A China está aplicando na inteligência artificial a mesma estratégia que levou o país a liderar no mercado de carros elétricos e no varejo digital (do tipo Aliexpress): preços ridiculamente baixos e uma qualidade ligeiramente inferior aos melhores modelos.
Não é propaganda chinesa. Quem diz isso são os analistas de IA dos Estados Unidos. Um estudo feito por uma empresa de San Francisco, a Artificial Analysis, mostra que um modelo novo da DeepSeek chinesa, chamado V4 Flash, custa 100 vezes menos do que o Claude Fable 5, da Anthropic. Enquanto o V4 custa US$ 0,03 para executar uma tarefa, no caso do Fable 5 o preço é de US$ 3,15. É a 2ª vez em pouco mais de 1 ano e meio que um modelo da DeepSeek ganha as manchetes. Em janeiro de 2025, quando foi lançado, o chatbot da startup chinesa ultrapassou o ChatGPT em downloads.
publicidade Formulário de cadastro alertas grátis do Poder360 concordo com os termos da LGPD. Inscreva-se Inscreva-seA própria empresa fez outros testes com o modelo da DeepSeek porque o custo por tarefa ou por token (a métrica padrão de IA) podem ser métricas enganosas. O melhor, segundo a Artificial Analysis, é testar os produtos como se eles estivessem em operação numa empresa, com testes de programação, raciocínio e tarefas do mundo corporativo. Nesse tipo de teste, o V4 Flash marcou 50 pontos, a mesma nota do Gemini 3.6 Flash, do Google, e 1 ponto abaixo do Muse Spartk 1,1, da Meta.
publicidade publicidadeÉ uma pontuação inferior à do Claude Opus 5 (61) ou à do GPT 5.6 (59), mas ataca o mercado mediano de IA, no qual ninguém precisa de ferramentas que resolvam questões insolúveis de matemática. É aí que os chineses querem reinar. O Gemini custa 185 vezes mais; o Muse, 9,6 vezes. Parece uma guerra perdida para os modelos dos Estados Unidos, mas acho que é cedo para decretar esse tipo de coisa, como vou tentar explicar a seguir.
O preço dos produtos chineses de IA não é determinado pelo governo, mas tem forte subsídio. Startups de IA como a DeepSeek pagam menos por energia, um dos maiores custos para desenvolver novos modelos. Há um simplismo no Brasil que reduz a China a mão de obra barata e intervenção estatal. Mão de obra barata é cada vez mais rara na China, e a mão do Partido Comunista Chinês aparece nas grandes resoluções, como a ideia de usar a IA como soft power. No cotidiano das empresas de IA, vigora a competição selvagem, talvez mais selvagem do que nos países capitalistas.
publicidadeHá o outro lado da equação: a reação das empresas norte-americanas ao ataque chinês. O principal produto da resposta dos EUA à IA chinesa é o GPT OSS, da OpenAI, lançado em agosto de 2025. Ele foi criado para conter os modelos abertos chineses, como a OpenAI deixou claro na introdução feita ao produto, resumida em 3 pernas: “Desempenho potente para aplicações reais a baixo custo”. Tanto que no estudo que apontou o preço baixo do novo modelo da DeepSeek, o 2º colocado no ranking é o GPT OSS –seu custo por tarefa é US$ 0,08, só US$ 0,05 acima do V4 Flash da DeepSeek.
Como não há uma centralização de estratégias comerciais de IA na China, seria ingênuo imaginar que as empresas miram só modelos de preços baixos e desempenho mediano. O contraexemplo da IA baratinha foi lançado na 2ª feira (3.ago.2026) por um gigante chinês, a Alibaba. É o Qwen 3.8 Max, o maior modelo de IA já produzido na China e, segundo a Alibaba, melhor até que o mais poderoso modelo dos Estados Unidos, o Claude Fable 5.
A propaganda chinesa apresenta o Qwen 3.8 Max como a 8ª maravilha. Foi feito para escrever programas e atuar em tarefas do mundo real, tem autonomia de operação por longos períodos e é capaz de entender documentos, vídeos e imagens. Ao escrever programas, o modelo atuou completamente autônomo por 16 dias.
publicidadePode ser tudo blábláblá de vendedor, exageros normais da propaganda, mas o novo modelo da Alibaba passou por 2 testes: o do mercado de ações e o dos especialistas em IA. Na 2ª feira do lançamento, as ações da Alibaba subiram 7% em Hong Kong e 4,2% na Bolsa de Nova York.
O modelo só perde para o Claude Fable 5 no ranking geral da Arena AI, um site que reúne a visão de especialistas e usuários de peso. É guerra das boas essa da IA.
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