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Reparações pela escravização seriam ‘uma multa injusta , afirma ex-arcebispo - Aventuras na História

Reparações pela escravização seriam ‘uma multa injusta , afirma ex-arcebispo - Aventuras na História
Em artigo no The Independent, Justin Welby afirma pagar por crimes cometidos há quase dois séculos seria uma forma de punição coletiva

O ex-arcebispo da Cantuária Justin Welby criticou a cobrança de reparações financeiras do Reino Unido por seu envolvimento no tráfico transatlântico de escravizados. 

Em artigo publicado no The Independent, ele argumentou que exigir que milhões de britânicos financiem indenizações destinadas a países caribenhos significaria penalizar uma população que não pode ser responsabilizada coletivamente pelos crimes de seus antepassados.

O religioso descreveu a proposta como “uma enorme multa sobre todo o povo britânico por um crime que não cometeram”. Para ele, a responsabilização deve considerar a conduta de cada indivíduo, e não sua nacionalidade.

Pressão internacional

A manifestação ocorre durante a Reunião de Chefes de Governo da Commonwealth, realizada em Antígua. No encontro, o Rei Charles e o primeiro-ministro Andy Burnham enfrentam cobranças crescentes de países caribenhos por reparações relacionadas à participação britânica no comércio de escravizados.

Ao tratar das reivindicações, Welby chamou as indenizações propostas de “falsas ‘reparações'” e as classificou como “fúteis e injustas”. Em seu artigo, afirmou que existem inúmeras razões para contestar esse tipo de pagamento, começando pela dificuldade de determinar quem deveria arcar com os custos e quem teria direito a recebê-los.

Distância histórica

O Reino Unido de 2026 é um país totalmente diferente daquele de 1833″, escreveu, em referência ao ano da abolição da escravidão no Império Britânico.

Welby ressaltou que muitos contribuintes atuais são descendentes de pessoas escravizadas ou vieram de regiões da África Ocidental afetadas pelo tráfico. Em contrapartida, afirmou que a grande maioria dos britânicos não tem ligação com os lucros dos traficantes de escravizados, assim como seus antepassados.

O religioso também questionou a possibilidade de identificar uma relação direta entre as vítimas da época e seus descendentes, o que, em sua avaliação, dificulta estabelecer critérios justos para a distribuição das indenizações.

Valores e responsabilidade moral

Durante uma visita à Jamaica, ainda como arcebispo, Welby contou ter ficado chocado ao ouvir que o Reino Unido deveria pagar 21 trilhões de dólares (R$ 115,5 trilhões) em reparações. O valor, segundo o relato, superaria toda a riqueza do país.

Ele acrescentou que pessoas de diferentes origens e etnias enfrentam dificuldades econômicas no próprio Reino Unido. Nesse contexto, considera injusto transferir aos contribuintes atuais os custos de crimes cometidos há mais de dois séculos.

A punição coletiva é um mal moral. Ela confunde culpados e inocentes, mesmo quando se trata de assuntos contemporâneos, quanto mais de dois séculos atrás”, escreveu.

A discussão sobre a responsabilidade histórica também envolve a própria Igreja da Inglaterra, que reconheceu seus vínculos com a escravidão. Em 2023, sob a liderança de Welby, a instituição anunciou um plano de 100 milhões de libras (R$ 719.622.000) para enfrentar esse legado e contribuir para um futuro mais justo, especialmente para as comunidades afetadas pelo comércio de escravizados.

A iniciativa veio após a identificação de investimentos históricos da Igreja em uma empresa envolvida no transporte de pessoas escravizadas. Os recursos estavam ligados a um fundo conhecido no século 18 como “Recompensa da Rainha Ana”, por meio do qual a instituição havia aplicado grandes somas nesse negócio. 

Na ocasião, Welby classificou essas conexões como uma “fonte de vergonha” e defendeu que a Igreja deveria responder por seu passado.

Em vez de indenizações financeiras, o ex-arcebispo propôs que o Reino Unido e os países caribenhos invistam conjuntamente em novas tecnologias e trabalhem para enfrentar outros problemas da região. Na avaliação dele, a cooperação poderia gerar mais riqueza do que pagamentos que considera injustos e improdutivos.

*Sob supervisão de Éric Moreira

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