*Alerta: Esta reportagem aborda violência sexual contra criança. Se você é sensível ao tema, pode despertar gatilhos. Veja abaixo como denunciar.
Publicidade?Eu nunca gostei, eu nunca entendi, mas eu achava normal, até porque, [desde a] minha primeira lembrança de criança, isso já acontecia.? Essas palavras são da moradora de Novo Hamburgo Bruna Feltes, de 27 anos, que usou suas redes sociais para denunciar diversos abusos sexuais que sofreu ao longo de 12 anos, na infância.
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Em vídeo, Bruna conta que os abusos praticados por um amigo da família começaram antes mesmo de ela entender de que aquilo não era certo. ?A primeira lembrança que eu tenho quando criança, eu já lembro que aconteciam esses abusos.? O homem tem mais de 80 anos e reside atualmente em Tramandaí, no litoral norte.
Segundo ela, o crime ocorria com frequência na casa de praia do suspeito, na cidade litorânea, e também quando o idoso visitava a casa da vítima no Vale do Sinos. A jovem diz que normalizou por muito tempo o comportamento, até começar a ouvir comentários de que o homem costumava tocar em outras pessoas.
Os episódios de violência só reduziram por volta dos seus 14 ou 15 anos, quando o contato familiar diminuiu e a vítima passou a compreender a gravidade do que havia vivenciado.
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A rotina de abusosBruna recorda que os crimes não aconteciam só na casa de veraneio, mas em todos os lugares que ela encontrava o abusador quando criança. A hamburguense recorda que existia uma ?rotina? seguida pelo idoso, e que a esposa dele era conivente.
?Quando eu ia passar férias lá, eu dormia com a esposa dele e ele dormia no segundo andar, mas eu tinha uma rotina. Todo dia, durante o período da noite, ela me mandava subir com ele, e ele botava algum desenho para eu assistir. Lá aconteciam os abusos.?
PublicidadeNa manhã seguinte, enquanto a mulher saía para molhar as plantas no pátio da casa, o homem se aproximava de Bruna. ?Todas as manhãs, ele ia até o quarto onde eu dormia e abusava de mim.?
Ela relembra também que, quando tinha por volta de 6 anos, o homem também lhe apresentou a pornografia.
Publicidade Moradora de Novo Hamburgo revela 12 anos de abusos sexuais sofridos na infânciaAssista a este vídeo no YouTubeAs viagens e a conivência da esposaPresentes, brinquedos caros e viagens a Santa Catarina são algumas das ofertas do homem à então criança. Enquanto estava em território catarinense, Bruna ficava a maior parte do tempo sob responsabilidade do abusador, enquanto a esposa dele fazia atividades do hotel.
Nestas viagens, ela ainda era obrigada a dormir na mesma cama que o homem. ?Quando a gente ia viajar para hotéis, a esposa dele falava que eu tinha que dormir com ele, porque ele roncava demais. (?) Todas as noites eu era abusada. Todos os dias eu era abusada. Todos os momentos eu era abusada.?
Em um dos trechos mais fortes do vídeo, Bruna mostra uma foto de quando era criança, vestindo um maiô, e conta que, logo antes do registro, teria sido tocada por ele.
Publicidade O confrontoAos 23 anos, Bruna decidiu revelar a situação aos pais, descobrindo que eles desconheciam completamente os crimes. Na época, movida pela dor e em busca de respostas, a jovem foi até a casa do suspeito e gravou escondida uma conversa.
A família da vítima acabou não prestando apoio na época. Bruna explica que os parentes ganharam diversos benefícios financeiros do suspeito, incluindo uma casa dada ao pai.
PublicidadeNo áudio divulgado por ela no vídeo, o homem admite ter tocado no corpo da vítima quando ela era criança.
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Publicidade Uma carta do passadoUm ponto marcante na história ocorreu anos atrás, quando encontrou na casa da avó uma carta de 17 páginas escrita pela filha do agressor ? uma médica morta a tiros em São Paulo antes de Bruna nascer.
O documento contava com descrições de diversos crimes e relatos da própria filha, que revelava ter sofrido abusos do pai. A influenciadora guardou uma cópia do material em segredo por mais de uma década.
A denúnciaBruna revelou à reportagem do ABCmais que só formalizou denúncia junto à Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Novo Hamburgo em agosto deste ano. ?Eu acho que foi a parte mais difícil. Eu achei que a parte mais difícil ia ser falar com ele, enfrentar ele, gravar o áudio, mas desse processo de gravar o áudio até formalizar a denúncia, se foram anos.?
O processo de ir até as autoridades ocorreu graças ao apoio do pai de Bruna. ?Na segunda vez, eu conversei com meu pai. Meu pai falou: ?Vamos denunciar então e vamos para a delegacia?. E aí eu fui e fiz a denúncia. Fui na delegacia, fiz um boletim de ocorrência, depois recebi acolhimento das psicólogas da delegacia e, depois, prestei o meu depoimento.?
O boletim de ocorrência foi registrado em 7 de agosto e, no fim do mês, Bruna prestou depoimento. O delegado responsável pelo caso, Alexandre Quintão, revelou que o inquérito foi instaurado e que, até o momento, só a vítima foi ouvida.
O suspeito deve ser ouvido por meio de carta precatória ? quando um juiz pede a outro para ouvir uma testemunha, réu ou suspeito em outra cidade, já que o homem reside em Tramandaí.
Bruna agora aguarda os trâmites legais e finalização do inquérito pela polícia, mas, para ela, é importante que ninguém sinta medo em denunciar. ?Eu divido essa dor com outras pessoas e isso é horrível (?) Essas pessoas também não têm força, coragem para denunciar, e eu acho que a coragem que me fez denunciar, porque é absurdo, é uma dor que não dá para mensurar?, completou.
Como denunciar abuso sexual infantilPara denunciar abuso sexual infantil, seja pela internet ou não, casos de pornografia ou pedofilia, é importante denunciar. Isso pode ser feito pelos seguintes canais:
Disque 181; Divisão Especial da Criança e do Adolescente (DECA) da Polícia Civil: (55) 98454-1004 ? WhatsApp; Delegacia online da Polícia Civil: www.delegaciaonline.rs.gov.br; E-mail da DECA da Polícia Civil: dpgv-deca-denuncias@pc.rs.gov.br; Polícia Federal: www.dpf.gov.br; SaferNet: www.denunciar.org.br.Se tiver acesso a imagens ou textos de pornografia infantil ou pedofilia: anote os dados de e-mail, número de IP e quaisquer outros detalhes que conseguir para encaminhar junto à denúncia.
Quanto mais rápida for feita a denúncia, maiores as chances das investigações chegarem aos suspeitos.
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