Um navio de pesquisa espanhol encontrou 26 ânforas romanas quase intactas a 1.400 metros de profundidade, além de 17 caixas com fragmentos de cerâmica. As peças foram retiradas do mar no dia 5 de setembro pelo navio pesqueiro Miguel Oliver, que participava do programa MEDITS, responsável por avaliar anualmente a saúde dos pesqueiros do Mediterrâneo.
Os objetos pertencem ao tipo Dressel 20, utilizado principalmente para transportar azeite produzido na Bética, região que fazia parte do Império Romano. Esses recipientes eram fabricados às margens do rio Guadalquivir, entre as atuais Sevilha e Córdoba, e tinham capacidade para armazenar entre 40 e 80 litros de azeite.
A argila porosa usada na fabricação fazia com que as ânforas fossem descartadas depois de uma única viagem. Algumas das peças encontradas em Formentera ainda preservam selos e tituli picti, inscrições pintadas que registravam informações como peso, origem e nome do comerciante.
Esses registros podem ajudar pesquisadores a compreender as antigas rotas comerciais. Selos semelhantes já foram encontrados em sítios arqueológicos de Londres e Mogúncia, na atual Alemanha, indicando que o azeite produzido na Bética alcançava regiões distantes do Império Romano.
Um rastro do comércio romanoO uso e descarte das Dressel 20 deixou uma marca impressionante em Roma. O Monte Testaccio, uma colina artificial localizada às margens do rio Tibre, é formado quase completamente por fragmentos dessas ânforas. Estima-se que cerca de 53 milhões de recipientes tenham sido acumulados no local ao longo de um século.
As peças recuperadas em Formentera acrescentam novos elementos para entender como os romanos transportavam grandes quantidades de azeite pelo Mediterrâneo.
Após a descoberta, a equipe do Museu Arqueológico de Eivissa e Formentera ficou responsável pelo recebimento e transporte dos artefatos. O material chegou ao museu em menos de 24 horas.
Uma descoberta difícil de alcançarA profundidade em que as ânforas foram encontradas torna o achado especialmente incomum. Enquanto o mergulho recreativo costuma chegar a cerca de 40 metros, o mergulho técnico alcança aproximadamente 300 metros. A 1.400 metros, são necessárias redes de arrasto, robôs submarinos ou submersíveis para alcançar o fundo do mar.
Por isso, a arqueologia subaquática do Mediterrâneo costuma se concentrar em águas mais rasas. Um naufrágio localizado a essa profundidade é praticamente impossível de ser escavado, tornando uma captura acidental como essa uma oportunidade rara de recuperar os objetos.
Restauração começa no museuA retirada do material do ambiente marinho exige cuidados. Fora da água, o sal pode se cristalizar e provocar a deterioração da cerâmica. Durante o trajeto, a tripulação manteve as ânforas hidratadas com uma mangueira.
Agora, as peças passam pelo processo de dessalinização, realizado em tanques de água, antes da restauração definitiva.
Os selos encontrados nas ânforas ainda não permitiram determinar a data ou a origem exata da carga. Um estudo epigráfico deverá analisar as inscrições individualmente e poderá ajudar a identificar o período do conjunto e, eventualmente, apontar para o naufrágio de onde as peças provavelmente vieram.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes
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