O presidente americano Donald Trump anunciou, nesta sexta-feira, Kevin Warsh como o próximo presidente do Federal Reserve. Se a indicação for aprovada pelo Senado, Warsh vai substituir Jerome Powell, cujo mandato termina em maio. Ex-diretor do Fed e um dos quatro finalistas numa lista de nomes que era discutida pelo governo, Warsh foi confirmado por Trump por meio de um post na sua plataforma Truth Social.
Saiba: Quem é Kevin Warsh, futuro presidente do Fed indicado por Trump'Política de dólar forte': Secretário do Tesouro dos EUA afasta intervenção no iene japonês“Conheço Kevin por um longo período de tempo e não tenho dúvidas de que ele será lembrado como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor”, escreveu Trump. “Além de tudo, ele é “perfeito para o papel” e nunca vai te decepcionar.”
Veja imagem do post abaixo:
post do trump sobre novo presidente do fed — Foto: Reprodução/Truth Social Continuar Lendo Reação do mercadoO mercado não reagiu bem ao anúncio. As ações americanas passaram a operar em queda nas negociações prévias à abertura das Bolsas. No Brasil, o dólar abriu em alta, com investidores receosos se Warsh manterá um condução técnica à frente do Fed.
Por que Trump achou 'ótimo' o dólar cair? Entenda o que o 'Acordo de Mar-a-Lago' pode ter a ver com issoWarsh terá de lidar com um presidente que, em seu segundo mandato, criticou duramente autoridades do Fed por não reduzirem os juros de forma tão agressiva quanto ele gostaria.
Ex-diretor do Fed, cargo que ocupou entre 2006 a 2011, Warsh chegou a ser cotado para a presidência do BC americano em 2017, mas na ocasião foi preterido pelo próprio Donald Trump, que indicou Jerome Powell para o cargo.
Durante seu período no Fed, Warsh sempre se mostrou cauteloso em relação à inflação e frequentemente apoiou taxas de juros mais altas. No entanto, no ano passado, ele passou a ecoar a visão de Trump de que as taxas poderiam estar significativamente mais baixas.
Mas a escolha de Warsh não garante automaticamente uma mudança na política de juros do Fed. As taxas são definidas por um comitê de 12 membros, composto por sete diretores e cinco dos 12 presidentes dos bancos regionais do Fed.
Na última quarta-feira, o comitê decidiu interromper a queda dos juros e manter a taxa estável entre 3,50% e 3,75% ao ano. Antes disso, os juros foram reduzidos por três vezes consecutivas.
Crítico frequente do FedTrump tem criticado Powell de forma recorrente desde que o atual presidente do Fed assumiu o cargo. Em 2020, Trump lamentou ter selecionado Powell em vez de Warsh
— Kevin, eu poderia ter te usado um pouco mais aqui. Por que você não foi mais incisivo quando queria esse emprego? — disse Trump na época.
Warsh tem aconselhado Trump sobre política econômica desde sua primeira campanha presidencial. Após deixar o Fed, Warsh passou a criticar a instituição. Recentemente, afirmou que ela precisa de uma mudança de regime e propos um plano para reduzir os juros.
Warsh foi nomeado para a diretoria do Fed pelo presidente George W. Bush em 2006, após passagens pela Casa Branca de Bush e, antes disso, por Wall Street. Embora não fosse amplamente conhecido quando se juntou ao banco central, sua experiência e seus contatos nos mercados financeiros e no mundo bancário se mostraram decisivos durante a crise financeira de 2008.
Mais Sobre Donald Trump Trump fatura US$ 2,2 bilhões em 2025, e atividade privada levanta questionamentos sobre conflito de interesses com o cargo Tarifaço: ministro diz que esforço do Brasil é que negociação com Trump seja restrita a 'questões técnicas'Analistas acreditam que, agora na presidência do Fed, Warsh tentará convencer os demais membros do comitê de juros a serem mais agressivos na redução das taxas.
— A avaliação é que ele buscará justificar uma postura mais dovish (favorável à queda dos juros), defendendo a ideia de que os ganhos de produtividade da IA garantirão que a inflação permaneça sob controle — afirmou Mark Dowding, CIO da BlueBay Asset Management.
