oMelhor.Net

Arqueólogos recriam funeral de princesa coreana morta há cerca de 1.550 anos - Aventuras na História

Arqueólogos recriam funeral de princesa coreana morta há cerca de 1.550 anos - Aventuras na História
Experimento na Coreia do Sul reconstrói rituais do Reino Silla para entender como a nobreza medieval sepultava seus mortos com joias e ritos

Em Gyeongju, na Coreia do Sul, pesquisadores realizaram um experimento para recriar o funeral de uma jovem princesa coreana medieval do Reino Silla, morta há cerca de 1.550 anos. 

A encenação ocorreu no Jjoksaem Archaeological Exhibition Hall, local onde especialistas do Gyeongju National Research Institute of Cultural Heritage trabalham na reconstrução física da tumba Jjoksaem número 44. 

Escavado ao longo de nove anos, entre 2014 e 2023, o sepulcro abrigava os restos de uma criança de aproximadamente dez anos, cujo status real foi confirmado pela qualidade dos artefatos enterrados com ela.

Império medieval coreano

O Reino Silla foi uma das três principais potências da Coreia medieval, dividindo a influência na região com Baekje e Goguryeo. Com sua capital estabelecida em Gyeongju, o estado consolidou seu poder na península coreana durante o século sete e manteve sua soberania até o ano 935. 

A elite dessa sociedade costumava construir monumentos imponentes, consistindo em enormes montes de terra sobre câmaras de madeira que protegiam o falecido e seus pertences pessoais. Conforme o veículo Medievalists.net, o sítio analisado possui um monte funerário de aproximadamente 30 metros de largura, identificado originalmente em 2007.

Rituais de despedida

Em vez de apenas gerar modelos digitais, os arqueólogos optaram pela reconstrução física da estrutura para compreender a sequência de montagem e o esforço logístico da época. O experimento realizado em julho reproduziu três etapas do rito medieval: a deposição da falecida e de seus bens na câmara, as cerimônias realizadas em um altar e o lacre definitivo do compartimento interno. 

Foram utilizadas réplicas dos objetos originais posicionadas exatamente como foram descobertas. Segundo o Medievalists.net, os pesquisadores também repetiram ritos indicados por pistas físicas, como a dispersão de pigmento vermelho e fragmentos de mica, além do uso de sinos de argila.

Reconstrução do processo de construção do Túmulo nº 44 de Jjoksaem, da preparação do local à conclusão da estrutura de pedra e terra. Imagem: Instituto Nacional de Pesquisa do Patrimônio Cultural de Gyeongju. Desafios de engenharia

Fechar a câmara de sepultamento exigiu lidar com o peso dos materiais, testando a viabilidade técnica das teorias sobre o período medieval. A tampa da câmara foi fabricada com 13 pranchas de madeira unidas por 48 grampos de ferro e reforçada por cinco vigas transversais. 

Com cerca de 500 quilos, a peça precisou ser manobrada por meio de dez alças posicionadas em suas bordas. Esse processo permitiu verificar como os antigos construtores manejavam vigas pesadas e organizavam o espaço funerário, algo que cálculos teóricos nem sempre conseguem prever com exatidão.

Ornamentos e sedas

A tumba abrigava centenas de itens que ajudam a reconstruir o vestuário da nobreza medieval, incluindo uma coroa de bronze dourado, sapatos, brincos e ornamentos de ouro, além de um colar longo, um cinto de prata e diversos anéis e pulseiras de ouro e prata.

Entre os bens depositados estavam cerâmicas, objetos de laca, vasos de bronze e ferro, um almofariz de pedra com seu respectivo pilão e pedras para o jogo de Go. O jogo é disputado em um tabuleiro, no qual os jogadores posicionam pedras para cercar territórios e capturar as peças do adversário. Historicamente, o Go esteve associado às elites asiáticas e fazia parte da formação cultural de membros da nobreza.

Um dos achados mais impressionantes foi um par de guarda-lamas para cavalos adornados com o brilho natural das asas de besouros-joia, apresentando um design detalhado que combinava um fundo vermelho com a iridescência das asas dos insetos. Análises laboratoriais também identificaram seda tecida em três cores, tingida com substâncias naturais como rubia e gromwell, além de tecidos de lã fabricados com pelo de cabra. 

Evidências encontradas ao redor do monte indicam que as atividades rituais em memória da princesa continuaram no local, especificamente nos círculos de pedra que circundam o monumento, mesmo após o encerramento do sepultamento.

*Sob supervisão de Éric Moreira

Meu propósito é dar voz a narrativas. Arqueologia Medieval Coreia do sul História Reino Silla Ritos funeráriosTodo conteúdo