uma onda de lama e detritos que atingiu vilas no Nepal.

Avalanche no Nepal e Tibete: o que se sabe sobre a tragédia

Uma avalanche repentina na fronteira entre o Nepal e o Tibete nesta quarta-feira (26) deixou mortos e centenas de desaparecidos.

Vídeos mostram cenas assustadoras: a onda de lama desce o vale arrastando pontes, cobrindo um prédio e engolindo vilas na área turística da região. É a pior tragédia na região em mais de dez anos.

Encaixado entre a Índia e a China, o Nepal, abriga oito dos 14 picos mais altos do mundo. A região faz parte dos Himalaias, que é uma das maiores cadeias de montanhas da Terra e tem o Everest como seu pico mais famoso.

A causa da tragédia ainda é analisada. O Serviço Geológico dos EUA (USGS) chegou a afirmar que registrou um terremoto na região, mas depois corrigiu a informação e declarou que o evento sísmico de magnitude 5,2 foi, na verdade, resultado do colapso de uma geleira.

As coordenadas exatas do abalo apontam uma área nas encostas da montanha Langtang Lirung, no Nepal. Ele é o cume mais alto de uma subcordilheira dos Himalaias e fica a 5 quilômetros da fronteira com o Tibete.ra

Montanha, vales e geleiras

A região combina montanhas extremas, vales estreitos e geleiras que armazenam não apenas neve e gelo, mas também água líquida. Essas características ajudam a entender por que uma avalanche pôde desencadear um desastre de tamanha escala.

O g1 ouviu especialistas que analisaram os documentos oficiais já divulgados, imagens de satélite de antes e depois e analisaram o efeito em cascata que pode ter levado a um desastre dessa dimensão.

Pessoas fogem de deslizamento de terra na fronteira do Nepal com o Tibete

1 de 2 Tragédia no Nepal. — Foto: Arte/g1

Tragédia no Nepal. — Foto: Arte/g1

Imagens de satélite da região antes e depois, fornecidas pela Planet Labs e vistas pela Reuters, mostraram a encosta verdejante agora soterrada sob detritos e sedimentos marrons.

“Está confirmado que uma parte substancial da ponta da geleira desabou, desencadeando o evento, provavelmente incluindo ou arrastando uma quantidade considerável de rochas e sedimentos”, disse à Reuters Vikram Gupta, especialista em geologia de engenharia e professor da Universidade de Sikkim, na Índia.

O cientista da Terra Dan Shugar, professor associado da Universidade de Calgary, disse à Reuters que as imagens parecem indicar que uma grande quantidade de neve derreteu nas 24 horas anteriores ao desastre.

“Algumas das geleiras do vale estavam cobertas de neve ontem e hoje estão, em sua maioria, com o gelo à mostra. Portanto, em outras palavras (e ainda não vi nenhum dado de estações meteorológicas), provavelmente estava quente”, disse ele.

“Pelo que posso ver nas imagens de satélite desta manhã da Planet Labs, a parte inferior de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros e desabou no fundo do vale, cerca de 1.200 metros abaixo”, disse Shugar.

Inundações e deslizamentos são frequentes durante a monção de verão, período de chuvas intensas que se estende de junho a setembro no Nepal e em toda a Ásia do Sul. Apesar disso, a tragédia atual é sem precedentes. O vale do Rio Bhote Koshi já sofreu uma inundação por rompimento de lago glaciar em julho de 2025, que deixou 17 pessoas desaparecidas.

— Foto 1: 2026 PLANET LABS PBC/Via Reuters — Foto 2: 2026 PLANET LABS PBC/Via Reuters

Uma geleira que também é reservatório de água

Pelas imagens de satélite, é possível identificar a área de onde partiu a avalanche: uma encosta glacial na fronteira entre os dois países. Segundo os especialistas ouvidos pelo g1, duas condições prévias ajudam a entender o cenário em que o desastre ocorreu.

A primeira é a própria estrutura do ambiente glacial: ao contrário do que a paisagem sugere, aquelas geleiras não são formadas apenas por gelo. Elas armazenam água líquida em diferentes camadas.A segunda é o período do ano: a região vive atualmente a monção, estação chuvosa que costuma elevar o volume de água acumulada nos sistemas glaciais. Houve chuva persistente nos dez dias anteriores ao desastre na região, além de precipitação moderada a forte no sul do Tibete — o que pode ter aumentado o volume de água já disponível na bacia do rio Trishuli antes mesmo da avalanche. 2 de 2 Região com setas vermelhas mostra área onde desastre começou — Foto: Divulgação

Região com setas vermelhas mostra área onde desastre começou — Foto: Divulgação

Juntas, essas duas condições — água armazenada na geleira e chuva acumulada na região — compõem o cenário em que a avalanche ocorreu, mesmo que sua causa exata ainda não tenha sido determinada.

"A gente tinha um registro de chuva anterior que pode ter feito acumular água nessas geleiras. Isso transbordou e desceu com muita intensidade", explica Aderson Farias, sismólogo e coordenador do laboratório sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Região de alto risco

Autoridades do Nepal e do Tibete disseram que o desastre não foi captado por suas ferramentas de monitoramento. Entretanto, a região é considerada de alto risco. Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores de órgãos da província chinesa de Sichuan já apontava a vulnerabilidade da região.

Segundo o trabalho, o trecho da rodovia G216 no posto de fronteira de Gyirong sofre repetidamente com desmoronamentos de grande escala e alto impacto, em áreas elevadas e de difícil identificação. Os pesquisadores mapearam duas zonas de rochas perigosas, 86 massas rochosas instáveis e 12 áreas sujeitas à queda de pedras.

Outra análise, divulgada após uma inundação provocada pelo rompimento de um lago glacial atingir a mesma região em julho de 2025, identificou 55 lagos glaciais na bacia a montante da Ponte da Amizade, com área total de cerca de 3,39 km². Os pesquisadores alertaram para a possibilidade de novos rompimentos e recomendaram reforçar o monitoramento e os sistemas de alerta, além de avaliar os riscos associados a terremotos fortes e eventos climáticos extremos.

Uma combinação de imagens de satélite mostra os vales perto da fronteira entre o Nepal e a China em 25 de agosto de 2026, antes das inundações devastadoras (T), e em 26 de agosto de 2026, após o desastre (B). — Foto: Reuters

GIF - destruição na fronteira do Nepal com o Tibete — Foto: Reprodução/ g1

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