Outros analistas, porém, acreditam que Warsh tende a resgatar sua postura mais cautelosa em relação aos juros.
“Vemos Warsh como um pragmático, não como um hawk (ou seja, defensor de juros altos) ideológico na tradição do banqueiro central conservador e independente”, escreveram os economistas da Evercore ISI em relatório a clientes.
Para Guillermo Hernandez, chefe de operações da gestora de ativos MPPM, os próximos meses serão cruciais:
— O mercado quer ter certeza da independência do banco central. O início do mandato dele será acompanhado de perto.
Obstáculos para a aprovação no SenadoO anúncio desta sexta-feira põe fim a meses de especulação sobre quem comandaria o Fed, depois que Trump criticou repetidamente Powell por não cortar as taxas de juros. Powell, que Trump nomeou presidente em 2017, deixará o cargo de presidente em 15 de maio, embora seu mandato como diretor do Fed vá até 2028.
Jerome Powell: Tentativa de Trump de destituir governadora do Fed pode ser 'caso jurídico mais importante' na história do bancoGoverno deve enfrentar um caminho complicado para a confirmação no Senado dos EUA. É provável que Warsh seja bem aceito por uma ampla parcela de senadores republicanos, com Bill Hagerty, do Tennessee, que afirmou que ele seria “uma escolha muito clara que os mercados aceitariam e apreciariam”.
Mas um senador-chave, Thom Tillis, republicano da Carolina do Norte e membro do Comitê Bancário, prometeu bloquear qualquer indicado de Trump para o Fed até que o Departamento de Justiça dos EUA conclua uma investigação sobre a reforma da sede do banco central em Washington.
No Brasil: BC prevê para março primeiro corte nos juros em quase dois anos. Veja os fatores que ajudamEssa investigação intensificou ainda mais as preocupações sobre ameaças à independência do Fed.
— As indicações para o Fed não vão mudar até que a investigação e a possível denúncia contra o presidente Powell sejam concluídas — disse Tillis a repórteres no Capitólio na quinta-feira. — Cabe ao Departamento de Justiça decidir quando eu retiro esses bloqueios. Eles são retirados no dia em que o caso for julgado ou arquivado.
Perguntado na noite de quinta-feira se um indicado à presidência do Fed poderia ser confirmado sem Tillis, o líder da maioria no Senado, John Thune, respondeu: “provavelmente não”.
O que dizem os analistas Gennadiy Goldberg, chefe de estratégia de juros dos EUA no TD Securities“O mercado está passando por um twist steepening com a nomeação de Kevin Warsh, já que permanece bastante preocupado com a independência do Fed. Warsh também será difícil de interpretar pelos mercados no horizonte mais longo, pois há muito tempo ele é crítico do Fed, embora grande parte dessas críticas seja de que o Fed tem sido excessivamente dovish (leniente).
Ele também se opõe ao uso do balanço patrimonial pelo Fed. No entanto, o presidente é apenas um dos 12 membros votantes e ainda precisa convencer seus colegas a cortar juros ou a mudar a política do balanço, nenhuma das duas coisas é provável no curto prazo. Por ora, o cenário é de status quo, mas os mercados continuarão tensos até que Warsh deixe suas posições mais claras".
Zach Griffiths, chefe de estratégia macro e de crédito grau de investimento na CreditSights“O twist steepener na curva faz sentido. Talvez Warsh possa aderir à ênfase nos ganhos de produtividade da IA como argumento para juros mais baixos, mas ele tem sido muito crítico da expansão do balanço do Fed, então talvez haja menos otimismo quanto ao uso do balanço do Fed para administrar os custos de financiamento no trecho mais longo da curva no futuro”.
Priya Misra, gestora de portfólio na JPMorgan Investment Management“A reação do mercado, com condições financeiras mais apertadas e uma curva do Tesouro mais inclinada, foca nas críticas de Warsh a um balanço maior. No entanto, a decisão sobre o balanço também depende do nível de equilíbrio das reservas, e acreditamos que outros membros do Fed não apoiarão qualquer redução do balanço.”
