Uma rara pintura do mestre holandês Vincent van Gogh, oculta do olhar público há meio século, deve ser leiloada nos próximos meses em Nova York pela casa Sotheby’s. Com estimativa de venda fixada em US$ 180 milhões (aproximadamente R$ 954 milhões), o lote tem potencial para estabelecer um novo recorde financeiro para o artista em leilões.
A noite de vendas reserva ainda outro destaque de peso: uma tela igualmente rara de Paul Cézanne, também fora de exibição pública pelas últimas cinco décadas. Avaliada na faixa de US$ 120 milhões (cerca de R$ 636 milhões), a obra pode consagrar uma dupla quebra de recorde histórico no mesmo evento.
As duas telas pertencem à mesma família desde os anos 1970 e integram um conjunto de 12 quadros de uma coleção particular descrita pela Sotheby’s como um verdadeiro “El Dorado” do impressionismo e do pós-impressionismo.
O acervo inclui ainda trabalhos de mestres como Pierre-Auguste Renoir e Claude Monet. A expectativa da casa de leilões é arrecadar ao menos US$ 450 milhões (R$ 2,3 bilhões) no intervalo de menos de uma hora.
A presidente da Sotheby’s Europa, Helena Newman, destacou o peso do conjunto ao classificá-lo como “uma das maiores coleções remanescentes de arte impressionista e pós-impressionista em mãos privadas” e comparou a relevância do grupo de obras a “um mini Musée d’Orsay”.
Ao comentar o fascínio exercido pelo acervo no mercado internacional, Newman acrescentou: “Ela tinha esse status lendário, quase mítico, como uma das grandes coleções. Mas agora vem a revelação, e as pessoas terão a oportunidade de ver o que ela reúne.”
Mistério e história da coleção Blaquier-ArrietaO antigo diretor sênior da Sotheby’s, Philip Hook, revelou que o enigma ao redor dessas obras acompanhou sua trajetória profissional. “O que havia nela? Quão boa era? A questão é que ninguém realmente sabia”, disse Hook a jornalistas durante uma apresentação à imprensa em Londres.
O especialista explicou que o sigilo decorria do fato de os proprietários, a família argentina Blaquier-Arrieta, jamais terem cedido as obras para exposições em museus. Outro fator decisivo para o isolamento das telas era o endereço dos donos na Argentina: “Isso parecia muito, muito distante”, ressaltou Hook ao relembrar as décadas de 1990 e 2000.
Formado pelo falecido empresário Carlos Pedro Blaquier e por sua esposa, a patrona das artes Nelly Arrieta de Blaquier, o acervo representa a mais recente grande coleção privada colocada à venda. O movimento ocorre em uma etapa na qual a dispersão de patrimônios históricos tem sustentado os faturamentos do mercado de arte.
A venda segue a esteira de leilões milionários de coleções como a do magnata da mídia S. I. Newhouse, a do fundador da Microsoft Paul G. Allen, a da patrona das artes Pauline Karpidas e a do herdeiro da Estée Lauder Leonard A. Lauder. Esta última continha um trabalho de Gustav Klimt arrematado por US$ 236 milhões (cerca de R$ 1,25 bilhão), a segunda obra mais cara já negociada em leilão.
A decisão de colocar os quadros no mercado partiu dos herdeiros do casal após a morte de Nelly, em 2020, e de Carlos, em 2023. Blaquier presidiu uma grande usina de açúcar, enquanto Nelly integrou comitês internacionais de museus e coordenou as aquisições do casal. A família figura entre as mais influentes da Argentina.
Contudo, ao longo dos últimos dez anos de vida, o empresário foi investigado por crimes contra a humanidade sob a acusação de envolvimento na prisão de militantes durante a ditadura militar argentina (1976-1983). Segundo a BBC, ele negava o envolvimento.
Blaquier faleceu antes do julgamento, conforme apontou seu obituário no jornal La Nación. Um porta-voz da Sotheby’s salientou que o empresário nunca sofreu condenação e que sempre defendeu sua inocência.
Origem das aquisições e van Gogh raroApesar do leilão principal estar agendado para Nova York, parte dos 12 lotes foi exibida conjuntamente em Londres. Entre os quadros apresentados na capital britânica estavam “En Canot (Jeune fille à la barque)” (1877), de Renoir, e “La Place du Théâtre-Français et l’avenue de l’Opéra, soleil d’après-midi en hiver” (1898), de Camille Pissarro.
Londres servia como destino frequente do casal Blaquier para a aquisição das telas nas férias de verão. As compras eram feitas diretamente na Lefevre Gallery, célebre galeria focada em arte moderna e impressionista que encerrou as atividades no fim do século 20.
Se os lotes principais confirmarem as projeções e estabelecerem novas marcas financeiras, será a segunda ocasião na história em que recordes de van Gogh e Cézanne caem na mesma noite a partir do mesmo acervo.
O precedente ocorreu em 2022, no leilão da coleção de Paul Allen realizado pela Christie’s, quando a paisagem “Verger avec cyprès”, do pintor holandês, atingiu US$ 117 milhões (R$ 620,1 milhões), e “La Montagne Sainte-Victoire”, do artista francês, alcançou US$ 137,7 milhões (R$ 729,8 milhões).
A obra de van Gogh ofertada agora, intitulada “Chataignier en fleurs roses et blanches”, não participou da mostra em Londres por estar em itinerância rumo a Hong Kong para exibição prévia, repercute a CNN Brasil.
O quadro foi produzido nos dois meses finais de vida do pintor na vila francesa de Auvers-sur-Oise, logo após sua saída da instituição psiquiátrica em Saint-Rémy-de-Provence, onde permanecera internado voluntariamente por um ano.
A Sotheby’s enfatiza que as produções dessa fase derradeira contam com traços de vigor e otimismo. “É uma paleta incrível, exuberante”, destacou Newman, pontuando que existem raríssimas telas desse período histórico ainda em mãos de particulares fora dos museus globais. A maioria dos quadros dessa etapa pertence ao acervo do Musée d’Orsay, incluindo o retrato do doutor Paul Gachet.
“Arlequin” de Cézanne e mudança no mercadoExibida em lugar de destaque na galeria da Sotheby’s em Londres, a pintura “Arlequin”, de Cézanne, é caracterizada pelo forte contraste de cores. O trabalho faz parte de um conjunto de quatro pinturas de arlequins executadas pelo mestre francês, sendo a única da série que não integra o acervo de um museu público.
A obra ostenta um histórico de procedência notável: passou pelas mãos de grandes negociantes franceses como Ambroise Vollard, Paul Durand-Ruel e Paul Rosenberg. Antes de ser adquirida pela família Blaquier em 1975, integrou exposições dedicadas ao pintor no Museum of Modern Art (MoMA) em Nova York, na Tate de Londres e no Art Institute of Chicago.
O lançamento do acervo no mercado expõe uma transformação geracional mais ampla, marcada pelo desfazimento de coleções montadas entre as décadas de 1960 e 1980 à medida que os colecionadores falecem. Ao mesmo tempo, o segmento impressionista é visto pelos analistas como um refúgio seguro para investimentos em momentos de incerteza econômica.
Newman ressaltou que a venda representa um acontecimento singular para os compradores capazes de arrematar obras com padrão de museu: “É um momento para que esses colecionadores, tanto os já estabelecidos quanto os novos, disputem essas obras, e será muito interessante para todos nós acompanhar.”
Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História. arte coleção curiosidades Leilão Mundo notícias Paul Cézanne Van Gogh Vincent Van GoghTodo conteúdo