A Polícia Federal (PF) vai investigar se influenciadores foram contratados para atacar de forma coordenada autoridades e instituições envolvidas na liquidação do Banco Master. Levantamento feito a pedido do GLOBO pela empresa Bites, especializada em análise de dados, mostrou que nos 12 últimos dias de novembro, após a liquidação do Master, Daniel Vorcaro teve 844 mil menções, que provocaram 6,2 milhões de interações nas redes sociais.
Banco Master: TCU não pode reverter liquidação, diz presidente do órgãoMaster: Recuo do relator foi resultado de pressão que mobilizou ministros do TCU, STF e do governo LulaJá entre 20 e 31 de dezembro, foram 1,2 milhão de menções — gerando 12,8 milhões de interações —, um salto de 42%. O levantamento considera as redes X, YouTube, Facebook, notícias, Reddit, páginas selecionadas de políticos e imprensa no Instagram, blogs e fóruns.
As menções com mais interações foram dominadas por políticos e influenciadores da direita, especialmente da ala bolsonarista, com tom crítico ao caso Master e de ataque ao ministro Alexandre de Moraes. Na análise automática por IA, 64,9% das mensagens tinham teor negativo; apenas 5,5% tinham viés positivo.
Master: Caixa insuficiente, compulsório, fraude e patrimônio: veja em 4 pontos as razões dadas pelo BC ao TCU para liquidar o bancoJá as menções ao Banco Central (BC) no mesmo período de dezembro chegaram a 581 mil, contra 103 mil nos últimos 12 dias de novembro, uma alta de 5,6 vezes no volume. Houve 67,2% de menções negativas, contra 4,5% positivas.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo: no alvo digital — Foto: Cristiano Mariz / Agência O GloboAs menções ao BC ou a seu presidente, Gabriel Galípolo, mostram que a instituição foi muito associada com os termos autonomia, independência e “técnica” (tratando a decisão de liquidação como "técnica"), ou acusando uma suposta tentativa de interferência nas decisões da autoridade monetária.
Volume atípicoConforme mostrou reportagem da colunista do GLOBO Malu Gaspar, publicada ontem, dois influenciadores de direita contaram ter recebido propostas para difundir em seus perfis a narrativa de que o BC havia sido precipitado ao decretar a liquidação do Master.
Entrevista: ‘Governo não tem dado apoio ao BC’, avalia ex-diretorRony Gabriel, que é vereador pelo PL em Erechim (RS) e tem 1,4 milhão de seguidores, e Juliana Moreira Leite, que se apresenta nas redes como @jliemilk e também tem 1,4 milhão de seguidores, disseram ter sido contatados por agências que trabalham com influenciadores. Ambos recusaram.
Outro levantamento aponta um volume atípico de citações com críticas ao BC e à Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), no contexto da liquidação do Master, em 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, no fim de 2025.
Caso Master: Sob pressão, ministro do TCU deve paralisar inspeção no Banco CentralIsso ocorreu em novembro, logo após a liquidação do banco de Daniel Vorcaro, e em dezembro, quando o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que o BC desse explicações sobre sua decisão. Cerca de 80% das citações são opiniões negativas ou ataques tanto à atuação do BC, à defesa que a Febraban fez da autoridade monetária, mas também a Vorcaro e sua instituição.
O vereador de Erechim (RS) Rony Gabriel (PL), que afirma ter recebido propostas para difundir em seus perfis nas redes sociais a narrativa de que o Banco Central havia sido precipitado ao decretar a liquidação do Master — Foto: ReproduçãoO levantamento foi feito a pedido do GLOBO pela Palver, empresa de inteligência de dados. Os dados mostram que, em outubro a cada 100 mil mensagens trocadas nestes grupos, havia pouco mais de 120 menções a BC, Febraban e Master.
Imbróglio: PF marca novos depoimentos de ex-dirigentes de bancos Master e BRBJá no dia 18, data da liquidação, as menções subiram para mais de 770 a cada 100 mil mensagens trocadas, atingindo o pico em 24 de novembro, quando chegaram a mil. Na reta final de dezembro, as citações voltam a subir, também chegando a quase mil menções.
— Tirando as mensagens neutras, 80% das demais são de críticas ao BC, à Febraban e até mesmo ao Master, dentro do contexto de liquidação do banco ou de atuação dessas entidades. Nas mensagens, os usuários dizem que tanto a liquidação do banco como a decisão do BC e o apoio da Febraban têm um viés político — diz Luis Fakhouri, cofundador e diretor de estratégia da Palver.
Repercussão: Inspeção do BC pelo TCU ‘é uma usurpação’, critica ex-presidente da CVMO levantamento mostra que as três instituições foram citadas por 287 mil usuários. Fakhouri observa que os comentários apareceram em grupos com viés político de direita, como o Direita Brasil e o Pátria Amada Brasil, mas também em alguns de esquerda, como o Debate Político.
No universo pesquisado também há grupos que discutem temas aleatórios como moda, animais e meios de transporte, por exemplo.
Entre as críticas levantadas pela Palver, um usuário diz que “imagina se algum brasileiro honesto vai apoiar o trabalho de uma das instituições mais podres do país”, referindo-se ao BC. Outro comenta que “é uma piada acreditar que a Febraban é uma instituição técnica e apolítica”. Já outra mensagem critica o fato de o TCU apurar a liquidação do Master, sinalizando que há intenção de absolver Vorcaro.
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