Erica Camilleri, analista sênior de macro global na Manulife Investment Management“A nomeação de Warsh como presidente do Fed provavelmente virá acompanhada de algum elemento de reforma do Federal Reserve, o que deve manter elevados os prêmios de risco dos EUA, atuando como um vento contrário ao dólar e sustentando nossa meta de EUR/USD em 1,25.”
David Robin, estrategista de juros na TJM Institutional Services LLC“Warsh é uma escolha dependente de dados e focada na credibilidade do Fed, então os observadores do Fed podem respirar um pouco mais aliviados.
Por outro lado, é difícil imaginar que Trump nomearia alguém que não se comprometesse com juros mais baixos ao longo do tempo, a partir de junho. Mas acho que qualquer reação definitiva de mercado no horizonte mais longo precisa de tempo e de dados.”
Tony Farren, diretor-gerente de vendas e negociação de juros no Mischler Financial Group“Não me surpreende que os Treasuries sofram venda, mas me surpreende o formato da curva, por causa da reputação dele. Tenho certeza de que ele teve de ceder em alguns pontos, mas, uma vez no cargo, pode fazer o que quiser.
Achei que a curva se achataria com um anúncio de Warsh, justamente por sua reputação hawkish — menos cortes, mas inflação mais baixa e um dólar mais forte — e estamos vendo o oposto. Acho que isso vai se reverter.
As ações estão tendo a reação que eu esperava — mais fracas, porque antecipam menos cortes de juros com Warsh em vez de Hassett, com um dólar mais forte porque ele é bem respeitado e tem firme domínio da política.”
Ed Al-Hussainy, gestor de portfólio na Columbia Threadneedle Investments“Se Warsh for precificado como menos crível no combate à inflação, os breakevens de longo prazo deveriam ser mais altos”, e também se espera maior volatilidade das taxas devido à “maior incerteza tanto em torno do caminho do Fed no curto prazo quanto das expectativas de inflação no longo prazo”.
“O que não sabemos é como Warsh agirá no cargo, se o consenso de curto prazo no FOMC vai mudar e se tornar menos sensível aos dados, e se outras prioridades da administração, como juros hipotecários mais baixos, influenciarão as decisões.”
Ian Lyngen, chefe de estratégia de juros dos EUA no BMO Capital Markets“É um bear steepener moderado — e já vimos isso precificado. A lógica é que os investidores veem Warsh como menos propenso a usar o balanço do Fed para influenciar os rendimentos dos Treasuries de prazo mais longo. Isso não mudou nossa perspectiva para o Fed — ainda vemos cortes de 50 a 100 pontos-base este ano, dependendo de como os dados evoluírem. Warsh é uma boa escolha para a credibilidade do Fed.”
Elias Haddad, chefe global de estratégia de mercados no Brown Brothers Harriman“Se a visão de política do Fed de Warsh for implementada, a curva de juros dos EUA pode se inclinar ainda mais, à medida que as taxas curtas caem, enquanto as taxas de longo prazo podem permanecer rígidas ou até subir, devido à falta de credibilidade fiscal dos EUA.”
Krishna Guha, chefe de estratégia de bancos centrais no Evercore ISI“A escolha de Warsh deve ajudar a estabilizar um pouco o dólar e reduzir (embora não eliminar) o risco assimétrico de uma fraqueza profunda e prolongada do dólar, ao desafiar as operações de desvalorização — o que também explica por que ouro e prata estão fortemente em queda.
Mas aconselhamos a não exagerar na aposta hawkish em Warsh em todos os mercados de ativos — e vemos até algum risco de whipsaw. Vemos Warsh como um pragmático, não um falcão ideológico, na tradição do banqueiro central conservador e independente.”
Alex Cohen, estrategista de câmbio no Bank of America“No curto prazo, o mercado está bem ciente de que qualquer um dos candidatos defenderia juros mais baixos, portanto as implicações imediatas devem ser limitadas. Warsh é um falcão bem conhecido quando se trata do balanço do Fed. Se isso continuará sendo verdade caso os supostos cortes de juros não se transmitam ao longo da curva será o ponto crítico a observar.”
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