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Ferramentas de pedra de 2,75 milhões de anos revelam tecnologia de ancestrais humanos Ciência Galileu

Ferramentas de pedra de 2,75 milhões de anos revelam tecnologia de ancestrais humanos Ciência Galileu
Estudo internacional revela tradição tecnológica de hominínios, mesmo com mudanças climáticas extremas. Pedras cortantes eram usadas para processar carne e vegetais, mostra estudo que contou com pesquisadores de 13 países, incluindo o Brasil

Mesmo diante de incêndios recorrentes, longos períodos de seca e mudanças radicais no ambiente, os primeiros hominíneos (primatas ancestrais dos humanos) do Quênia mantiveram a mesma tecnologia de ferramentas de pedra por cerca de 300 mil anos. Lâminas eram feitas com calcedônia, rocha rara e ideal para itens afiados, e mostram escolha intencional e habilidade técnica.

É isso o que mostra um estudo internacional publicado na Nature Communications, que identifica no sítio arqueológico Namorotukunan, no noroeste do país, um dos registros mais longos e antigos da chamada tecnologia Olduvaiense, datada de 2,75 a 2,44 milhões de anos atrás.

As ferramentas — afiadas com precisão e usadas para cortar carne e vegetais — revelam uma impressionante consistência técnica entre gerações. Para os autores, isso indica que o domínio do corte e a transmissão de conhecimento já eram práticas consolidadas há quase três milhões de anos.

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A escolha sistemática desse material indica conhecimento técnico e geológico refinado, mostrando que esses grupos sabiam identificar e selecionar as melhores pedras para obter lâminas mais precisas e duráveis. Essa seleção criteriosa revela não apenas habilidade prática, mas também planejamento e transmissão de conhecimento entre gerações, explica Dan V. Palcu Rolier, autor correspondente do estudo, ligado ao Instituto de Geociências da USP, ao GeoEcoMar (Romênia) e à Universidade de Utrecht (Holanda).

A equipe chegou às novas datas combinando métodos geológicos: análise de cinzas vulcânicas, assinaturas químicas das rochas e variações magnéticas registradas nos sedimentos. Esses indicadores permitiram reconstituir o ambiente do Plioceno, um período em que o vale do Turkana passou de planície úmida e fértil a um cenário árido e instável.

Durante essas transformações, os fabricantes das ferramentas se adaptaram, mas sem abandonar sua tradição técnica. “Namorotukunan oferece uma janela rara para um mundo em transformação — rios que mudavam de curso, incêndios se alastrando, a aridez se instalando — e as ferramentas, inabaláveis. Por cerca de 300 mil anos, o mesmo ofício persistiu. Talvez aí estejam as raízes de um dos nossos hábitos mais antigos: usar tecnologia para nos equilibrar diante da mudança”, afirma Rolier.

As evidências também sugerem um marco evolutivo importante: o uso de ferramentas para ampliar a dieta, incluindo carne e medula óssea, conferiu aos hominíneos uma vantagem de sobrevivência em tempos de instabilidade climática. “O registro fóssil das plantas conta uma história incrível: a paisagem passou de pântanos exuberantes a campos secos varridos pelo fogo. À medida que a vegetação mudava, a confecção de ferramentas se mantinha firme. Isso é resiliência”, comenta Rahab Kinyanjui, do Museu Nacional do Quênia, também autor do trabalho.

O estudo foi conduzido por pesquisadores de instituições do Quênia, Etiópia, Estados Unidos, Brasil, Alemanha, Índia, Holanda, Portugal, Romênia, Espanha, África do Sul e Reino Unido. No Brasil, o trabalho contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Linha do tempo da Tecnologia Oldowna, encontrada no Quênia — Foto: Divulgação

Este artigo foi publicado originalmente pela Agência Bori.

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