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Pintura de Kandinsky restituída a herdeiros judeus vai a leilão - Aventuras na História

Pintura de Kandinsky restituída a herdeiros judeus vai a leilão - Aventuras na História
Obra de 1907 foi vendida durante a perseguição nazista e devolvida à família em 2023 leilão pode superar R$ 155 milhões

Uma importante pintura de Wassily Kandinsky, produzida em 1907, será colocada à venda pela Christie’s, em Londres, com expectativa de receber lances superiores a US$ 30 milhões, cerca de R$ 155 milhões. A obra, chamada “A vida colorida”, foi restituída aos herdeiros de seus antigos proprietários judeus em 2023, após uma análise sobre as circunstâncias em que ela foi vendida durante o período de perseguição nazista.

A pintura pertencia ao industrial judeu holandês Emanuel Albert Lewenstein, diretor de uma fábrica de máquinas de costura, e à sua mulher, Hedwig Lewenstein Weyermann. O casal morreu antes da invasão alemã dos Países Baixos, enquanto seus descendentes foram posteriormente perseguidos pelos nazistas.

Após a morte de Lewenstein, acredita-se que sua mulher tenha deixado a obra no Museu Stedelijk, em Amsterdã, para que fosse mantida em segurança. A pintura acabou sendo levada a leilão em outubro de 1940, poucos meses depois da invasão nazista dos Países Baixos.

Obra foi devolvida à família

De acordo com O Globo, apesar de anos de pesquisa, não foi possível determinar exatamente em quais circunstâncias ocorreu a venda ou quem colocou a obra no leilão. A comissão consultiva do governo alemão responsável por casos envolvendo obras de arte saqueadas pelos nazistas afirmou que existiam diversas acusações de que a pintura havia sido confiscada em consequência da perseguição nazista.

Na ausência de evidências em contrário, a comissão concluiu que deveria ser presumido que a perda da obra havia ocorrido de forma involuntária. Em 2023, a comissão recomendou que “A vida colorida” fosse devolvida à família Lewenstein.

A obra estava havia mais de 50 anos no museu Lenbachhaus, em Munique, emprestada por um banco da Baviera. O banco alemão Bayern LB, então chamado Bayerische Landesbank, havia adquirido a pintura em 1972. No mesmo ano da recomendação, a instituição devolveu a obra aos herdeiros de Lewenstein.

Agora, “A vida colorida” será um dos destaques do leilão de arte dos séculos 20 e 21 da  Christie’s, marcado para 14 de outubro, em Londres.

Pintura é considerada rara

Produzida em têmpera e guache, “A vida colorida” foi pintada durante uma longa temporada de Kandinsky em Paris com sua ex-aluna, companheira e também artista Gabriele Münter. Naquele momento, a obra era a maior tela produzida pelo pintor.

A pintura reúne influências das artes de vanguarda encontradas por Kandinsky nos salões e galerias parisienses com tradições culturais de sua Rússia natal.

A cena apresenta um grupo de figuras vestidas com roupas coloridas em uma paisagem imaginária. Algumas remetem ao folclore russo. Há um personagem tocando um instrumento de sopro, outro segurando um bebê, além de figuras empunhando espadas, pedindo esmolas, se abraçando ou rezando.

“Obras desse período são extremamente raras”, disse Keith Gill, vice-presidente da área de arte dos séculos 20 e 21 da Christie’s.

Segundo Gill, poucas outras pinturas produzidas por Kandinsky naquele período estão atualmente em museus. Para ele, “A vida colorida” marcou uma virada na arte moderna e na carreira do artista.

Família ainda procura outras obras

Lewenstein, que reuniu uma grande coleção de arte moderna, havia comprado a pintura em 1927. Além de “A vida colorida”, os herdeiros recuperaram outras duas obras pertencentes à coleção da família.

Uma delas é outra pintura de Kandinsky, “Pintura com casas”, de 1909, que foi alvo de uma longa e acirrada disputa com a prefeitura de Amsterdã. A terceira obra restituída é uma pintura do artista holandês Jan Sluijters.

Apesar das restituições, a família ainda procura cerca de 100 obras de arte, segundo James Palmer, fundador da Mondex Corp., empresa especializada na recuperação de obras saqueadas pelos nazistas.

“Descobrimos que algumas obras foram oferecidas em leilões no passado e estamos fazendo o possível para localizá-las”, afirmou Palmer.

Para Francesca Lewenstein Davis, uma das herdeiras, a busca representa uma luta que ultrapassa a própria família.

“Muitos anos de luta se passaram, não apenas pela restituição à minha família, mas pela restituição de obras a muitas famílias judias”, disse.

Antes do leilão, a Christie’s planeja exibir “A vida colorida” em suas unidades de Zurique, Paris, Nova York e Hong Kong durante setembro. A partir de 8 de outubro, a obra ficará exposta em Londres, onde será leiloada em 14 de outubro.

*Sob supervisão de Éric Moreira

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